quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Mitos e verdades sobre a soja na alimentação de cães

Alina Stadnik Komarcheuski, Gislaine C. Bill Kaelle, Lidiane P. Domingues 

Introdução

Muitos mitos circundam o uso de qualquer derivado da soja na alimentação canina. Dentre eles, a imagem negativa que a soja tem no mercado, uma vez que cães são carnívoros. Por isso, muitas pessoas acreditam que os cães devem ser alimentados apenas com proteína de origem animal, ou seja, apenas com carne. Na verdade, carnívoros precisam de alta proteína na dieta, não importanto se essa proteína é de origem vegetal ou animal, desde que apresente alta qualidade. O artigo a seguir abrangerá tal assunto, de maneira que possa desmitificar o apelo negativo do uso da soja e seus derivados na composição de rações destinadas aos cães.

Soja

A soja é o grão mais produzido no Brasil e é a principal fonte protéica utilizada na alimentação de aves e suínos. Inclusive para humanos, muitos benefícios à saúde foram atribuídos ao consumo de soja.

Nos últimos anos, têm aumentado a inclusão de derivados da soja na alimentação pet, em função da alta qualidade e teor protéico destes. O grão de soja apresenta 36% de proteína e pode chegar até 90,0% de proteína bruta na proteína isolada de soja. No Brasil, a inclusão de derivados da soja nos alimentos comerciais para cães, associado às farinhas de origem animal, tem possibilitado equilíbrio entre os níveis de proteínas e minerais das dietas, garantindo dietas mais balanceadas.

Vantagens e desvantagens da soja na alimentação de cães

No quadro 1, estão resumidas as principais vantagens e desvantagens do uso da soja na alimentação de cães.

Quadro 1. Vantagens e desvantagens do uso da soja na alimentação de cães.

Perfil de aminoácidos da soja

A soja grão e seus derivados são uma das fontes proteicas vegetais mais utilizadas para cães. A maior atenção conferida à soja se deve ao seu alto teor protéico, pois apresenta um perfil de aminoácidos mais próximo às farinhas animais (Figura 1).

Figura 1. Comparação do teor de aminoácidos entre o farelo de soja e a farinha de vísceras de frango.
                                                              Adaptado do NRC (2006)   

A associação dos derivados de soja, com as farinhas de origem animal é recomendada à nutrição canina, pois permite fornecimento dos níveis de proteínas e aminoácidos desejados, ao mesmo tempo em que modera os níveis de macrominerais (principalmente cálcio) nas formulações. Por serem resíduos de abatedouro, muitas farinhas de origem animal apresentam altas quantidades de ossos, o que aumenta muito o teor de minerais desses ingredientes. O excesso de minerais resulta na diminuição da digestibilidade do alimento, interfere na motilidade intestinal, acarretando em fezes excessivamente secas e eleva o conteúdo de cálcio, fósforo e magnésio do alimento. Em excesso, esses minerais podem causar anomalias ósseas nos cães, principalmente nos animais de raças grandes e gigantes.

A composição nutricional e a biodisponibilidade dos nutrientes das farinhas de origem animal são mais variáveis, que as fontes protéicas vegetais, pois são influenciadas, entre outros fatores, pelo nível de inclusão dos diferentes tecidos animais e pela temperatura e tempo de processamento da farinha.

Fatores antinutricionais da soja

O termo “fator antinutricional” é geralmente usado para descrever compostos que reduzem o valor nutritivo dos alimentos (Sgarbieri,1987). 

Os principais fatores antinutricionais da soja são as lectinas e os inibidores de proteases. As lectinas aglutinam às células intestinas, prejudicando a absorção dos nutrientes. Os inibidores de proteases (inibidores de tripsina e quimotripsina) se ligam às enzimas digestivas tripsina e quimotripsina e impedem que estas atuem sobre as proteínas, prejudicando a digestão protéica e a absorção dos aminoácidos da dieta.

Apesar do efeito deletério desses fatores antinutricionais, estes são desativados durante o processamento térmico da soja. Portanto, após o correto processamento não ocorrerá tais efeitos negativos aos animais. Entretanto, a presença de compostos termoestáveis no grão de soja, como as fibras solúveis (parte da hemicelulose e pectinas) e açúcares (rafinose, estaquiose e verbascose) também podem apresentar efeitos indesejáveis aos cães, principalmente no volume e consistência fecal.

As fibras e os açúcares da soja são altamente fermentáveis no intestino, podendo resultar em flatulência e na produção de fezes em maior volume e menos consistentes pelos cães. Desse modo, esse é o principal limitante da inclusão da soja na alimentação pet, uma vez que seus efeitos não são reduzidos pelo processamento térmico da soja. A inclusão máxima de 10% de farelo de soja em alimentos comerciais para cães, geralmente não resulta em problemas de consistência fecal, isso irá depender também da formulação da dieta.

Apesar disso, as fibras solúveis são importantes para a saúde intestinal e geral do organismo, principalmente para animais idosos, obesos e diabéticos. Isso porque elas irão diluir as calorias da dieta, aumentar a saciedade, controlar o consumo de alimento, reduzir a glicemia, evitar a constipação e podem reduzir o crescimento de bactérias patogênicas no intestino. Esses efeitos são os mesmos nas pessoas, que comem fibras para melhorar sua saúde.

