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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Semente do Açai (Euterpe oleraceae Mart.) como ingrediente em alimentos extrusados para cães

Autora: Karla dos Santos Felssner
Doutoranda em Nutrição de Cães e Gatos – Universidade Estadual de Maringá.

Subprodutos na alimentação de cães

     Subprodutos ou resíduos agroindustriais ganham valor comercial quando empregados em petfood. O principal fator determinante para isto é a identificação de propriedades nutricionais e funcionais destes ingredientes. Além destes benefícios, a utilização de coprodutos (produtos secundários gerados a partir do processamento industrial de produtos primários) pela indústria de alimentos para animais, representa uma estratégia integradora dos processos industriais, contribuindo com o meio ambiente e com o desenvolvimento industrial ao mesmo tempo.

     O mercado de animais de companhia, semelhante ao mercado de produtos para a nutrição humana, possui esta característica de utilizar coprodutos na alimentação visando seus papéis não somente nutricionais, mas também funcionais. Neste sentido, as fontes de fibra possuem propriedades importantes na nutrição de animais de companhia, a depender das suas características de solubilidade e fermentabilidade, tais como modulação do tempo de passagem do alimento, estímulo da saciedade, redução da densidade energética do alimento, produção de ácidos graxos de cadeia curta, melhora na qualidade fecal, entre outros (Carciofi et al., 2005; Barry et al., 2010; Fahey, 2015). Alguns coprodutos da indústria alimentícia humana utilizados atualmente como fontes de fibras para cães e gatos são a polpa de beterraba, o farelo de trigo, a fibra de cana-de-açúcar, o farelo de gluten de milho e o farelo de arroz. Estes ingredientes possuem em comum o fato de todos terem sido resíduos industriais alimentícios humanos antes de serem empregados pela indústria de nutrição animal. 

Açaí (Euterpe oleracea Mart.)

     O Brasil é o maior produtor, consumidor e exportador do açaí matéria-prima para a obtenção da polpa de açaí. Apesar da importância econômica da polpa do açaí, esta representa apenas 10% da massa total do fruto, sendo o restante 90%, composto principalmente pela semente, descartado pela indústria no processo de produção de polpa e usado como fonte de energia para o uso em caldeiras. No entanto, devido ao seu elevado teor de fibras, é possível que possa ser empregado na nutrição animal (Rodrigues et al., 2006). Além das fibras, o açaí é um fruto rico em compostos antioxidantes, especialmente as antocianinas (cianidina 3-O-glicosídeo e cianidina 3-O-rutinosídeo) e outros fitoquímicos como os flavonóides (Schauss et al., 2006). 

     Outros compostos fenólicos presentes no açaí polpa e semente são os taninos. Estes compostos, se por um lado possuem efeitos antinutricionais por se complexarem com proteínas prejudicando sua digestão e também por possuírem adstringência, o que prejudica a palatabilidade, por outro, se hidrolisados no trato digestório por microorganismos intestinais, podem liberar compostos fenólicos como o ácido gálico e elágico, os quais conferem propriedades antioxidantes ao organismo (Barbehenn & Constabel, 2011). Desta forma, é possível que a semente de açaí, hoje considerada um resíduo industrial, tenha algumas propriedades nutricionais que viabilizem seu uso na nutrição animal. 

Ensaios in vitro e in vivo

     Em recente estudo, avaliou-se a semente do açaí como ingrediente em alimentos extrusados para cães. Para isto, cinco dietas isonutritivas foram formuladas, com a substituição da fibra de cana pela semente de açaí (fibras com composições semelhantes), nas adições de 0, 2%, 4%, 6% e 8%. Determinou-se a composição química e de antioxidantes da semente de açaí e os efeitos de sua ingestão sobre as características fecais e digestibilidade dos nutrientes para cães. 

     O caroço do açaí apresentou a seguinte composição nutricional, na matéria seca: PB-4,23%; EE-3,18%; MM-6,79%; FB-28,3% e FDT-88,97%. Este ingrediente apresentou elevada capacidade antioxidante, vista pelo percentual de descoloração do radical DPPH pelos antioxidantes, os quais foram de 49,8%; 93,4% e 66,8% para os extratos etéreo, etanólico e aquoso, respectivamente, indicando alto teor de compostos antioxidantes solúveis em álcool e água. Nesta análise, os resultados de descoloração foram muito superiores ao BHT (padrão; 19,35%). O caroço de açaí apresentou 5,95% de polifenóis totais, 3,43% de taninos e 2,94% de antocianinas. A elevada atividade antioxidante in vitro pode ser explicada por estes compostos. Sabe-se que os taninos, embora apresentem propriedades antioxidantes, apresentam elevada capacidade de ligação com proteínas, reduzindo sua disponibilidade. Apesar disto, pode-se verificar que inclusões de caroço de açaí até 8% da dieta, não impactaram negativamente na digestibilidade dos nutrientes (Tab.1), comparado ao controle.

Tabela 1. Características fecais, consumo e digestibilidade e de cães alimentados com dietas contendo níveis crescentes da semente do açaí.

Conclusões

     Pelos resultados obtidos, pode-se concluir que a fibra de açaí é uma fibra tipicamente insolúvel e não-fermentável, semelhante a fibra de cana, atualmente já empregada na nutrição animal. A elevada atividade antioxidante in vitro apresentada se deve a elevada presença de taninos e demais compostos fenólicos da semente de açaí. alimentos aos quais se busca os efeitos fisiológicos de fibras tipicamente insolúveis. Os coeficientes de digestibilidade dos nutrientes de alimentos para cães não foram modificados pela inclusão de semente de açaí em substituição a fibra de cana, até 8% da dieta. A semente de açaí se mostrou uma boa fonte de fibra na dieta de cães, com possíveis aplicações em alimentos para perda de peso, para o manejo do diabetes e em outros alimentos aos quais se busca os efeitos fisiológicos de fibras tipicamente insolúveis.