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domingo, 27 de março de 2016

Utilização da glicerina na nutrição de cães

Daniele Cristina de Lima, Marina Volanski Teixera Netto

Introdução

    Com o impacto ambiental exercido pelas fontes fósseis não renováveis e seu fim em alguns anos, iniciou-se uma corrida entre os países para desenvolver fontes alternativas de energia. Entre eles o Brasil destaca-se com a produção do biodiesel, o qual pode ser extraído a partir de óleos vegetais e gorduras animais. A produção do biodiesel culmina na produção do seu co-produto, a glicerina, com teores que variam entre 80% a 95% de glicerol.
    No Brasil, a lei 11.097, de 13 de janeiro de 2005, proporcionou incentivo às empresas produtoras de biodiesel e tornou obrigatória a adição de 2% de biodiesel no óleo diesel vendido no país a partir de 2008.  Ao fim de 2014, o percentual teve aumento para 7% a partir da lei 13.033 de 24 de setembro de 2014.
    Várias são as vantagens trazidas pela glicerina quando incluída na dieta de cães, como a melhora da qualidade dos extrusados, a redução do pó das dietas e dos suplementos minerais-vitamínicos e redução da atividade de água do alimento, podendo contribuir com seu tempo de prateleira. 
    A glicerina também pode ser utilizada na dieta para cães atletas, já que estes necessitam de alta quantidade de energia para realizar suas tarefas. Além disso, pode tornar as dietas mais palatáveis para cães, em virtude do seu sabor adocicado. Assim, será exposto a seguir as principais características da glicerina e o seu impacto na nutrição de cães.

Características da Glicerina

    A glicerina pode ser comercializada na forma bruta (sem purificação e com alto conteúdo de ácidos graxos) ou semi-purificada (“Loira”), a qual apresenta baixo conteúdo de ácidos graxos. Por isso, é encontrada no mercado com diversas composições químicas, necessitando de atenção especial no momento de sua aquisição. A glicerina purificada é comercializada de duas formas: como Glicerina Técnica e Glicerina Farmacêutica, e são utilizadas para vários setores da indústria como o setor alimentício, produtos de beleza e farmacêutico.  
     A glicerina é composta, em sua maioria, por glicerol. O glicerol ou propano-1,2,3-triol é um composto orgânico pertencente à função álcool, líquido à temperatura ambiente (25ºC), higroscópico, inodoro, viscoso e de sabor adocicado.
   A glicerina pode tornar-se alternativa viável na nutrição de animais não-ruminantes, em especial para cães, pois apresenta considerável valor energético (em média 4.320 kcal de energia bruta/kg de glicerol puro).
Entretanto, é necessário atentar sobre o valor de energia da glicerina bruta, em função de sua pureza, dos níveis de metanol, cloreto de sódio e cloreto de potássio que devem ser monitorados para prevenir quantias excessivas. A composição química da glicerina loira, utilizada na nutrição animal, está demonstrada na Tabela 1.

Processamento da Glicerina

    O biodiesel é definido como mono-alquil éster de ácidos graxos, derivado de fontes renováveis, sendo óleos vegetais ou gorduras animais. A glicerina é um co-produto obtido durante a produção do biodiesel.
    A glicerina é adquirida por meio do processo de transesterificação de óleos vegetais ou gorduras animais. Para que a reação ocorra, são utilizados alcoóis por meio de catálise básica, geralmente etanol ou metanol e hidróxido de sódio ou potássio como catalisador. Durante a produção ocorre a transformação dos triglicerídeos em ésteres de ácidos graxos (figura 1).
    Ao final do processo são obtidas duas fases: uma de ésteres de ácidos graxos que corresponde ao biodiesel e uma fase aquosa que corresponde à glicerina, impurezas e o álcool utilizado no processo. Este álcool é retirado e utilizado novamente. Entretanto, parte do álcool pode permanecer na glicerina. Da mesma maneira, também existe um resíduo de hidróxido de sódio ou potássio.
 
