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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Uso da maçã como fonte de fibra na alimentação de cães e gatos

Cleusa Bernadete Marcon de Brito, Daniele Cristina de Lima

Introdução

 photo maccedila_zpsmb535t6x.jpg Acompanhando a evolução da nutrição humana, atualmente os alimentos para cães e gatos tem sido desenvolvidos e formulados, não só para alimentar e suprir as exigências nutricionais, mas principalmente para auxiliar na manutenção da saúde, reduzir o risco de doenças e contribuir para o bem-estar. Com o estreitamento da relação do homem com os animais de estimação, existe a preocupação constante de proporcionar aos cães e gatos, uma vida mais longa e saudável. Algumas condutas preventivas como manejo sanitário, nutrição adequado e a utilizações de alimentos funcionais, podem garantir maior longevidade e bem-estar aos animais de companhia.

Função das fibras para cães e gatos

Nos alimentos funcionais podemos nos utilizar das fibras para melhorar a qualidade de vida de cães e gatos. A fibra alimentar ou fibra da dieta, não pode ser considerada como uma substância única, ela é composta, principalmente, de polissacarídeos interligados (celulose, hemicelulose, β-glicanos, pectinas, gomas, mucilagens e exsudados) mais a lignina (GUILLON e CHAMP, 2000), proteínas de parede celular não digeridas, compostos fenólicos, fitatos, oxalatos e substâncias fenólicas, amido modificado, inulina, oligofrutose e quitosanas, compostos não digeríveis pelas secreções endógenas do trato gastrointestinal (TGI). Polissacarídeos de origem animal, como a quitina e seus derivados, também podem ser incluídos como parte da fibra alimentar. Os cães não digerem a fibra, devido à presença de ligações indigestíveis, como do tipo beta. Contudo, microrganismos presentes no TGI, principalmente no cólon, fermentam e produzem ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e outros produtos finais (FAHEY et al., 2004). Ainda, os AGCC podem trazer efeitos benéficos aos animais. O butirato pode fornecer energia para os colonócitos (VAN SOEST, 1973) e o acetato e o propionato podem estimular hormônios importantes para a saciedade (KARAKI et al., 2006).

As fibras alimentares se distinguem por suas funções no organismo e são classificadas, de acordo com a sua solubilidade em água, em solúveis e insolúveis. As fibras insolúveis incluem a celulose, lignina, hemiceluloses e algumas pectinas. Suas funções são diminuir o tempo do trânsito intestinal, aumentar o volume do bolo fecal, retardar a absorção de glicose e a hidrólise do amido. Desta forma, podem contribuir no emagrecimento dos animais de companhia.

Uso da maça como fonte de fibra

As fibras da fruta fibras e bagaços são subprodutos do processamento de frutas para suco ou frutas secas e, em certa medida, ainda processado e moído até um tamanho de partícula fina (WALTER, R.H. et. al., 1985). Uma característica geral de fibras de frutas é o seu maior teor de pectina e hemicelulose em relação à celulose, acompanhado de baixo teor de gordura e proteína (<1%) FISCHER, J. (2009). Além do perfil equilibrado de solúvel para fibra insolúvel, produtos à base de fruta têm boas propriedades de ligação à água que podem ser utilizados no processamento de alimentos para controlar a textura dos alimentos e comportamento reológico FISCHER, J. (2009).

Outro atributo pode ser vantajoso em matrizes de dieta de alimentos úmidos para cães e gatos, onde alto teor de água é necessária, mas de baixa atividade de água e a textura deve ser firme. Os benefícios adicionais no que diz respeito a utilização de fibras de frutas na alimentação dos animais de companhia incluem a presença de componentes bioativos (por exemplo, flavonóides), uma fonte de fibra alternativa constante e barata e o apelo positivo nos rótulos dos alimentos para animais. Estes fatores fizeram com que as fibras da fruta um ingrediente atrativo para a nutrição animal e aumentou sua popularidade entre os donos de animais e empresas de alimentos para animais de estimação.

A maçã tem sido um sinônimo de saúde por um bom tempo. Muitos a conhecem por ser um (pseudo) fruto muito usado em dietas devido ao seu baixo nível calórico e por conter vitaminas importantes em sua casca. Fruta de grande importância econômica na região sul do país, a qual alberga 98% da sua produção nacional. Seu processamento gera o resíduo conhecido como polpa da maçã, que equivale a 25% do peso da fruta.

A polpa de maçã possui 6,5% de proteína; 42% de fibra em detergente neutro. Este subproduto caracteriza-se por possuir baixo teor de matéria seca (MS) e de proteína bruta (PB), porém, apresenta teor médio de fibra em detergente neutro (FDN), com indicativos de boa qualidade desta fibra. Com isso, a polpa da maçã é um alimento muito interessante como fonte energética para a alimentação de animais ruminantes.

Considerações finais

A maçã pode ser uma fonte interessante de fibra para animais de companhia, principalmente para dietas em que os pets apresentam predisposição a obesidade e também pode garantir uma boa saúde intestinal para cães e gatos. 

Referências
FAHEY, G. C. et al. The role of dietary fibre in companion animal nutrition, 2004.
FISCHER, M. M. Efeitos de diferentes fontes de fibra na digestibilidade de nutrientes, nas respostas metabólicas pós-prandiais e na saúde intestinal de gatos. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2011. 87p. Dissertação (Mestrado em Zootecnia) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2011.
GUILLON, F.; CHAMP, M. Structural and physical properties of dietary fibres, and consequences of processing on human physiology. Food Research International, v. 33, n. 3, p. 233–245, 2000.
KARAKI, S. et al. Short-chain fatty acid receptor, GPR43, is expressed by enteroendocrine cells and mucosal mast cells in rat intestine. Cell and tissue research, v. 324, n. 3, p. 353–60, 2006.
SWANSON K.S et al. Supplemental fructooligosaccharides and mannanoligosaccharides influence immune function, ileal and total tract nutrient digestibilities, microbial populations and concentrations of protein catabolites in the large bowel of dogs. J. Nutr. 2002.
WALTER, R.H. et. al. Edible fibre from apple pomace. J. Food Sci. 1985.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Diferentes usos da levedura na nutrição de cães e gatos

Marina V. Teixeira Netto, Daniele Cristina de Lima e Camilla Mariane Menezes Souza

Introdução 

 photo levedura_caes_gatos_zpslpralu67.jpgAs leveduras são as mais antigas fontes de proteína unicelulares consumidas na nutrição humana, através de produtos naturais, bebidas e alimentos elaborados por processos fermentativos. Na nutrição animal sua utilização traz diversos benefícios para diversas espécies, como bovinos, suínos, aves, peixes, inclusive cães e gatos. As leveduras são obtidas a partir de fermentação alcoólica, portanto, é possível obter toneladas de levedura por ano no Brasil, por esse ser um dos maiores produtores de etanol. Sendo assim, a levedura e seus derivados proporcionam diversos benefícios à nutrição animal, com baixo custo. 

