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Decifrando o rótulo do alimento pet food

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Importância da ingestão de água para o gato

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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Você sabe como as dietas comerciais destinadas a cães e gatos são fabricadas?

Daniele Cristina de Lima

Introdução

Em meados da década de oitenta, os animais de estimação eram alimentados basicamente com restos de comida de seus proprietários e poucas indústrias de ração existiam no Brasil. Com a expansão dos grandes centros urbanos este quadro mudou. A população pôde aumentar seu poder aquisitivo e passou a ter maior preocupação com a alimentação dos animais de estimação. Começam a se preocupar em fornecer uma dieta balanceada para seus pets (PET BR, 2003). A partir daí o mercado pet food vem crescendo ano após ano.

Hoje, há uma infinidade muito grande de alimentos completos destinadas a cães e gatos, sem contar os alimentos ditos específicos ou mastigáveis (alimentos com ou sem valor nutricional dados aos pets como forma de agrado ou recompensa). Entre os alimentos completos os quais podem ser fornecidos a cães e gatos no mercado, destacam-se os alimentos, úmidos, semi úmidos e secos. 

Os alimentos úmidos são aqueles encontrados em latinhas ou saches. Apresentando umidade de 70 a 85%, este tipo de alimento tem como objetivo fornecer uma refeição individual para o pet. É formulado a base de proteínas e gorduras com pequena concentração de carboidratos. Alimentos úmidos são processados em cozimento sobre pressão semelhante a uma autoclave. São produtos mais onerosos em relação aos outros por apresentarem alto teor de proteína, umidade e pelo tipo de embalagem o qual deve ser utilizado para que o alimento não estrague facilmente. 

Já os alimentos semiúmidos e secos são produzidos de forma muito parecida. Ambos passam pelo processo de extrusão – processo semelhante ao aplicado para a fabricação de salgadinhos para humanos. A grande diferença é que os alimentos semiúmidos não passam pelo processo de secagem. Estes, apresentam umidade entre 15 -25% e por isso apresentam uma textura macia que cede ao apertar entre os dedos. As embalagens dos produtos semiúmidos são mais caras que as das rações secas, uma vez que é produzida para uma maior proteção contra a perda de água, pois a desidratação afeta sua plasticidade e palatabilidade, tornando-os mais duros e mais secos que os alimentos secos. 

Alimentos secos representam a maior parte do que é produzido e vendido (figura 1). Neste caso, assim como para alimentos semiúmidos, fontes de carboidratos podem representar até 50% da fórmula, isso acaba barateando o valor do produto final. E é exatamente este processo de extrusão que transforma estas fontes de carboidratos em fontes com boa digestibilidade para cães e gatos. 

Alimentos extrusados representam 97% do mercado pet food no Brasil hoje (figura 1). Por isso, abordaremos este processo tão interessante neste artigo. 

Figura 1: Porcentagem de vendas para alimentos úmidos, semiúmidos e secos.

Processo de extrusão

Primeiramente, o formulador das dietas comerciais seleciona a matéria prima. Ou seja, quais fontes de proteína, lipídios, carboidratos e alimentos funcionais serão utilizadas para cada tipo de dieta e finalidade. É realizada a mistura dos ingredientes e feita a moagem, a partir daí estas fontes apresentam uma forma de “pó” e esta mistura é chamada de matéria prima. 

A extrusão de alimentos é um processo no qual a matéria-prima utilizada é cozida em um tubo, com a presença de umidade, pressão, temperatura e fricção mecânica, adquirindo assim uma forma plástica. O processo de extrusão é composto por um silo de alimentação, condicionador, extrusor e conjunto de matriz e corte (figura2). Este processo assemelha-se muito a uma panela de pressão em que após o cozimento do feijão por exemplo, é muito mais fácil e saboroso consumi-lo. 

Figura 2: Sistema do processo de extrusão.
A extrusão é considerada um processo de alta temperatura e curto espaço de tempo (high temperature – short time – HTST), com período de residência do alimento no extrusor de 1 a 2 minutos. A extrusão aumenta a digestibilidade das proteínas, amido, energia e elimina microrganismos (KRABBE, 2007).

O silo alimentador tem como função fazer com que a matéria prima tenha um fluxo contínuo e controlado de alimentação para o condicionador e, consequentemente, ao canhão extrusor. O condicionador é utilizado na produção de alimentos para animais de estimação desde 1960 e é responsável pelo aquecimento, hidratação e mistura do material seco.  

