domingo, 7 de agosto de 2016

Diferenças fisiológicas entre cães e gatos

Leticia Warde Luis, Daniele Cristina de Lima

Introdução

Na sociedade moderna cães e gatos são tratados como parte da família, ganham roupinhas e acessórios e recebem tratamentos estéticos frequentes. Com a sua alimentação não é diferente, a importância que o homem tem dado para a dieta dos seus pets é cada vez maior. Por este motivo o ramo da nutrição de cães e gatos tem grande importância econômica e está se desenvolvendo rapidamente. Diferentemente da nutrição de animais de produção, a nutrição pet busca fornecer uma nutrição ótima com objetivos de manter a saúde e bem-estar, estética e a longevidade dos animais.

Principais Diferenças

Não é por acaso que o cão é o melhor amigo do homem, esta espécie animal foi a primeira a ser domesticada, há mais de 500 mil anos atrás. Segundo Tatibana et. al (2009) esse processo se deu através dos lobos que eram expulsos de suas matilhas e encontravam no ser humano proteção e fontes de alimentação. Como ambos são gregários, se adaptaram bem. Entretanto, outras pesquisas mais recentes sugerem que isso aconteceu ao contrário, que foram os humanos expulsos de seus grupos que buscaram abrigo nas matilhas. Não se tem certeza exatamente como ocorreu, mas o que se sabe é que essa parceria deu certo e cresce muito até hoje. Até algum tempo atrás o cão servia o homem e era utilizado para diversos tipos de trabalho, puxava trenós, caçava, fazia guarda e pastoreio. Até hoje ainda exerce essas funções, mas sua principal atividade hoje é ser animal de companhia.

O cão, na sua essência, é um animal oportunista. Ele é carnívoro, mas na falta de carne se alimenta de outras fontes de alimento para não passar fome, podendo também ser chamado de carnívoro não-estrito. Seu organismo tem capacidade de se adaptar à falta de proteínas na dieta através da regulação das enzimas do fígado que fazem o catabolismo dos aminoácidos ingeridos. O cão tem o hábito de fazer grandes refeições poucas vezes por dia. Ele ingere grandes quantidades de alimento de uma só vez e o seu organismo poupa o que pode de nutrientes. Por ser carnívoro não estrito adapta-se bem às dietas industrializadas, que contém, normalmente, altos níveis de carboidratos. 
Já os gatos, foram domesticados mais tarde, quando os seres humanos deixaram de ser nômades, começaram a fixar residência e produzir seus alimentos. Os gatos selvagens se aproximaram, e como afastavam os ratos, começaram a se tornar úteis e depois de algum tempo até sagrados para algumas civilizações, como os egípcios, que os consideravam divindades.

Diferentemente do cão, o gato é essencialmente carnívoro. Na natureza alimentava-se apenas de carne. O pouco de carboidrato que ingeria era proveniente do glicogênio muscular e do conteúdo gástrico das suas presas. Por esse motivo, o gato, ao contrário do cão, faz várias refeições em pequenas quantidades e seu organismo não poupa os nutrientes, então ele precisa comer aos poucos. Isso acontece também porque o volume que o estômago dos felinos comporta é bem menor que o dos cães. Além disso, os felinos têm necessidade de outros nutrientes exclusivos das carnes. Segundo Romanini, et al. (2011), a taurina, aminoácido essencial para os gatos encontrado apenas na carne, regula a entrada de cálcio nas células, por isso é importante na prevenção da cardiomiopatia dilatada, uma doença cardíaca grave e frequente nesta espécie. Além disso ela auxilia a visão, a função reprodutiva, é um importante antioxidante das células e é precursora da síntese dos glicoesfingolipídios, componentes antibacterianos da pele. Outro nutriente importante é a vitamina A, que está nos vegetais sob forma de betacaroteno, mas os felinos são deficientes na enzima intestinal que converte este composto em vitamina A. Nas carnes ela pode ser encontrada pré-formada, a qual é funcional para os gatos. A sua deficiência causa problemas oculares, reprodutivos e de pele, além de deixar o animal susceptível à infecções. O ácido araquidônico é outro nutriente essencial, ele pode ser sintetizado pela maioria das espécies no próprio organismo por meio do ácido linoléico, mas os gatos não conseguem sintetizá-lo adequadamente, portanto precisam receber na dieta o ácido araquidônico pronto (Trevizan, et al. 2011). Esse ácido é encontrado apenas nas gorduras de origem animal. Dietas com baixo teor desse ácido causam problemas como deficiências de crescimento, falhas reprodutivas e dificuldade de cicatrização, além disso enfraquecem os pelos e causam descamação cutânea.