As leveduras são fungos, organismos eucariontes unicelulares, e sua ultraestrutura foi estudada pela primeira vez em 1957. Sua estrutura subcelular é fundamentalmente a mesma das células animais e vegetais, sendo a parede celular exclusiva e está situada na superfície exterior da célula, tendo papel no transporte de moléculas para dentro e fora da célula (OSUMI, 1998).

Na nutrição animal, a utilização da levedura pode ser feita na forma integral (ativa ou inativa), ou partes de seus componentes, como produtos provenientes da parede celular e conteúdo celular (COSTA, 2004). As leveduras são classificadas como alimento funcional por trazer benefícios adicionais aos da nutrição básica. Elas são ricas em proteínas e carboidratos, vitaminas do complexo B, enzimas, ácidos graxos voláteis, minerais quelatados, além disso, possuem propriedades prébioticas e probioticas, oferecem benefício ao sistema imunológico e melhoraram a palatabilidade dos alimentos (FLEMMING, 2005).

Outra utilidade das leveduras se deve ao fato dessas serem capazes de atuar como substâncias sequestrantes de micotoxinas (efeito de absorvente de micotoxinas), ou seja, ligam-se às toxinas para ocorrer a detoxificação. Na forma inativa, as leveduras podem ter ação profilática e serem altamente palatáveis (COSTA, 2004).

A célula da levedura apresenta vários componentes, sendo que os derivados de sua parede celular são os mais estudados em relação a ação sobre a imunidade e microbiota animal. As leveduras são utilizadas em alimentos para cães, na forma integral e isolada, e estudos mostram que sua utilização na nutrição desses animais pode aumentar a palatabilidade, textura e digestibilidade da dieta, além de melhorar a saúde e bem-estar do animal (SWANSON & FAHEY, 2007). 

Fonte de proteína

A parede celular de leveduras é composta principalmente por proteína e carboidratos. O extrato de levedura (conteúdo celular) pode ser considerado uma fonte protéica, pois é rico em inositol, promotor de crescimento natural, que estimula a síntese de biotina (COSTA, 2004).

As leveduras são fontes de proteína unicelular, ricos em proteínas e vitaminas do complexo B, enzimas, ácidos graxos voláteis e minerais quelatados. (BUTOLO, 2010). O extrato de levedura de cepa específica, obtido da extração do conteúdo celular da levedura Saccharomyces cerevisiae é um exemplo de ingrediente utilizado na nutrição animal, e é classificado como protéico de origem microbiana.

A maior parte das proteínas da levedura está relacionada com os mananoligossacarídeos (MOS) o que forma o complexo mananoproteinas. O extrato de levedura de cepa especifica é um ingrediente proteico que apresenta peptídeos e aminoácidos livres, decorrente da hidrólise sofrida pela proteína durante o processo de fabricação, o que pode favorecer a digestibilidade da proteína.

As células de levedura apresentam teor protéico de 45%-65%, sendo que essa composição varia por diversos motivos, por exemplo, pela natureza do substrato e espécie da levedura. Os aminoácidos encontrados em concentração mais elevada são o glutâmico, aspártico, leucina, alanina e lisina. Por isso, os produtos de levedura podem ser utilizados para misturas com cereais, para completar aminoácidos essenciais que geralmente são deficientes em grãos de cereais utilizados na nutrição animal (SGARBIERI et al., 1999).

Efeito prebiótico

A parede celular das leveduras possui em sua maioria polissacarídeos mananos e glucanos, que agem como prebióticos (COSTA, 2004). A partir da parede celular das leveduras é possível obter os oligossacarídeos com efeito prebiótico: galacto-oligossacarídeos (GOS) e mananoligossacarídeos (MOS). O MOS possui estrutura complexa de manose fosforilada, glucose e proteína, sendo que consiste de fragmentos de parede celular de Saccharomyces cerevisiae. Os mananos protegem o mecanismo de defesa do organismo animal (COSTA, 2004). 

O uso das leveduras como prébioticos trazem benefícios à saúde e desempenho dos animais, isso porque aumentam a população de bactérias benéficas no trato gastrintestinal, melhoram condições luminais e anatômicas do trato gastrintestinal, e inibem a proliferação de bactérias patogênicas. (GOMES, 2009).

Gomes (2009) comprovou o efeito prebiótico de parede celular de levedura na dieta de cães pela imunoestimulação verificada nos cães. Além disso, as leveduras podem ter efeito prebiotico pois podem ser fermentados no intestino dos cães e aumentar assim o número de lactobacilos fecais e de bifidobactérias. 

Efeito probiótico

A utilização da levedura na forma ativa (leveduras vivas) pode ter efeito probiótico. Isso porque as células de levedura não aderem ao epitélio intestinal, já que não são o hospedeiro natural do trato gastrintestinal, então multiplicam-se pouco e transitam junto com o bolo alimentar, sendo assim, diminuem a pressão exercida por microrganismos patogênicos (COSTA, 2004).

As leveduras, também usadas como probióticos agem multiplicando-se e produzindo metabólitos nutritivos no trato gastrintestinal. Muitas leveduras possuem minerais e vitaminas que também podem melhorar a ação dos micro-organismos probióticos.

Como probiótico, espécies de leveduras do gênero Saccharomyces podem ser utilizadas na alimentação animal, principalmente a S. cerevisiae, pela sua habilidade na conversão de açúcares em etanol e em dióxido de carbono. Essa levedura tem a capacidade de diminuir o número de bactérias aeróbias no trato gastrintestinal pois diminui o oxigênio nesse local (GARCIA, 1998). Para que a levedura tenha efeito probiótico, é necessário uso contínuo e fornecer quantidade suficiente de células vivas. 

Considerações Finais

Além de ser uma alternativa a substituição de fontes protéicas de origem animal, a utilização de leveduras traz benefícios para a saúde intestinal e função imune do animal. Apesar dos benefícios que a utilização de levedura pode trazer a nutrição de cães e gatos, é necessária atenção para a qualidade, manipulação e armazenamento dos produtos, além da necessidade de mais estudos para comprovar seus efeitos na alimentação de animais de companhia.