Processamento da soja

O farelo de soja é o derivado proteico de soja mais utilizado na dieta de cães. Ele é produzido após a retirada do óleo da soja para consumo humano. Além do óleo, outros componentes do grão de soja podem ser retirados, gerando diferentes derivados de soja, com diferentes valores nutricionais (Figura 2). Dentre os derivados de soja, a proteína isolada de soja é o que apresenta o maior valor nutricional. É um ingrediente de altíssima digestibilidade, que pode ser encontrado em alimentos super premio para cães, muitas vezes com o nome de “proteína vegetal”.
FDS: farinha desengordurada de soja; CP: concentrado protéico: PIS: proteína isolada de soja. PB: proteína bruta; EE: extrato etéreo (gordura); FB: fibra bruta; MM: matéria mineral; ENN: carboidratos

Figura 2. Composição nutricional de derivados de soja (Félix, 2011)

Digestibilidade da proteína da soja

Observa-se na Figura 3 que todos os derivados de soja apresentam alta digestibilidade da proteína (de 84,7% a 98,8%) por cães. Portanto, ao contrário do pré-conceituado por muitos, a proteína da soja, quando bem processada (com correta inativação dos fatores antinutricionais termolábeis e redução das fibras e açúcares) são bem digeridas, inclusive podendo ser mais digestíveis que farinhas de origem animal.
PIS: proteína isolada de soja; SM: soja micronizada; FS48: farelo de soja com 48% de proteína bruta; CPSH: concentrado protéico de soja hidrolisado; FS45: farelo de soja com 45% de proteína bruta; FDS: farinha desengordurada de soja; SGT: soja grão tostado.

Figura 3. Digestibilidade da proteína bruta (CDAPB) de derivados protéicos de soja e da farinha de vísceras de aves (FVA) em cães. 

Qualidade das fezes

A característica fecal é um fator de grande importância, uma vez que os donos estão cada vez mais atentados a esse assunto, desejando fezes mais higiênicas, que facilitem a remoção e de menor odor. Embora a proteína da soja seja bem aproveitada por cães, a presença de fibras e açúcares na soja pode resultar na produção de fezes em maior volume e menos consistentes. Contudo, a remoção desses carboidratos da soja, como para a produção de proteína isolada de soja, reduzirá os efeitos deletérios da inclusão da mesma na dieta sobre as fezes desses animais. Esse fato está ilustrado na figura 3, na qual se pode observar que apenas os cães alimentados com as dietas contendo proteína isolada de soja e farinha de vísceras de aves produziram fezes menos úmidas e mais consistentes.

PIS: proteína isolada de soja; SM: soja micronizada; FS48: farelo de soja com 48% de proteína bruta; CPSH: concentrado protéico de soja hidrolisado; FS45: farelo de soja com 45% de proteína bruta; FDS: farinha desengordurada de soja; SGT: soja grão tostado.

Figura 3. Umidade das fezes de cães alimentados com dietas contendo 30% de um derivado protéico de soja ou farinha de vísceras de aves (FVA). 

Palatabilidade da soja

Testes de palatabilidade proporcionaram respostas em relação à aceitabilidade dos animais à ingredientes das rações. Nesse caso, a soja e seus derivados, uma vez que a palatabilidade pode estar ligada à preferência do animal. Assim, pode-se utilizar isso como argumento favorável na utilização deste ingrediente na composição de rações.

Em relação à preferência alimentar, observa-se na figura 5 que, ao contrário do pré-conceituado por muitos, os cães apresentaram maior consumo pela dieta contendo farelo de soja com 46% de proteína, em comparação à dieta com farinha de vísceras de aves (Félix, 2011). Cabe ressaltar que as dietas avaliadas apresentaram a mesma formulação, incluindo o mesmo nível de palatabilizante, sendo a única diferença a inclusão de farinha de vísceras de aves ou farelo de soja.

*P<0,05
Figura 5. Consumo de alimentos secos extrusados contendo farinha de vísceras de aves ou farelo de soja como principais fontes protéicas por cães (Adaptado de Félix, 2011).

Conclusões

A soja é uma fonte protéica de alta qualidade para cães e gatos, desde que bem processada e aliada a outras fontes protéicas para complementar os níveis de aminoácidos essenciais da dieta. A remoção das fibras e açúcares da soja permite maior aproveitamento da proteína e aumenta a consistência das fezes. Entretanto, apesar do efeito adverso das fibras da soja sobre a consistência fecal, estas podem contribuir com a saúde intestinal. Desse modo, segundo a finalidade da dieta, pode se utilizar diferentes derivados da soja, com características nutricionais e custos distintos, como importantes aliados à nutrição ótima dos animais de companhia.


Literatura citada
FELIX, A.P. Avaliação nutricional de derivados protéicos de soja para cães. Tese (Doutorado em Ciências veterinárias). Universidade Federal do Paraná – UFPR. Curitiba-PR. 2011, 188p. NATIONAL RESEARCH COUNCIL, NRC. 2006. Nutrient Requirements of Dogs and Cats. National Academy Press. Washington, DC, USA. Sgarbieri VC. Alimentação e Nutrição. São Paulo: Almed; 1987.

Demais imagens
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