Enquanto a mistura está no condicionador, água e vapor são adicionados. A água é introduzida na parte superior do condicionador com o auxílio de aspersores, enquanto o vapor é adicionado pela parte inferior do corpo do condicionador. O objetivo é aumentar a temperatura e umidade da mistura para aumentar a estabilidade da extrusora e a qualidade do produto final. A umidade da matéria prima fica em torno de 10 a 25% e a temperatura entre 70 e 90°C (RIAZ, 2003).

Além disso, o condicionador promove textura mais plástica à mistura antes da extrusão. Dessa maneira, auxilia no cozimento e reduz drasticamente o desgaste das peças do extrusor por abrasão. Nesta fase do processo de extrusão podem ser adicionados gorduras, óleos, carne fresca, corantes e outros aditivos líquidos. Isso assegura completa mistura de todos os ingredientes da fórmula antes de entrarem no canhão extrusor. Normalmente as gorduras são adicionadas ao fim do processo no condicionador. Isso acontece porque as gorduras podem encapsular as partículas dos cereais e isso pode comprometer a absorção de umidade e transferência térmica, requeridas para realizar a gelatinização do amido. Alimentos com teor alto de gordura podem permanecer por maior tempo e intensidade de mistura no condicionador para garantir maior gelatinização (ROKEY et al., 2012).

Após o período em que o material atravessa o condicionador este passa para o canhão extrusor. O extrusor tem a finalidade de realizar a maior parte do processo de extrusão e, consequentemente, a gelatinização do amido contido no produto. O extrusor é dividido em três fases: setor de alimentação, setor de cisalhamento e setor final ou cocção. O setor de alimentação tem a função de transportar o material condicionado para o interior do canhão. Já o setor de cisalhamento é responsável pela transformação da mistura em uma massa amórfica (figura 3). Por fim, o setor de cocção é a parte imediatamente anterior ao sistema de matriz e ao corte. No extrusor intercorre a maior alteração do material que foi parcialmente cozido no condicionador. Esta transformação determina as características finais do produto (ROKEY et al., 2012).

Figura 3: Extrusora de rosca simples, com suas respectivas zonas/seções (Adaptado de Harper, 1977)
O canhão é um tubo com sistema de rosca-sem-fim. Este sistema de rosca tem o intuito de comprimir a massa e dessa maneira gerar energia mecânica. A ação da rosca, que pode ser simples ou dupla (figura 4), criará energia térmica por meio do atrito. Quando isso acontece, a temperatura da massa é elevada e ocorre a gelatinização do amido (CHUANG & YEH, 2004). Para auxiliar o aumento da temperatura é possível realizar injeção de vapor direto na massa (ABECASSIS et al., 1994).
Figura 4: Canhão extrusor com rosca simples e rosca dupla.
Quando vapor é injetado no canhão extrusor há grande contribuição para o cozimento do alimento, pois, esta energia térmica adicional pode aumentar a capacidade da extrusão e melhorar a qualidade de fórmulas com maior teor de gordura. A correta adição de umidade e configuração dos elementos do extrusor proporcionará pressão de 34 a 37 atm, temperatura entre 125 a 150°C e umidade entre 23 a 28% do material (ROKEY et al., 2012). 

Por fim, o processo de extrusão apresenta o sistema de matriz e corte (figura 5). A matriz possui duas funções: restringir a saída da mistura para criar a pressão necessária para a aplicação da energia mecânica e alterar o formato final do extrusado através do formato do orifício da matriz e da velocidade de corte das facas (COWELL et al., 2000). Nesta fase há o corte da massa. Assim é possível fazer formatos específicos como ossos, corações, bolinhas, por exemplo. 

Figura 5: Sistema de matriz e corte

Secagem

A secagem de alimentos extrusados para animais de companhia é utilizada para reduzir a umidade do produto. Produtos secos devem possuir umidade final menor ou igual a 10%, a fim de evitar o crescimento de microrganismos indesejáveis, como fungos e leveduras. 

A secagem é uma etapa crítica no processamento de alimentos extrusados, já que apresenta custo expressivo na produção, além de interferir na qualidade da dieta. Um dos maiores desafios da indústria é manter a umidade homogenia entre os extrusados, pois apenas 3% de variação na umidade entre amostras pode gerar grande perda econômica em produções de larga escala (MURAKAMI, 2010).