Referências bibliográficas:
COSTA, L. F. Leveduras na nutrição animal. Revista Eletrônica Nutritime, v.1, n°1, p.01-06, 2004.
FLEMMING, J. S. Utilização de leveduras, probióticos e mannanoligossacarídeos (MOS) na alimentação de frangos de corte. Tese (Doutorado em Tecnologia de Alimentos) – Universidade do Paraná, Curitiba, 2005.
GARCIA, F. Mecanismos de Ação de Saccharomyces cerevisae em Monogástricos. Rio de Janeiro: Seminário Saf do Brasil Divisão Agropecuária: Microbiologia Aplicada à Nutrição Animal, Rio de Janeiro,  76p. (Boletim técnico), 1998.
GOMES, M.O.S. Efeito da adição de parede celular de levedura sobre a digestibilidade, microbiota, ácidos graxos de cadeia curta e aminas fecais e parâmetros hematológicos e imunológicos de cães. 2009. 96 f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal, 2009.
SGARBIERI, V. C.; ALVIM, I. D.; VILELA, E. S.; BALDINI, V. L. S.; BRAGAGNOLO, N. Produção piloto de derivados de levedura para uso como ingrediente na formulação de alimentos. Brazilian Journal of Food Techonology, Campinas. V. 21, n. ½, p. 119-125, 1999.
Osumi, M. The ultrastructure of yeast: cell wall structure and formation. Micron and Microscopica Acta, v. 29, n. 6, p. 207-233, 1998.
SWANSON, K. S.; FAHEY, G. C. Jr. Prebiotics in companion animal nutrition. 2007. Disponível em: < http://en.engormix.com/MA-pets/articles/prebiotics-companion-animal-nutrition-t414/p0.htm> Acesso em 10 ago. 

domingo, 21 de agosto de 2016

Prebióticos e probióticos na alimentação de animais de estimação

Daniele Cristina de Lima, Marina Volanski Teixeira Netto, Ronan Omar dos Santos, Camilla Mariane Menezes Souza

Introdução

 photo prebioticos_zpsxsrx2qlw.jpg Na busca de melhorar a qualidade de vida e a longevidade de cães e gatos, muitos estudos vêm sendo realizados com a utilização de diversos alimentos, entre eles os aditivos.  Estes, são utilizados na alimentação animal no Brasil segundo a regulamentação técnica estabelecida pela instrução normativa (IN) nº13, de 30 de novembro de 2004, instituída pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA). A IN 13 (2004) é geral para todas as categorias animais, não havendo diferenciação específica para animais de companhia.

Em alimentos completos destinados a cães e gatos, os aditivos são largamente utilizados e apresentam diversas funções, como para a conservação das dietas e melhoria do aspecto em relação a textura, cor e sabor. Ainda, os aditivos podem melhorar a saúde, bem-estar e longevidade dos animais de companhia. Estes últimos se enquadram ao grupo de aditivos zootécnicos, os quais englobam substâncias conhecidas como “alimentos funcionais” e são os mais estudados.

Os aditivos zootécnicos são definidos pela IN 13 (2004) como “toda substância utilizada para influir positivamente na melhoria do desempenho dos animais”. Em relação aos animais de companhia, consideram-se as substâncias que melhorem a saúde, longevidade, pelagem, características fecais e bem-estar.
No Brasil, no mínimo 60,9% das dietas secas extrusadas para cães utilizam aditivos para melhorar a saúde intestinal e/ou características fecais dos animais (Felix et. al, 2013). Entre eles, destacam-se os pre e probióticos, os quais são responsáveis por inibir microrganismos patogênicos e podem apresentar efeito imunomodulador, além de melhorar a saúde intestinal de cães e gatos.

Prebióticos

Embora o termo “prebiótico” tenha sido adotado somente em 1995 (Gibson & Roberfroid, 1995) os estudos sobre eles são bem mais antigos. Na década de 50, a descoberta de que o leite humano possui compostos que atuam como inibidores de adesão de bactérias patogênicas na superfície epitelial (posteriormente identificado como lactulose) e potencializam o crescimento das populações de bifidobactérias e lactobacillus, aliviando os sintomas de encefalopatia hepática em bebês (Nicoli & Vieira, 2000) incentivou outras explorações sobre o efeito do consumo de compostos não digestíveis na microbiota intestinal (Farnworth et al., 1992).

Para manter os animais de produção com equilíbrio benéfico da microbiota do trato gastrointestinal e diminuir a mortalidade, os principais produtos adicionados na nutrição animal foram os antibióticos e quimioterápicos, os quais quando utilizados em doses subterapêuticas também tinham utilidade como promotores de crescimento (Salyers, 1999).

Crescentes estudos afirmam que estes produtos estão tornando-se ineficazes, pois são responsáveis pelo aumento da resistência de bactérias patogênicas aos tratamentos com antibióticos na alimentação animal e humana (Spring, 1999). Desde o ano de 2004 alguns antibióticos e quimioterápicos deixaram de ser utilizados como promotores de crescimento, quando foram proibidos pela instrução formativa n° 11, de 24 de novembro de 2004 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, 2004).

Desde então, o uso e pesquisa com os prebióticos estão sendo intensificados, por não causarem nenhum prejuízo a saúde, além de poder aumentar a quantidade de microrganismos benéficos, melhorar o sistema imunológico e ainda melhoram a qualidade das fezes nos cães.
Atualmente, estes compostos vêm sendo utilizados como alternativa aos promotores de crescimento, com o objetivo de manter o equilíbrio benéfico da microbiota intestinal, especialmente em animais jovens ou em condição de estresse (Silva e Norberg, 2003).

Definição

Segundo Gibson e Roberfroid (1995), prebiótico é um ingrediente alimentar não digestível pelas enzimas do intestino delgado que beneficia o organismo por estimular seletivamente o crescimento e/ou atividade de determinadas bactérias no cólon, promovendo a saúde do hospedeiro.

Gibson e Roberfroid (1995) selecionaram alguns pré-requisitos para que uma substância possa ser considerada um prebiótico: 1) não deve ser hidrolisada ou absorvida durante sua passagem pelo trato digestório superior; 2) deve ser fermentada seletivamente por um número limitado de bactérias potencialmente benéficas no cólon; 3) deve possuir capacidade de alterar a microbiota intestinal de maneira favorável à saúde do hospedeiro; 4) deve induzir efeitos benéficos intestinais ao hospedeiro.