Sabe-se que no Brasil ainda se tem mais cães do que gatos, mas este último está pouco a pouco tomando seu lugar na sociedade. Segundo dados da Associação Nacional de Fabricantes de Alimentos para Animais (ANFAL), estima-se que a população de cães é de aproximadamente 29 milhões, enquanto os gatos são cerca de 11 milhões. Sabendo disso a indústria de alimentos para pets tem se diversificado cada vez mais para atender as diferentes necessidades nutricionais dos cães e dos gatos, que são muito diferentes.

Com a crescente busca pelo bem-estar animal, muitas pessoas têm se tornado vegetarianas. Essa condição fez o mercado pet criar rações vegetarianas também. Mas é muito importante ressaltar que apesar de os cães se adaptarem relativamente bem à essas dietas, os gatos, jamais podem se alimentar apenas de fontes protéicas vegetais, como citado anteriormente, uma vez que precisam de proteína animal e de outros compostos como o ácido araquidônico e o aminoácido taurina, que são muito importantes para o seu desenvolvimento e somente são encontrados em alimentos de origem animal. 

Considerações Finais

Com a humanização dos animais, muita gente quer que seus bichinhos comam os mesmos alimentos que os seres humanos ao invés de ração. É muito importante ressaltar que os animais têm necessidades muito peculiares e são muito diferentes dos humanos. Os únicos profissionais que podem formular dietas para cães e gatos são o médico veterinário e o zootecnista. Erros na alimentação podem ter consequências muito graves na saúde dos animais. Sabendo que a nutrição é um dos fatores mais importantes para o bem-estar dos animais, se você tem alguma dúvida ou interesse em mudar a dieta do seu bichinho, procure um profissional capacitado, que conheça a importância da dieta, as necessidades nutricionais e sobretudo as diferenças fisiológicas entre essas duas espécies. 

Referências
Proteínas – Taurina – Disponível em: <http://www.royalcanin.com.br/nutricao-saude/nutrientes/proteinas/taurina>. Acesso em 31 de abril de 2016
Lipídeos – Essenciais para Cães e Gatos – Disponível em <http://www.royalcanin.com.br/nutricao-saude/nutrientes/lipidios>. Acesso em 31 de abril de 2016
Exigências Nutricionais Específicas dos Gatos – Disponível em: <http://gatalia.com.br/exigencias-nutricionais-especificas-dos-gatos/>. Acesso em 01 de maio de 2016
FRANÇA, J. et al. Avaliação de ingredientes convencionais e alternativos em rações de cães e gatos. R. Bras. Zootec., v.40, p.222-231, 2011
BAUER, J. J. E. Essential fatty acid metabolism in dogs and cats. R. Bras. Zootec., v.37, p.20-27, 2008
ROMANINI C.A., MARCIANO J.A., TEIXEIRA A.B. Deficiência Nutricional de Taurina em Felinos Domésticos. Relato de caso  - Revista OMNIA Saúde, 2011.
NELSON, R.W., COUTO, G.C. Distúrbios do sistema cardiovascular. In: Medicina Interna de Pequenos Animais. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006, p. 89-90
TREVIZAN, L., KESSLER, A. M. Lipídeos na Nutrição de Cães e Gatos: Metabolismo, Fontes e Uso em Dietas Terapêuticas. R. Bras. Zootec., v.38, p.15-25, 2009
TATIBANA, L. S., COSTA-VAL, A. P., Relação homem-animal de companhia e o papel do médico veterinário. Ver. V&Z em Minas, v. 103, p. 12-17, 2009