Logo que o alimento é extrusado a umidade está em torno de 23 a 28%. Entretanto, parte desta umidade é perdida antes do alimento chegar ao secador. De acordo com ROKEY et al.  (2012), o secador horizontal resulta em secagem uniforme, pois o ar é aquecido em 90 a 180°C e a ração passa em uma esteira a velocidade de 40 a 60 metros por minuto. Estes secadores normalmente possuem passe duplo, entretanto podem possuir passe simples ou triplo (figura 6).

Figura 6: Secadora de alimentos extrusados.
Dentro do secador o alimento úmido apresenta alta pressão de vapor no início da secagem e ao final do processo o extrusado apresenta baixa pressão de vapor. Logo, quando a massa e o ar que a envolve apresentam pressões de vapor desiguais, a umidade se movimenta do ponto de maior pressão para o de menor pressão. Isso significa que a umidade se movimenta do alimento para o ar presente dentro do secador até atingir o equilíbrio. Assim é dado o processo de secagem do produto. 

A secagem mecânica pode apresentar várias vantagens, entre elas estão: pode ser realizada independente das condições do tempo; possibilidade de estabelecer um programa de operação com maior facilidade; maior velocidade do processo; reduz o tempo em que o produto permanece úmido e isso pode impedir o desenvolvimento microbiano. Entretanto, a secagem excessiva pode resultar em perdas de ingredientes como antioxidantes, antifúngicos e outros alimentos termolábeis (KRABBE, 2007), além de reduzir a palatabilidade da dieta (BRITO et al, 2010). 

Além disso, alguns fatores podem afetar o resultado final da secagem, como: densidade do alimento; área específica do alimento e uniformidade de fluxo do alimento no secador (o ar dentro do secador sempre buscará o caminho de menor resistência). Quando a secagem não é realizada de maneira adequada, a umidade interna da partícula não é totalmente removida e isso acarreta em maior risco de desenvolvimento microbiano. Para compensar esta umidade interna, as temperaturas de secagem são aumentadas, e isso implica em alteração da textura da ração, as quais podem afetar negativamente a palatabilidade do alimento (KRABBE, 2007). 

Recobrimento

Após a secagem a ração recebe o recobrimento por aspersão de óleos e aromas em cilindros rotativos. No processo de extrusão para alimentos destinados a animais de companhia é mais interessante que os equipamentos de secagem e resfriamento sejam separados, pois é importante que o banho de óleo seja realizado com os extrusados ainda quentes. Assim, a gordura adicionada é mais bem absorvida pelo produto. 

A gordura que será colocada no produto fica armazenada em tanques intermediários aquecida a 60°C (quando forem utilizadas gorduras saturadas, as quais são sólidas em temperatura ambiente) e servem de tanques pulmões para o sistema de aplicação. Depois deste banho é realizado o resfriamento do alimento. 

Além da aplicação de óleo realizada durante o banho de óleo, a mesma pode ser realizada em parte no condicionador. Segundo SOUZA et. al, (2012) a extrusão pode promover complexações lipoproteicas e diminuir os teores de extrato etéreo em hidrólise ácida. Quando a gordura é adicionada na massa esta complexação pode ser ainda maior, o que reduziria a deterioração da ração por oxidação. 

Alimentos para animais de companhia recebem ainda o banho de palatabilizante imediatamente após o resfriamento, também por aspersores. O banho de palatabilizante é realizado após o resfriamento para que o mesmo fique na parte mais externa do produto. Assim, o alimento fica mais atrativo para o cão (FELIX et al., 2010).

Considerações finais 

Como foi apresentado neste artigo, desse modo em que as dietas secas e extrusadas são fabricadas é possível ter um alimento com um custo razoável, segurança alimentar e extremamente digestível de palatável para os nossos amados pets!

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Uso do Cranberry para a prevenção da infecção do trato urinário em animais

Vanessa Regina Olszewski

Introdução

Uma das três frutas nativas cultivadas na América do Norte, o Cranberry, tem se destacado no mercado mundial devido às suas propriedades terapêuticas que, segundo pesquisadores, são capazes de combater e prevenir infecções de origem bacteriana, como por exemplo a Infecção do Trato Urinário. 

O artigo a seguir abrangerá o assunto, dando ênfase aos componentes presentes no Cranberry, capazes de auxiliar na prevenção de doenças de origem bacteriana.

História do Cranberry

O Cranberry (Vaccinium macrocarpon Aiton) é uma planta nativa e bastante difundida na América do Norte. 