Estes podem ser oligossacarídeos, carboidratos de cadeia curta. Como exemplos de oligossacarídeos utilizados como prebióticos pode-se citar os glicoligossacarídeos (GOS), lactoligossacarídeos, xiloligossacarídeos (XOS), frutoligossacarídeos (FOS) e mananoligossacarídeos (MOS). Dentre os citados, os FOS e MOS vem apresentando resultados interessantes quanto à saúde intestinal dos animais de produção, sendo os mais difundidos atualmente e também os mais utilizados em pesquisas.

Probióticos

Os probióticos já são utilizados há muito tempo na alimentação. Em 1907, a Teoria de Metchnikoff (Teoria da Longevidade) mostrou a importância dos lactobacilos para a saúde do homem. Por isso, encontramos atualmente produtos contendo probióticos em todo o mercado mundial.
Lilly e Stillwell (1965) foram os primeiros a utilizar o termo probiótico, verificando a ação de microrganismos como promotores de crescimento.

A década de 70 foi marcada pelo início do uso de um probiótico para fim animal, o Lactobacillus acidophilus. Este fato culminou com a preocupação, por parte das autoridades e órgãos de saúde animal internacionais, com as rações animais contendo antibióticos. A preocupação resultou na interdição do uso de algumas dessas substancias alegando que a eficácia desses componentes poderia ser diminuída quando utilizados em humanos, se administradas continuamente em animais. 

Definição

O termo probiótico deriva do grego e significa “pró-vida”, sendo o antônimo de antibiótico, que significa “contra a vida”. Ao longo do tempo esta denominação teve diferentes acepções (Coppola, Tunes, 2004).

Existem várias definições para probiótico, ao longo dos anos vários autores o descreveram. Foi inicialmente descrito por Lilly e Stillwell (1965) como substâncias produzidas por protozoários que estimulavam outras substâncias. Em 1974, Parker definiu probiótico como microrganismos, como bactérias e leveduras, que podem ser adicionadas à dieta com o propósito de regular a microbiota intestinal, sendo esta definição a mais consagrada atualmente. Probióticos são produtos constituídos por microrganismos vivos que uma vez introduzidos no organismo animal influenciam beneficamente o hospedeiro por meio da melhoria do balanço microbiano intestinal (Fuller, 1989). Segundo Schrezenmeir Vrese (2001) probiótico designaria preparações ou produtos que contêm microrganismos viáveis definidos e em quantidades adequadas, que alteram a microbiota própria das mucosas por implantação ou colonização de um sistema do hospedeiro, e que produzem efeitos benéficos a sua saúde. 

As características essenciais para um microrganismo ser considerado probiótico são: ser um habitante normal do TGI do hospedeiro, sobreviver, crescer e se fixar ao epitélio intestinal, enfrentar condições adversas, como a produção de sais biliares, sucos gástrico, pancreático e entérico, colonizar o intestino e ter capacidade antagônica as bactérias prejudiciais, produzindo estas substâncias tóxicas. 

Simbióticos

Definição

O conceito de simbiótico alia o fornecimento de microrganismos probióticos juntamente com substâncias prebióticas específicas que estimulem seu desenvolvimento e atividade, potencializando o efeito de ambos os produtos (Menten, 2001).

Funções

Para entender claramente suas funções, se faz necessária uma rápida explicação em relação aos probióticos e prebióticos.

Probióticos são produtos constituídos por microorganismos vivos que uma vez introduzidos no organismo animal influenciam beneficamente o hospedeiro através da melhoria do balanço microbiano intestinal (Fuller, 1989). Tendo como principais modos de ação descritos para os probióticos são: Exclusão competitiva, produção de substancias antibacterianas e, estímulo ao sistema imune.

O prebiótico é um ingrediente alimentar não digestível pelas enzimas do intestino delgado que beneficia o organismo por estimular seletivamente o crescimento e/ou atividade de determinadas bactérias no cólon, promovendo a saúde do hospedeiro. (GIBSON e ROBERFROID, 1995). 2001). Carboidratos não-digestíveis, como a parede celular de plantas e leveduras, são exemplos de prebióticos. Em particular, os MOS funcionam como nutrientes para as bactérias probióticas (Bradley e Savage, 1994; Onifade et al., 1999).

Considerações finais

A utilização de pre e probióticos pode ser altamente benéfico para a saúde intestinal de cães e gatos e pode influenciar positivamente nas características fecais tão desejáveis principalmente para animais que estão presentes dentro de casa. Estes aditivos podem ser utilizados separadamente ou em conjunto para melhorar a microbiota intestinal benéfica. 

Referências:
COPPOLA, M.M.; TURNES, C.G. Probióticos e Resposta Imune. Ciência Rural. V. 34, n.4, p. 1297-1303, 2004.
FARNWORTH, E.R. et al. Feeding Jerusalem artichoke flour rich in fructooligosaccharides to weanling pigs. Can J Anim Sci, Ottawa, v.72, n.12, p.977-980,1992.
FELIX, A. P. Avaliação de Aditivos Sobre as Características das Fezes de Caes. Curitiba, Brasil. Universidade Federal do Paraná 2009. Dissertaçâo (Mestrado) - Universidade Federal do Paraná 2009.
FELIX, A.P., BRITO, C.B.M., ZANATTA, C.P., LIMA, D.C., OLIVEIRA, S.G., MAIORKA, A. Supplementation of fructooligosaccharides (FOS) on faecal characteristics of adult dogs. Archives of veterinary science. V.18, n.1, p.9-14, 2013a. 
FULLER, R. Probiótics in man and animals. Journal of Applied Bacteriology, v.66, p365-378, 1989.
GIBSON, G. R.; ROBERFROID, M. B. Dietary modulation of the human colonic microbiota: introducing the concept of prebiotics. J. Nutr., Cambridge, v.125, n.6, p.1401-1412, 1995.