Figura 1. Esquema de produção do biodiesel e glicerina (Adaptado de Parente, 2003)

Digestibilidade da Glicerina

    Em experimento realizado no Laboratório de Estudos de Nutrição Canina, da Universidade Federal do Paraná foi avaliada a digestibilidade e a energia metabolizável (EM) de dietas contendo crescentes níveis de inclusão de glicerina (0%, 3%, 6%, 9%) em cães. A inclusão de glicerina aumentou a utilização da energia da dieta, sendo altamente digestível, já que o glicerol é prontamente absorvido pelos cães.
    No referido estudo, a glicerina apresentou 4190,8 kcal de EM/kg (figura 2). Já, Lammers et al., (2008) encontrou valores de EM do glicerol bruto de 3207 kcal/kg para dietas destinadas à suínos. Ponciano Neto (2011) relata valores de EM de 5381,5 kcal/kg de dietas com inclusão de glicerina para cães.

Figura 2. Regressão da energia metabolizável (EM) ingerida vs. consumo de ração na matéria seca (MS) durante cinco dias, com a inclinação da curva indicando EM da glicerina bruta de 4190,8 kcal/kg. (LIMA et al., 2014).

    O maior valor de EM encontrado para dietas destinadas a cães, em relação aos suínos, pode ter ocorrido devido ao maior nível energético da glicerina utilizada neste trabalho (4280 kcal/kg de matéria seca), em relação ao estudo supracitado (máximo de 3993 kcal/kg de matéria seca). Já Ponciano Neto (2011) utilizou a glicerina semi purificada mista apresentando 4696,63 kcal/kg de EM e obteve 5381 kcal/kg de EM na matéria seca da glicerina. 
A energia metabolizável da glicerina utilizada por Ponciano Neto (2011) apresentou-se maior em relação ao resultado de Lima et. al., (2014). Pois a EM da glicerina utilizada no trabalho da primeira autora apresenta maior densidade energética. A qualidade da glicerina utilizada na dieta pode alterar o resultado de EM na digestibilidade de dietas destinadas a cães. Ou seja, quanto mais pura a glicerina, maior será o valor de EM das dietas.

Característica das fezes

    Embora a utilização de glicerina como fonte energética na nutrição de cães tenha se mostrado eficiente, as fezes podem ficar mais úmidas (Figura 3). Esse fato está ilustrado na Tabela 2, na qual se observa redução linear no teor de matéria seca (MS) das fezes dos cães alimentados com crescentes níveis de glicerina na dieta. Apesar da alteração no teor de MS, o escore fecal manteve-se dentro do considerado ideal (3-4), não sendo alterado pela inclusão de glicerina na dieta, sendo um fator benéfico da inclusão da glicerina (LIMA et. al., 2014).  
    Esses dados não corroboram aos encontrados por Ponciano Neto (2011), que observou escore abaixo do ideal em cães suplementados com maiores níveis de inclusão de glicerina de até 10%. Cerrate et al., (2006) também observaram maior umidade das excretas de frangos de corte alimentos com ração contendo glicerina bruta rica em sódio. 
    O potássio residual a partir do uso do hidróxido de potássio como catalisador no processo de separação do biodiesel e glicerina pode resultar em aumento da excreção de água nas excretas de aves (CERRATE et al., 2006). Fato este que pode explicar o ligeiro aumento no teor de água nas fezes dos cães alimentados com os maiores níveis de glicerina.
 
Figura 3. Matéria seca das fezes de cães alimentados com dietas contendo crescentes níveis de glicerina. (LIMA et.al., 2014)

Preferência alimentar

    Estudo realizado para definir a preferência alimentar dos cães em relação a dietas contendo ou não glicerina, Ponciano Neto (2011) relatou maior preferência alimentar pelas dietas contendo até 9% de glicerina indicando a boa palatabilidade do co-produto. De acordo com a autora supracitada, a glicerina é mais palatável para cães por apresentar sabor adocicado. 

Conclusões

    A glicerina pode contribuir com a energia da dieta para cães, podendo ser utilizada com a inclusão de até 9%. Entretanto, pode resultar em fezes menos consistentes. Assim, a glicerina pode substituir em parte fontes energéticas utilizadas na dieta para cães, porem é preciso mais estudos relacionados a este produto, principalmente sobre os efeitos da ingestão de glicerina à longo prazo em cães.