Conhecida no Brasil como Oxicoco ou Mirtilo – Vermelho, seu nome em inglês deriva de um pássaro chamado Crane, uma espécie de gaivota que possui o formato da sua cabeça muito parecido com o formato da flor de Cranberry e, por isso a planta foi chamada no início de Crane Berry, até chegar ao nome atual.  
Pássaro Crane e flor do Cranberry

Os primeiros relatos de uso desta fruta datam por volta de 1620, quando americanos já utilizavam o Cranberry como conservante de alimentos através de uma pasta feita com a fruta amassada que era misturada a carne para conservá-la por maior tempo. 

Além disso, o suco de Cranberry era também utilizado para tingir tecidos, roupas, cobertores e para esterilizar ferimentos, muitas vezes causados por flechas envenenadas.

Hoje o Cranberry possui um importante papel nos feriados norte americano, sendo usado principalmente no feriado de ação de graças como principal tempero da carne.

Além disso, muitos acreditam que o consumo desta fruta pode proporcionar uma vida mais saudável, pois segundo pesquisadores, os componentes do Cranberry são capazes de combater infecções causadas por bactérias, além de conter antioxidantes, vitaminas, etc.

Propriedades terapêuticas do Cranberry

O Cranberry é um fruto inserido nos hábitos alimentares e tratamentos terapêuticos em todo o continente norte americano.

Esta fruta é uma fonte importante de vitaminas, agentes antioxidantes e outros elementos nutritivos. Possui em sua composição compostos polifenólicos (agentes antioxidantes como taninos), ácidos orgânicos (ácido cítrico, málico, quínico e benzoico), além de catequinas e água. 

São atribuídas ao Cranberry diversas ações terapêuticas como anticancerígenas, protetora do sistema cardiovascular, antifúngica além de possuir ação antibacteriana prevenindo, por exemplo, doenças como a infecção do trato urinário. 

Infecção do trato urinário

Entende-se por infecção urinária a colonização por microrganismos patogênicos das vias urinárias, podendo comprometer somente o trato urinário baixo ou afetar simultaneamente o trato urinário inferior e o superior.

A infecção urinária baixa ou cistite é a mais comum e pode ser sintomática ou não e ocorre em maior frequência em fêmeas do que machos, devido à anatomia do sistema urinário. O ânus, local com grande população bacteriana encontra-se mais próximo da uretra distal nas fêmeas do que nos machos, facilitando a proliferação bacteriana na uretra distal e aumentando as chances de desenvolvimento de uma infecção. 

Tanto bactérias Gram + como Gram – são capazes de causar infecções, sendo que as bactérias Gram –, como a Escherichia coli são as principais responsáveis por desencadearem Infecções do Trato Urinário, também conhecidas como ITU’s.

A principal forma de tratamento de ITU’s é através da antibioticoterapia, de 1 a 7 dias com Penicilinas (penicilina G e amoxicilina), Cefalosporinas (cefalexina, cefotaxima, ceftiofur) ou Fluorquinolonas (ciprofloxacina e enrofloxacina), sendo as Fluorquinolonas as mais utilizadas em ITU’s devido ao seu amplo espectro

Uso do Cranberry para prevenir as ITU’s

O Cranberry tem sido utilizado como forma de prevenção às Infecções do Trato Urinário devido as suas propriedades terapêuticas.

Os flavonoides como as antocionidinas, encontradas na composição do Cranberry, são capazes de agir sobre as células bacterianas rompendo a membrana citoplasmática e inibindo a atividade enzimática. 

Já as proantocianidinas do Tipo A (PACs), únicas encontradas no Cranberry podem ajudar a impedir que determinadas bactérias nocivas se proliferem no organismo. 

O Cranberry possui uma das mais altas concentrações de PACs totais por grama se comparado com outras frutas, chegando a 418,8 mg/100g. Alguns estudos de laboratório têm revelado que as PACs do Tipo A são responsáveis por impedir que determinadas bactérias nocivas se fixem às células, impedindo que estas causem infecções e acabem sendo, consequentemente, eliminadas do organismo.

Uso do Cranberry em animais

As infecções do trato urinário (ITU) são uma das causas mais frequentes de doença nos cães, tendo menor ocorrência nos gatos. 

Pesquisas indicam que grande parte dos cães irá desenvolver esta afecção em alguma fase da vida, sendo esta de origem majoritariamente bacteriana. A forma de tratamento é predominantemente com antibióticos, sendo que os efeitos terapêuticos do Cranberry em cães e gatos ainda não foram relatados.

Na suinocultura, a exploração por animais geneticamente mais exigentes e mais sensíveis a doenças proporcionou um aumento na incidência de doenças, dentre elas, destacam-se as infecções do trato urinário. 