LILLY, D.M, STILLWEL, R.H. Probiotics grow promoting factors produced by micro organisms. Science, v.147, p.747-748, 1965.
MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instruçâo Normativa n° 11, de 24 de novembro de 2004.
NICOLI, J.R.; VIEIRA, L.Q. Probióticos, prebióticos e simbióticos . Moduladores do ecossistema digestivo. Ciência Hoje, São Paulo, v.28, n.163, p.34.38, 2000.
SILVA, E. N. Probióticos e prebióticos na alimentação de aves. In: CONFERÊNCIA APINCO DE CIÊNCIA E TECNO,OGIA AVÍCOLAS, 2., 2000, Campinas. Anais... Campinas: FACTA, p 241-251. 2000.
SCHWARZ, K.K., FRANCO, S.G., FEDALTO, L.M., BORGES, S.A., SILVA, A.V. E PEDROSO, A.C. (2002). Efeitos de antimicrobianos, probióticos, prebióticos e simbióticos sobre o desempenho e morfologia do jejuno de frangos. Revista Brasileira de Ciência Avícola, suplemento 4, p. 35.
SWANSON, K. S,; FAHEY, G.C. Jr. Portential role of yeast and yeast by-products in pet foods. In Recent Advances in Pet Nutrition. Nottingham University Press, Nottingham, p. 19-35, 2006.
OSUMI, M. The ultrastructure of yeast: Cell wall formation and structure. Micron, V.29, n.2/3, p. 207-233, 1998.


domingo, 14 de agosto de 2016

Carboidratos em Alimentos para Cães e Gatos


Camilla Mariane Menezes Souza, Cristina Sá Fortes, Daniele Cristina de Lima

Introdução

O processo de domesticação acompanha a história da humanidade com sua utilização adaptada de acordo com cada período. Criada pelos seres humanos, a domesticação causou modificações nas características de diversas espécies ao longo dos anos, aperfeiçoando a cada geração, onde os animais começaram a ter um comportamento dócil e submisso aos humanos.

A domesticação de cães e gatos é datada de 15 a 20 mil anos. Hoje, os cães são os animais domesticados mais bem adaptados à convivência direta com os seres humanos, a ponto de se tornarem conhecidos como os melhores amigos do homem. 

Pesquisadores descrevem que os lobos começaram a se aproximar dos seres humanos em busca de carcaças deixadas para trás. Posteriormente começaram a ajudar nas caçadas, proteger o homem, dando início ao processo de domesticação.Com o passar dos milênios, essa amizade se estreitou ainda mais, o que levou à criação das inúmeras raças de cães que existem ao redor do mundo. A história da domesticação dos gatos difere dos cães. Estes inicialmente eram venerados como divindades no Egito antigo e tinham importante papel no controle de pragas. O fato é que cães e gatos ao se aproximarem dos seres humanos começaram a consumir as sobras da alimentação humana, havendo uma disponibilidade crescente de carboidratos na dieta desses animais.

Cães e gatos pertencem à mesma ordem Carnívora, no entanto o gato doméstico (Feliscatus) é da superfamília Feloidea e família Felídea e o cão (Canis familiares) são da superfamília Canoideia que possui famílias de diferentes hábitos alimentares, onívoros (ursídeos), herbívoros (alurídea) e carnívoros (canídeos). Muitos pesquisadores sugerem que as diferenças nas adaptações nos processos digestivos e metabólicos estão relacionadas ao fato dos gatos pertencerem a uma família estritamente carnívora e cães com diversos hábitos alimentares direcionado para uma característica mais onívora, adaptando mais facilmente seu metabolismo ao consumo de carboidratos. 

No entanto ao avaliarmos a base alimentar de cães e gatos ambos consumiam pequenas presas, aves, pequenos roedores, onde podemos verificar que o consumo energético proveniente da caça é originado 42,50% da proteína, 55,40% da gordura e 2,10% dos carboidratos ingeridos, proveniente do conteúdo do trato digestório dos animais (Tardin e Polli 2001).Fato é que ambos são animais carnívoros. Sendo assim, muitos outros fatores devem ser considerados nesta discussão para que possamos melhor definir os objetivos da utilização de carboidratos em dietas para carnívoros e seus limites.

Carboidratos

Os carboidratos representam as biomoléculas com maior abundância na Terra. Constitui a maior parte da dieta do mundo e por meio da sua oxidação gera energia para a maioria das células não fotossintéticas. Além de atuar no abastecimento energético, são elementos estruturais e protetores das paredes celulares bacterianas e vegetais, estão presentes nos tecidos conjuntivos animais e desempenha papel de sinalizadores no organismo (Lehninger et al., 2006).

Os monossacarídeos são os carboidratos mais simples, representados pela glicose e frutose, os oligossacarídeos correspondem aos carboidratos de cadeia curta, cujo principal representante é a sacarose e a celobiose, e os polissacarídeos incluem carboidratos com cadeias superiores representados pelo amido e pelos polissacarídeos não amiláceos.

O amido é formado basicamente por dois polímeros: a amilose e a amilopectina (Lehninger et al., 2006). Suas proporções variam de acordo com a espécie vegetal, idade e cultivares. A maior parte dos amidos é composta por 70-80% de amilopectina e 20-30% de amilose. Segundo Melo et al., (1998), a amilose é formada por 200 a 20.000 unidades de glicose unidas entre si por ligações glicosídicas do tipo α-1,4, formando uma cadeia helicoidal não ramificada. Entretanto, a amilopectina difere da amilose porque é ramificada. Este tipo de estrutura é constituído por cadeias curtas formadas por aproximadamente 30 unidades de glicose unidas à cadeia principal por ligações α -1,6, aproximadamente a cada 20 ou 30 unidades de glicose, que estão unidas entre si por ligações do tipo α -1,4. As moléculas de amilopectina podem conter mais de dois milhões de unidades de glicose. 

O International Starch Institute (2005) define a amilose como a responsável pela propriedade geleificante do amido, enquanto que a amilopectina é indicada como a responsável pela sua viscosidade. Segundo Rawles &amp; Lochmann (2003), as diferenças estruturais que caracterizam os amidos podem estar associadas aos diferentes graus de digestão das fontes de carboidratos encontradas nos mamíferos e algumas espécies de peixes.

O amido não processado é insolúvel em temperatura ambiente (Van Soest, 1994) e quando é aquecido em água a uma temperatura mínima de 60ºC ocorre uma alteração irreversível. Os grânulos de amido expandem com a entrada da água, a amilose se solubiliza e as cadeias de amilopectina se quebram facilmente (Van Soest, 1994), promovendo a ruptura da estrutura granular, hidratação e solubilização do amido. A esse processo dá-se o nome de gelatinização (Biliaderis, 1991).

Particularidades fisiológicas, metabólicas e suas interações com carboidratos

Cães e gatos apresentam um sistema digestório relativamente simples e curto, orientado para a digestão enzimática de proteínas e gorduras. Os processos fermentativos são baixos quando comparados às espécies herbívoras e onívoras, no entanto de fundamental importância para manutenção da saúde intestinal.

A boca é composta por dentes com a função de apreender, rasgar e mastigar o alimento. Os cães executam uma mastigação rápida e incompleta usando os dentes incisivos, caninos, pré-molares e molares com movimentos mandibulares verticais. Os gatos realizam uma boa mastigação como movimentos mandibulares verticais. Os felinos devido à anatomia de seu crânio apresentam movimento mandibular vertical, adequado para corte e trituração de alimentos, favorecendo a mastigação.