Já é sabido que o Cranberry é capaz de acidificar a urina dos suínos, auxiliando na prevenção das ITU’s, mas que este não serve como única forma de tratamento desta afecção, sendo necessário o uso de antibióticos para tratamento efetivo da doença. 

Em ratos, já foi observado em experimentos de laboratórios que o Cranberry é responsável por reduzir o colesterol. Outras ações ainda não foram relatadas nestes animais.

Acredita-se que o Cranberry, devido a sua função anti-aderente também seja responsável por prevenir gastrites causadas pela Helicobacter pylori e por prevenir a formação de filmes bacterianos nos dentes, impedindo a formação de placas e o desenvolvimento de doenças periodontais. 

Conclusão

Muito tem se discutido sobre o Cranberry e a sua ação, tanto em humanos como em animais. Está claro que esta fruta traz muitos benefícios a saúde, mas ainda é necessário realizar vários estudos e pesquisas para conhecer ainda mais os fins terapêuticos e profiláticos desta fruta, principalmente nos animais. 



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Fibras para cães obesos

Tabyta Tamara Sabchuk - Doutoranda em Zootecnia – UFPR 

Fibras para cães obesos

As fibras mesmo não desempenhando um papel nutricional como proteínas e gordura, são importantes para cães. Mesmo os cães não conseguindo digerir a fibra, por não possuem enzimas específicas. No entanto, podem ajudar na saúde intestinal (Fahey et al., 2004), ser uma importante ferramenta para perda e controle de peso em animais obesos, diabéticos, além de que pode aumentar a saciedade dos animais entre as refeições.

Com o aumento de cães obesos, muito pesquisadores vem estudando e avaliando os efeitos de aumentar a fibra dietética na alimentação de cães. Se com esse aumento, influenciaria no aproveitamento dos nutrientes, afetando as características das fezes, como consistência, odor, quantidade e frequência de defecação. Além de efeitos na condição corporal de cães e saciedade. Nesse artigo, vamos discutir pontos importantes da obesidade em cães, características de cada tipo de fibra, discutir sobre algumas fontes de fibras utilizadas na nutrição de cães, quais as principais vantagens e desvantagens das fibras e alguns resultados obtidos pelo nosso grupo de pesquisa.

Obesidade em cães

A obesidade em cães vem crescendo dia após dia. Isso pode ser uma consequência da combinação de muito fatores. Tais como:
  • Oferta de alimentos e petiscos saborosos e atrativos, que levam ao consumo além das suas necessidades;
  • Associado com o motivo acima, a falta de controle dos tutores no fornecimento do alimento, que por querer agradar e retribuir o carinho, compensam em petiscos e ração;
  • Vida sedentárias que alguns animais podem levar, pois muitos vivem em apartamentos e ambientes restritos, consequência da proximidade com os seres humanos;
  • Ainda, há o fator genético, em que algumas raças são mais propensas a obesidade, do que outras.
Há várias formas de se controlar e verificar se o peso de cães e gatos está dentro dos limites aceitáveis, os mais comuns e utilizados são: peso (padrão da raça, ou se for sem raça definida, buscar um padrão semelhante); e pelo escore de condição corporal (ECC), que varia de 1 a 9, proposto por Laflame (1997). Para um cão ser considerado com sobrepeso, considera-se que esteja com o peso de 5 a 20% do peso ideal. E obeso se estiver acima de 20% do peso ideal. E pode verificar o escore de condição corporal de acordo a figura abaixo:


Fonte: http://www.alimentarvet.com/#!ecc-cao/c3gq
Além disso, com a obesidade os cães podem apresentar outros problemas de saúde, como problemas ortopédicos, respiratórios, diabetes e entre outras doenças (German et al., 2006). Tal situação pode reduzir muito o tempo e a qualidade de vida dos cães.

Todos queremos que os nossos pets vivam mais e melhor, para isso há várias ferramentas para prevenir a obesidade e reduzir o peso quando necessário. Portanto, basta mudar alguns hábitos seus e do seu cão, fazendo com que seu cão aumente a atividade física, por meio de caminhadas, incentivando a brincar com brinquedo interativos e adequados para a segurança do seu cão. Atualmente, há vários brinquedos pet inclusive para a hora da alimentação. Além disso, de acordo com German et al. (2006) a melhor forma para reduzir peso em cães, seria restringir o consumo de energia. E isto pode ser feito sem reduzir a quantidade de alimento que o cão recebe por dia, incluindo maior quantidade de fibra a dieta. Isso pode trazer vários benefícios aos animais.