Em animais herbívoros e onívoros o inicio da digestão de carboidratos é na boca, onde o processo de mastigação é intenso iniciando o rompimento da parede vegetal, expondo os nutrientes para ação enzimática da amilase salivar e processos digestivos subsequentes. Em cães e gatos a mastigação quando ocorre é de forma a adequar o tamanho da partícula para facilitar a deglutição do alimento, tendo em vista que os dentes de carnívoros não são planos e sim cortantes. A rápida passagem do alimento pela boca e a baixa concentração de carboidratos na dieta no habitat natural de cães e gatos, nos faz justificar a ausência da amilase salivar nessas espécies. 

Diante dessas características iniciais do sistema digestório dos cães e gatos, o processo de moagem que antecede o processo de extrusão dos alimentos industrializados é de fundamental importância para o início de um aproveitamento adequado do alimento com carboidratos para essas espécies. Alimentos secos e semiúmidos são compostos com uma média de 30 a 60% de carboidratos dependendo da categoria comercial que ele se encontra. A moagem adequada do alimento proporcionará uma melhor mistura dos ingredientes com consequente melhoria na qualidade do processo de extrusão, proporcionando gelatinização adequada do amido e aeração das partículas facilitando a ação enzimática e processos digestivos após o processo de deglutição.

O estômago dos cães e gatos é bastante volumoso adaptado ao armazenamento de grande quantidade de alimentos e orientado para iniciar a digestão de proteínas e gorduras. Neste local através de contrações constantes ocorre a redução das partículas para que possam ser liberadas em tamanhos adequados para a digestão no intestino delgado. 

A maior parte da digestão dos alimentos ocorre no intestino delgado, que é segmentado anatomicamente em duodeno jejuno e íleo. Cães medindo 0,75 m de comprimento apresentam intestino com, aproximadamente, 4,5 m de comprimento, sendo 3,9 m de intestino delgado (54 cm² de jejuno e 38 cm² de íleo), representando aproximadamente 23% de sua capacidade digestiva. Já, gatos medindo 0,5m apresentam 2,1m de intestino (1,7m de intestino delgado), compondo 15% de sua capacidade digestiva.

O inicio da digestão dos carboidratos ocorre no intestino delgado, na fase luminal, através da ação da amilase pancreática. Tanto cães quanto gatos, embora carnívoros, apresentam α-amilase pancreática. Posteriormente, na borda em escova dos enterócitos os resíduos da ação da α-amilase pancreática, maltose, isomaltose e maltotriose e demais carboidratos como a lactose e a sacarose serão atacados por enzimas específicas finalizando esta etapa do processo de digestão de carboidratos. 

A digestão dos carboidratos presentes na dieta apresenta como produtos finais a glicose, a frutose e a sacarose, as quais são transportadas pela veia porta até ao fígado (Bender &amp; Mayes, 2006). Ao nível deste órgão, tanto a frutose como a galactose são convertidas em glicose, sendo esta o monossacarídeo mais importante presente no fluxo sanguíneo (Sackheim &amp; Lehman, 2001).

A glicose tem uma particular importância em relação a outras fontes energéticas relevantes no organismo porque, sob a maioria das condições, é a única consumida pelo sistema nervoso central (SNC) e eritrócitos. Para um normal funcionamento de ambos é necessário que haja um suprimento constante de glicose (Wolf et al., 2006), e em períodos de jejum, são os alvos principais deste monossacarídeo (Bender &amp; Mayes, 2006). Deste modo, torna-se clara a necessidade de um elaborado sistema de homeostase que regule a glicemia e a sua disponibilidade para o cérebro e outros tecidos (Shepherd &amp; Kahn, 1999), mesmo em animais carnívoros.

Ao aumentarmos os carboidratos na dieta de cães e gatos estes se tornam os principais fornecedores de glicose necessária para manutenção da homeostase e metabolismo energético, diminuindo a gliconeogênese e a utilização de aminoácidos como fonte de energia.

O transporte de glicose é fundamental para o metabolismo energético celular. A rota glicolítica é empregada por todos os tecidos para degradação de glicose e fornecimento de energia (na forma de ATP) e intermediários para outras rotas metabólicas.

A glicose não pode difundir-se através dos poros da membrana, visto que seu peso molecular é de 180, e o máximo das partículas permeáveis é cerca de 100. Existem dois mecanismos de transporte de glicose através da membrana celular: transporte facilitado, mediado por transportadores de membrana específicos (GLUT) e o co-transporte com o íon Sódio (SGLT) (Brown, 2000).

O mecanismo de co-transporte esta presente na parte apical da célula intestinal e túbulo proximal renal. Tem a função de captar a glicose da dieta para levar à corrente sangüínea e prevenir da perda urinária da glicose. Este transporte é independente da influência da insulina, processo que é mediado por um transportador, no qual o movimento da glicose é acoplado ao gradiente de concentração do sódio, que é transportado para o interior da célula ao mesmo tempo (Brown, 2000).

O passo inicial no metabolismo da glicose é o seu transporte através da membrana celular por um processo de difusão facilitada. Este mecanismo é modelado por uma família de pelo menos quatorze pequenas proteínas membranares, denominadas de transportadores de glicose (GLUT-1 a GLUT-14) (Rijnberk &amp; Kooistra, 2010). Esses mecanismos apresentam semelhanças em mamíferos. Com advindo da biologia molecular mais estudos poderão ser realizados esclarecendo este processo em cães e gatos orientando novos desenvolvimentos dietéticos e segurança na utilização de carboidratos para essas espécies.

Com relação às rotas metabólicas, a fosforilação da glicose, formando Gli-6-P, para que esta permaneça na célula, para condução das reações metabólica do momento pós absortivo é que a apresenta um grande diferencial entre cães e gatos. Cães apresentam a glicoquinase enzima com ação específica do fígado quando em altas concentrações de glicose sanguínea e a hexoquinase que trabalha fosforilando a glicose nos tecidos, principalmente no músculo mesmo em baixas concentrações de glicose. A glicoquinase esta ausente nos gatos, mas apresentam a hexoquinase, muito em função que na dieta original desses animais os carboidratos eram quase que inexistentes, não havendo necessidade de uma enzima que trabalhasse com níveis altos de glicose sanguínea no período pós prandial.