Definição de fibra, classificação e principais efeitos

São todos os polissacarídeos (celulose, hemicelulose, pectinas, gomas e mucilagens) e lignina, que não são digeridos pelas secreções do TGI do homem (Trowell et al., 1976). As fibras podem ter características distintas como solubilidade e fermentabilidade, e isso influenciará os possíveis efeitos nos cães.

Tanto as fibras solúveis quanto as insolúveis têm sido utilizadas como uma forma de restringir o consumo, diluindo energia e buscando o controle de peso dos animais de companhia (NRC, 2006). Considerando tais fatos, o papel e a importância das fibras têm sido repensados à medida que diversas ações benéficas desses componentes passaram a ser consideradas, tais como regulação dos níveis glicêmicos, produção de AGCC, a melhora da saúde intestinal e a prevenção do câncer no intestino, provavelmente pela menor permanência de conteúdo no trato (Lattimer & Haub, 2010). Outro ponto importante, tanto para os cães como para os seus tutores, é a diluição da energia, por exemplo, se o animal está obeso, ele precisa ingerir menos calorias, com uma dieta com mais fibra, esse animal irá comer a mesma quantidade que estava acostumado a comer, no entanto com menos calorias.

No entanto, alguns trabalhos indicam que as diferentes fontes de fibras podem interferir na palatabilidade da dieta, ou seja a aceitação da dieta pelos cães (Weber et al., 2007) e reduzir a digestibilidade dos nutrientes, além de alteras as características fecais (Fahey et al.,1990). 

Principais fontes de fibras utilizadas na alimentação de cães

Não existe na legislação quanto a um mínimo e nem a um máximo de inclusão de fibras em dietas para cães, desta forma isso varia bastante, dependendo da classificação da dieta quanto ao segmento comercial (econômica, prêmio e super-premium). Em uma pesquisa realizada por nosso grupo de pesquisa foi observado: 
  • Dietas básicas continham de 4 a 6,4% de fibra bruta.
  • Dietas prêmio de 2,5 a 4,5% de fibra bruta;
  • Dietas super prêmio de 2,4 a 4,5% de fibra bruta. 
  • Dietas lights continham de 4,5 a 18,2% de fibra bruta.
Nas dietas lights observou-se que além da fibra inerente aos ingredientes da formulação, incluiu-se também outros ingredientes fibrosos, sendo os principais encontrados (com a % que foi encontrado nas dietas) polpa de beterraba (71,42% das dietas continham polpa de beterraba), celulose (42,85%), casca de ervilha (33,3%), semente de linhaça (33,3%), casca de soja (28,5%), aveia (23,8%), Psylium (23,8%) e parede celular de levedura (14,2%). Além disso, na maioria das dietas encontrava-se mais de duas fontes de fibras na sua composição.

Como observados nos dados acima, a polpa de beterraba é uma fonte muito utilizada na nutrição de cães, no entanto o Brasil necessita importar esse produto. Há várias outras alternativas, com grande disponibilidade no Brasil e que vem sendo estudadas, como por exemplo a casca de soja e cana-de-açúcar. 

Nosso grupo de pesquisa, realizou um estudo avaliando essas fontes de fibras, quanto a digestibilidade dos nutrientes, características fecais, palatabilidade, ou seja, aceitação do alimento pelo cachorro e condição corporal de cães adultos com peso normal. Vamos resumir brevemente os principais resultados obtidos.

Digestibilidade: aproveitamento dos nutrientes

Foram avaliadas dietas com inclusão crescente de casca de soja, polpa de beterraba, cana-de-açúcar e celulose. Isso reduziu o aproveitamento dos nutrientes pelos animais, mas sem causar problemas na saúde destes. Essa redução, pode ser boa para animais que necessitam perder peso. Uma vez que normalmente nas rações há mais nutrientes do que as exigências mínimas requeridas (Sabchuk, 2014).

Características fecais

A inclusão das fontes avaliadas, aumento a produção fecal dos cães por dia, mas não alterou a consistência das fezes. A inclusão de fibras, também alterou o pH das fezes, sugerindo fermentação no intestino grosso, o que pode ser benéfico para a saúde intestinal dos cães, favorecendo bactérias benéficas (Sabchuk, 2014).