O intestino grosso compreende o ceco, cólon, reto e anus. É responsável pela reabsorção de água e eletrólitos do quimo proveniente do intestino delgado e atua como ambiente para fermentação microbiana dos nutrientes não absorvidos da dieta. O cólon corresponde a maior fração do intestino grosso e é constituído pelo cólon ascendente, transverso e descendente. Gatos não apresentam ceco funcional, enquanto cães possuem um resquício de ceco com baixa atividade fermentativa (Case et al., 2000).

As principais fontes de carboidratos que chegam ao intestino grosso são classificadas como fibras. Seus principais componentes são: a celulose, hemicelulose, pectina, gomas, mucilagens e lignina. Para cães e gatos, a fração fibra do alimento foi inicialmente identificada como indesejável ou desnecessária, entretanto, descobriu-se posteriormente que um baixo suprimento de matéria orgânica para o intestino grosso poderia conduzir a efeitos negativos na digestão, como a diminuição da motilidade intestinal e prejuízo ao funcionamento da parede do intestino (Drochner &amp; Meyer, 1991). 

Os principais efeitos da fibra na saúde do sistema digestório dos cães e gatos têm sido a manutenção de uma população benéfica de microrganismos intestinais e a funcionalidade absortiva do epitélio intestinal. O fornecimento adequado de substratos para os microrganismos intestinais permite o desenvolvimento de uma flora microbiana desejável. Esta flora microbiana, principalmente as bifidobactérias, pode competir com os microrganismos indesejáveis pelo substrato e sítios de absorção impedindo a proliferação desses microrganismos, evitando, assim, o desenvolvimento de diarréias e outras patologias do trato gastrointestinal (TGI).

Embora a fibra não possa ser quebrada por enzimas digestivas dos cães e gatos, microrganismos presentes no TGI, principalmente no cólon, são capazes de fermentar este substrato e produzir ácidos graxos voláteis (AGVs) e outros produtos finais. Os AGVs, principalmente o ácido butírico, são os principais fornecedores de energia para os colonócitos e a magnitude da digestão bacteriana pode depender de fatores como o tipo da fibra presente na dieta, tempo de passagem no TGI e do consumo de outros constituintes da dieta.

Digestibilidade de carboidratos

Na maioria das rações extrusadas para cães e gatos, o amido constitui a maior fonte de energia (Cheeke, 1999). São vários os fatores que interferem na digestão do amido. O processamento do alimento propicia transformações físicas benéficas sobre os grânulos de amido (Lee et al., 1985) melhorando sua digestibilidade, sendo fundamental para utilização do amido pelos carnívoros (Murray et al., 2001). Em sua revisão sobre nutrição de cães, Meyer (1997) relatou que a digestibilidade do amido varia conforme a fonte e o processamento da matéria prima. Assim, apesar dos amidos de arroz e trigo apresentarem digestão acima de 97% mesmo sem tratamento algum, para apresentarem boa digestão (99% a 100%), o amido de milho precisa ser moído e micronizado e os amidos da batata e mandioca cozidos. Mesmo entre cultivares de um mesmo grão existem diferenças quanto à digestibilidade.

Estudando o arroz como fonte de carboidrato em ração seca extrusada para cães, Belay et al., (1997) discutiram que o arroz de grão longo apresenta mais amilose e menos amilopectina. Como a estrutura linear da amilose apresenta mais pontes de hidrogênio e maior índice de cristalização, o arroz longo é digerido mais lentamente. Estes autores conduziram dois experimentos: no primeiro verificaram aumento linear na digestibilidade da matéria seca, proteína, gordura e energia com a substituição do milho por quirera de arroz. Quanto maior a quantidade de arroz, melhor a digestão da ração. Consequentemente, a quirera de arroz levou os cães a produzirem fezes em menor quantidade e com menor teor de água.

No segundo experimento os autores supracitados compararam o arroz parbolizado, arroz branco médio, arroz integral, arroz branco longo e a quirera de arroz. Os resultados demonstraram que a utilização de arroz parbolizado levou a dieta a apresentar maior digestibilidade aparente da matéria seca, proteína e gordura, seguido pelo arroz branco médio e, depois, empatados, o arroz integral, arroz branco longo e a quirera de arroz. Todas as dietas, no entanto, apresentaram coeficiente de digestibilidade acima de 93% para os ENN. 

Estudando o efeito do processamento, Wolter et al., (1998) compararam a digestibilidade de dois carboidratos na sua forma crua e gelatinizada. Foram utilizadas quatro dietas contendo: amido de trigo, amido de trigo gelatinizado, amido de mandioca e amido de mandioca gelatinizado. O processo de gelatinização não demonstrou efeito significativo na digestibilidade ileal do amido de trigo, resultando em 99,4% para o amido cru e 98,0% para o gelatinizado. Contudo, para a mandioca, o processo de gelatinização elevou a digestibilidade ileal de 57,6% para 97,4%.

Estudando a digestibilidade do ingrediente, não da dieta, Sá-Fortes (2010) empregou o método de substituição para determinação da digestibilidade. Os ingredientes que apresentaram melhores coeficientes de digestibilidade dos nutrientes foram: milho, sorgo, quirera de arroz e milheto. Resultados semelhantes foram verificados por Twomey et al., (2002) e Carciofi, et al., (2008). A menor concentração de fibra dietética total destes ingredientes pode estar relacionada com seu melhor aproveitamento pelos cães.

Outros fatores como a dificuldade de acesso a molécula do amido nos ingredientes, resistência dos grânulos à ação enzimática, formação de amido retrogradado (Englyst et al., 1992) podem produzir uma menor digestibilidade da dieta e desconfortos intestinais no animal, restringindo o uso de alguns ingredientes.

Considerações finais

Os ingredientes energéticos ricos em carboidratos são mais acessíveis e com um melhor custo que as fontes ricas em lipídios e proteicas. O processo de extrusão, necessário para produção dietas que atendam uma demanda maior da população, necessita de no mínimo 30% de amido para que este ocorra de forma satisfatória. Todos os animais necessitam de glicose e mesmo aqueles com metabolismo orientado para gliconeogenese o fornecimento da glicose via carboidratos torna-se mais interessante fisiologicamente. No entanto, faz-se necessário o conhecimento dos níveis adequados para cada fase fisiológica do animal para que desequilíbrios metabólicos não ocorram. O quanto adicionar será dependente dos fatores inerente da composição nutricional de cada ingrediente constituinte da dieta. Fatores como polissacarídeos não amiláceos, fatores antinutricionais, relação amilose:amilopectina e curvas glicêmicas devem ser avaliados com cautela na escolha do ingrediente com carboidrato. É válido ressaltar que cães e gatos preferem consumir carne a uma base alimentar de milho e, que o consumo adequado de uma dieta é fundamental para o atendimento de suas exigências nutricionais e manutenção da saúde e longevidade do animal. 