Palatabilidade: aceitação dos alimentos pelos cães

Para realizar essa avaliação, os cães devem ser treinados e acostumados com essa avaliação. Ao avaliar a palatabilidade das dietas, usa-se uma metodologia que compara as dietas duas a duas, disponibilizando ao animal ao mesmo tempo as duas dietas por 30 minutos. E avalia-se a primeira escolha e o consumo das dietas. Desta forma, quando confrontamos a dieta com menos fibra e com casca de soja (16% de inclusão) não influenciou a primeira escolha e nem o consumo da dieta (Sabchuk, 2014).

Condição corporal de cães

Foi avaliado também a condição corporal de cães adultos com peso normal. Os animais foram divididos em dois grupos, sendo que um dos grupos receberam a dieta com casca de soja (16% de inclusão) durante 57 dias. Nesse estudo, não observamos redução no peso dos cães que receberam a dieta com fibra. Isso provalmente ocorreu, pois o metabolismo de perda de peso, varia muito, com a idade, estado nutricional do cachorro. Ainda, em relação as características de solubilidade e fermentabilidade da fibra são importantes na obtenção de resultados (Sabchuk et al., 2014a).

Frequência de alimentação e comportamento

Há alguns estudos avaliando a influência da dieta no comportamento dos cães, Bosh et al. (2009) verificaram que dietas com maior inclusão de fibra podem promover maior saciedade em cães. E quando os animais estão em restrição de energia, com sensação de fome, isso pode desencadear aumenta a ansiedade Asakawa et al. (2001) e consequentemente aumentar comportamentos indesejados dos cães pelos seus tutores.
Outro ponto importante para fornecer dietas específicas para perda de peso aos cães que necessitam reduzir o peso. Essas dietas normalmente, tem maior quantidade de fibra, de proteína e menor de gordura.
Nosso grupo avaliou o impacto da frequência de alimentação (1 ou 2 vezes por dia) na quantidade de alimento e no comportamento dos animais. Foram avaliadas duas dietas, sem inclusão de fibra e com inclusão de casca de soja), conforme tabela abaixo:

Tabela 1. Consumo de ração em g (g de matéria natural / animal / dia), consumo por PV (g / kg PV0.75 / dia) e ingestão de EM (EM kcal / kg PV0.75 / dia) de cães alimentados com dietas sem (0CS) e com casca de soja (16CS), uma vez (1x) e duas vezes (2x) ao dia.

Foram observadas diferenças na ingestão em gramas de ração dos animais que receberam 1 e 2 vezes/dia. Em ambos, os cães recebiam a quantidade suficiente para atender suas exigências nutricionais, com acréscimo de 50% de alimento. Esses resultados sugerem, que os cães que receberam 1 x/dia ingeriram menos alimento, provavelmente a limitação foi capacidade física e não de energia. Já os cães que receberam 2x ao dia, ingeriram maior alimento em gramas e maior energia metabolizável. Isso nos mostra, que tão importante quanto fornecer uma ração com diluição de energia, é importante também controlar o fornecimento. Fornecer mais vezes, mas com a quantidade necessária pode ser uma forma para que o animal fique saciado por mais tempo. Mas ressalto, que é fundamental fornecer a quantidade exata para que não ingeri mais energia do que necessita.

Pode-se observar também, em relação a dieta, os animais que receberam a dieta com casca de soja, ingeriram menor energia metabolizável. Além dessas observações, foram avaliados também o comportamento dos animais durante esse período, não sendo observada diferença entre os tratamentos.

Observe seu cão

Já discutimos alguns pontos importante sobre a dieta e hábitos dos cães. Observar quando o animal está se alimentando pode ajudar a melhorar a alimentação do seu cão, procure identificar situações que possam levar a uma ingestão mais rápida, como presença de outros animais. Ou se é um hábito comum do cachorro. Busque formas para que ele coma mais devagar, existe no mercado vários comedouros que ajudam com isso. Identifique os melhores horários para fornecer o alimento, fazendo com que seja controlado de acordo com o que ele realmente precisa. 

Mas é importante controlar a perda de peso do animal, para que não prejudique a sua saúde. Um acompanhamento de um Veterinário ou Zootecnista é fundamental para um emagrecimento saudável.

Conclusões

Cuidar da saúde dos cães é fundamental para que tenha uma vida longa e saudável. E prevenir o sobrepeso e a obesidade é muito importante. O fornecimento de dietas específicas pode ajudar no controle e na perda de peso. Dietas com mais inclusão de fibras, controle no fornecimento de alimento e aumento de atividade física podem contribuir para isso.


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Alimentos Grain free para cães e gatos

Lidiane P. Domingues, Ananda P. Felix

Introdução


O estreitamento da relação entre os cães e seus tutores induz a busca de dietas que, além de suprirem suas necessidades nutricionais, proporcionem longevidade e bem estar. Esse fato aliado à busca por exclusividade no setor pet faz surgir novos nichos de mercado, que compreendem dietas naturais, orgânicas e mais recentemente as chamadas dietas livres de grão (grain free).

Segundo Saad (2011), assim como os outros novos nichos, o grain free baseia-se nas premissas de que a saúde e longevidade tem um forte aliado, que é a dieta semelhante àquela consumida na natureza. Autores como Phillips-Donaldson (2011) consideram os alimentos grain free como a mãe de todas as tendências atuais do pet food. Essa tendência caracterizada pelo fato de incluir o “natural”, sem trigo, sem glúten, hipoalergênico e carne de primeira qualidade, como promotora de saúde, teve inicio nos Estados Unidos em 2007. Atualmente esses alimentos vêm ganhando espaço nas prateleiras brasileiras, com algumas marcas já disponíveis no mercado.

Mas qual é a diferença de uma Ração Grain Free?

Os alimentos grain free, não são totalmente livres de carboidratos, como o próprio nome sugere, mas sim contêm  significativa redução dos mesmos, com níveis elevados de proteína e lipídeo. Este perfil se deve aos altos níveis de inclusão de produtos de origem animal; cerca de 70% (priorizando-se aqueles com qualidade e padrão semelhantes aos utilizados na alimentação humana, como carnes frescas e desidratadas, ovos e óleos animais como de frango e de peixes) enquanto que os 30% restantes são preenchidos por  frutas, legumes, verduras e ingredientes bioativos e funcionais.

Outro diferencial nessa nova tendência é a utilização de frutas e legumes desidratados, que via de regra não são constantes nas formulações dos alimentos comerciais convencionais. Além disto, a inclusão de fitonutracêuticos (extrato de alecrim, salsa floculada, extrato de Yucca schidigera, extrato de chá verde, extrato de aloe vera, etc.) e outros ingredientes funcionais, como antioxidantes naturais celulares (carotenoides, polifenois), pré e próbioticos, promotores de saúde bucal e intestinal, dentre outros, elevam a qualidade das rações grain free. As tabelas a seguir mostram os níveis de garantia (Tabela 1) e ingredientes (Tabela 2) mais comumente utilizados em dietas grain free

Tabela 1. Níveis médios de garantia de alimentos com denominação grain free


Tabela 2. Ingredientes mais comumente utilizados em alimentos com denominação grain free

Quais as implicações desse tipo de dieta na saúde dos animais e na formulação?

Anatomicamente, tanto cães como gatos são considerados animais carnívoros, apesar de signficativas diferenças fisiológicas. Seus ancestrais tinham como base alimentar a caça, cuja composição corresponde basicamente à proteínas e lipídios. Sendo assim, os carboidratos não passavam de 5% da dieta, provando que evolutivamente esses animais não tem necessidade nutricional de carboidratos. A dieta grain free surge então com a alegação de ser biologicamente mais apropriada para essas espécies.

Muitas vezes o carboidrato é tratado como vilão na alimentação de cães e gatos. No entanto, vale ressaltar a importância de uma classe de carboidratos que corresponde as fibras, componentes que auxiliam na manutenção da flora intestinal, ajudam na eliminação de bolas de pêlo, são reguladoras de consumo e fortes aliadas na formulação de dietas para animais obesos e diabéticos. 

Além disso, o carboidrato tem  papel essencial em dietas comerciais extrusadas. Ele contém o amido, componente que ao passar pelo processo de extrusão  se expande, tornando os nutrientes da ração altamente digestíveis, além de dar o formato para o extrusado. Sem nenhuma fonte de carbidrato mínima na dieta torna-se muito difícil e inviável extrusar uma ração para cães e gatos.

Considerações Finais

Os novos nichos que vem surgindo na nutrição de animais de companhia são reflexo  de uma sociedade cada vez mais próxima de seus animais e que busca o melhor para garantir a longevidade e bem estar do seu pet. Porém, muito mais importante do que se deixar levar pelo marketing de muitas tendências, como a grain free, é preciso uma avaliação criteriosa e  científica dos efeitos nutricionais, fisiológicos e metabólicos dessas dietas,  que vão se refletir diretamente na qualidade de vida desses animais.