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domingo, 7 de agosto de 2016

Diferenças fisiológicas entre cães e gatos

Leticia Warde Luis, Daniele Cristina de Lima

Introdução

Na sociedade moderna cães e gatos são tratados como parte da família, ganham roupinhas e acessórios e recebem tratamentos estéticos frequentes. Com a sua alimentação não é diferente, a importância que o homem tem dado para a dieta dos seus pets é cada vez maior. Por este motivo o ramo da nutrição de cães e gatos tem grande importância econômica e está se desenvolvendo rapidamente. Diferentemente da nutrição de animais de produção, a nutrição pet busca fornecer uma nutrição ótima com objetivos de manter a saúde e bem-estar, estética e a longevidade dos animais.

Principais Diferenças

Não é por acaso que o cão é o melhor amigo do homem, esta espécie animal foi a primeira a ser domesticada, há mais de 500 mil anos atrás. Segundo Tatibana et. al (2009) esse processo se deu através dos lobos que eram expulsos de suas matilhas e encontravam no ser humano proteção e fontes de alimentação. Como ambos são gregários, se adaptaram bem. Entretanto, outras pesquisas mais recentes sugerem que isso aconteceu ao contrário, que foram os humanos expulsos de seus grupos que buscaram abrigo nas matilhas. Não se tem certeza exatamente como ocorreu, mas o que se sabe é que essa parceria deu certo e cresce muito até hoje. Até algum tempo atrás o cão servia o homem e era utilizado para diversos tipos de trabalho, puxava trenós, caçava, fazia guarda e pastoreio. Até hoje ainda exerce essas funções, mas sua principal atividade hoje é ser animal de companhia.

O cão, na sua essência, é um animal oportunista. Ele é carnívoro, mas na falta de carne se alimenta de outras fontes de alimento para não passar fome, podendo também ser chamado de carnívoro não-estrito. Seu organismo tem capacidade de se adaptar à falta de proteínas na dieta através da regulação das enzimas do fígado que fazem o catabolismo dos aminoácidos ingeridos. O cão tem o hábito de fazer grandes refeições poucas vezes por dia. Ele ingere grandes quantidades de alimento de uma só vez e o seu organismo poupa o que pode de nutrientes. Por ser carnívoro não estrito adapta-se bem às dietas industrializadas, que contém, normalmente, altos níveis de carboidratos. 
Já os gatos, foram domesticados mais tarde, quando os seres humanos deixaram de ser nômades, começaram a fixar residência e produzir seus alimentos. Os gatos selvagens se aproximaram, e como afastavam os ratos, começaram a se tornar úteis e depois de algum tempo até sagrados para algumas civilizações, como os egípcios, que os consideravam divindades.

Diferentemente do cão, o gato é essencialmente carnívoro. Na natureza alimentava-se apenas de carne. O pouco de carboidrato que ingeria era proveniente do glicogênio muscular e do conteúdo gástrico das suas presas. Por esse motivo, o gato, ao contrário do cão, faz várias refeições em pequenas quantidades e seu organismo não poupa os nutrientes, então ele precisa comer aos poucos. Isso acontece também porque o volume que o estômago dos felinos comporta é bem menor que o dos cães. Além disso, os felinos têm necessidade de outros nutrientes exclusivos das carnes. Segundo Romanini, et al. (2011), a taurina, aminoácido essencial para os gatos encontrado apenas na carne, regula a entrada de cálcio nas células, por isso é importante na prevenção da cardiomiopatia dilatada, uma doença cardíaca grave e frequente nesta espécie. Além disso ela auxilia a visão, a função reprodutiva, é um importante antioxidante das células e é precursora da síntese dos glicoesfingolipídios, componentes antibacterianos da pele. Outro nutriente importante é a vitamina A, que está nos vegetais sob forma de betacaroteno, mas os felinos são deficientes na enzima intestinal que converte este composto em vitamina A. Nas carnes ela pode ser encontrada pré-formada, a qual é funcional para os gatos. A sua deficiência causa problemas oculares, reprodutivos e de pele, além de deixar o animal susceptível à infecções. O ácido araquidônico é outro nutriente essencial, ele pode ser sintetizado pela maioria das espécies no próprio organismo por meio do ácido linoléico, mas os gatos não conseguem sintetizá-lo adequadamente, portanto precisam receber na dieta o ácido araquidônico pronto (Trevizan, et al. 2011). Esse ácido é encontrado apenas nas gorduras de origem animal. Dietas com baixo teor desse ácido causam problemas como deficiências de crescimento, falhas reprodutivas e dificuldade de cicatrização, além disso enfraquecem os pelos e causam descamação cutânea.

Sabe-se que no Brasil ainda se tem mais cães do que gatos, mas este último está pouco a pouco tomando seu lugar na sociedade. Segundo dados da Associação Nacional de Fabricantes de Alimentos para Animais (ANFAL), estima-se que a população de cães é de aproximadamente 29 milhões, enquanto os gatos são cerca de 11 milhões. Sabendo disso a indústria de alimentos para pets tem se diversificado cada vez mais para atender as diferentes necessidades nutricionais dos cães e dos gatos, que são muito diferentes.

Com a crescente busca pelo bem-estar animal, muitas pessoas têm se tornado vegetarianas. Essa condição fez o mercado pet criar rações vegetarianas também. Mas é muito importante ressaltar que apesar de os cães se adaptarem relativamente bem à essas dietas, os gatos, jamais podem se alimentar apenas de fontes protéicas vegetais, como citado anteriormente, uma vez que precisam de proteína animal e de outros compostos como o ácido araquidônico e o aminoácido taurina, que são muito importantes para o seu desenvolvimento e somente são encontrados em alimentos de origem animal. 

Considerações Finais

Com a humanização dos animais, muita gente quer que seus bichinhos comam os mesmos alimentos que os seres humanos ao invés de ração. É muito importante ressaltar que os animais têm necessidades muito peculiares e são muito diferentes dos humanos. Os únicos profissionais que podem formular dietas para cães e gatos são o médico veterinário e o zootecnista. Erros na alimentação podem ter consequências muito graves na saúde dos animais. Sabendo que a nutrição é um dos fatores mais importantes para o bem-estar dos animais, se você tem alguma dúvida ou interesse em mudar a dieta do seu bichinho, procure um profissional capacitado, que conheça a importância da dieta, as necessidades nutricionais e sobretudo as diferenças fisiológicas entre essas duas espécies. 

Referências
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