segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Diferentes usos da levedura na nutrição de cães e gatos

Marina V. Teixeira Netto, Daniele Cristina de Lima e Camilla Mariane Menezes Souza

Introdução 

 photo levedura_caes_gatos_zpslpralu67.jpgAs leveduras são as mais antigas fontes de proteína unicelulares consumidas na nutrição humana, através de produtos naturais, bebidas e alimentos elaborados por processos fermentativos. Na nutrição animal sua utilização traz diversos benefícios para diversas espécies, como bovinos, suínos, aves, peixes, inclusive cães e gatos. As leveduras são obtidas a partir de fermentação alcoólica, portanto, é possível obter toneladas de levedura por ano no Brasil, por esse ser um dos maiores produtores de etanol. Sendo assim, a levedura e seus derivados proporcionam diversos benefícios à nutrição animal, com baixo custo. 

As leveduras são fungos, organismos eucariontes unicelulares, e sua ultraestrutura foi estudada pela primeira vez em 1957. Sua estrutura subcelular é fundamentalmente a mesma das células animais e vegetais, sendo a parede celular exclusiva e está situada na superfície exterior da célula, tendo papel no transporte de moléculas para dentro e fora da célula (OSUMI, 1998).

Na nutrição animal, a utilização da levedura pode ser feita na forma integral (ativa ou inativa), ou partes de seus componentes, como produtos provenientes da parede celular e conteúdo celular (COSTA, 2004). As leveduras são classificadas como alimento funcional por trazer benefícios adicionais aos da nutrição básica. Elas são ricas em proteínas e carboidratos, vitaminas do complexo B, enzimas, ácidos graxos voláteis, minerais quelatados, além disso, possuem propriedades prébioticas e probioticas, oferecem benefício ao sistema imunológico e melhoraram a palatabilidade dos alimentos (FLEMMING, 2005).

Outra utilidade das leveduras se deve ao fato dessas serem capazes de atuar como substâncias sequestrantes de micotoxinas (efeito de absorvente de micotoxinas), ou seja, ligam-se às toxinas para ocorrer a detoxificação. Na forma inativa, as leveduras podem ter ação profilática e serem altamente palatáveis (COSTA, 2004).

A célula da levedura apresenta vários componentes, sendo que os derivados de sua parede celular são os mais estudados em relação a ação sobre a imunidade e microbiota animal. As leveduras são utilizadas em alimentos para cães, na forma integral e isolada, e estudos mostram que sua utilização na nutrição desses animais pode aumentar a palatabilidade, textura e digestibilidade da dieta, além de melhorar a saúde e bem-estar do animal (SWANSON & FAHEY, 2007). 

Fonte de proteína

A parede celular de leveduras é composta principalmente por proteína e carboidratos. O extrato de levedura (conteúdo celular) pode ser considerado uma fonte protéica, pois é rico em inositol, promotor de crescimento natural, que estimula a síntese de biotina (COSTA, 2004).

As leveduras são fontes de proteína unicelular, ricos em proteínas e vitaminas do complexo B, enzimas, ácidos graxos voláteis e minerais quelatados. (BUTOLO, 2010). O extrato de levedura de cepa específica, obtido da extração do conteúdo celular da levedura Saccharomyces cerevisiae é um exemplo de ingrediente utilizado na nutrição animal, e é classificado como protéico de origem microbiana.

A maior parte das proteínas da levedura está relacionada com os mananoligossacarídeos (MOS) o que forma o complexo mananoproteinas. O extrato de levedura de cepa especifica é um ingrediente proteico que apresenta peptídeos e aminoácidos livres, decorrente da hidrólise sofrida pela proteína durante o processo de fabricação, o que pode favorecer a digestibilidade da proteína.

As células de levedura apresentam teor protéico de 45%-65%, sendo que essa composição varia por diversos motivos, por exemplo, pela natureza do substrato e espécie da levedura. Os aminoácidos encontrados em concentração mais elevada são o glutâmico, aspártico, leucina, alanina e lisina. Por isso, os produtos de levedura podem ser utilizados para misturas com cereais, para completar aminoácidos essenciais que geralmente são deficientes em grãos de cereais utilizados na nutrição animal (SGARBIERI et al., 1999).

Efeito prebiótico

A parede celular das leveduras possui em sua maioria polissacarídeos mananos e glucanos, que agem como prebióticos (COSTA, 2004). A partir da parede celular das leveduras é possível obter os oligossacarídeos com efeito prebiótico: galacto-oligossacarídeos (GOS) e mananoligossacarídeos (MOS). O MOS possui estrutura complexa de manose fosforilada, glucose e proteína, sendo que consiste de fragmentos de parede celular de Saccharomyces cerevisiae. Os mananos protegem o mecanismo de defesa do organismo animal (COSTA, 2004). 

O uso das leveduras como prébioticos trazem benefícios à saúde e desempenho dos animais, isso porque aumentam a população de bactérias benéficas no trato gastrintestinal, melhoram condições luminais e anatômicas do trato gastrintestinal, e inibem a proliferação de bactérias patogênicas. (GOMES, 2009).

Gomes (2009) comprovou o efeito prebiótico de parede celular de levedura na dieta de cães pela imunoestimulação verificada nos cães. Além disso, as leveduras podem ter efeito prebiotico pois podem ser fermentados no intestino dos cães e aumentar assim o número de lactobacilos fecais e de bifidobactérias. 

Efeito probiótico

A utilização da levedura na forma ativa (leveduras vivas) pode ter efeito probiótico. Isso porque as células de levedura não aderem ao epitélio intestinal, já que não são o hospedeiro natural do trato gastrintestinal, então multiplicam-se pouco e transitam junto com o bolo alimentar, sendo assim, diminuem a pressão exercida por microrganismos patogênicos (COSTA, 2004).

As leveduras, também usadas como probióticos agem multiplicando-se e produzindo metabólitos nutritivos no trato gastrintestinal. Muitas leveduras possuem minerais e vitaminas que também podem melhorar a ação dos micro-organismos probióticos.

Como probiótico, espécies de leveduras do gênero Saccharomyces podem ser utilizadas na alimentação animal, principalmente a S. cerevisiae, pela sua habilidade na conversão de açúcares em etanol e em dióxido de carbono. Essa levedura tem a capacidade de diminuir o número de bactérias aeróbias no trato gastrintestinal pois diminui o oxigênio nesse local (GARCIA, 1998). Para que a levedura tenha efeito probiótico, é necessário uso contínuo e fornecer quantidade suficiente de células vivas. 

Considerações Finais

Além de ser uma alternativa a substituição de fontes protéicas de origem animal, a utilização de leveduras traz benefícios para a saúde intestinal e função imune do animal. Apesar dos benefícios que a utilização de levedura pode trazer a nutrição de cães e gatos, é necessária atenção para a qualidade, manipulação e armazenamento dos produtos, além da necessidade de mais estudos para comprovar seus efeitos na alimentação de animais de companhia.

Referências bibliográficas:
COSTA, L. F. Leveduras na nutrição animal. Revista Eletrônica Nutritime, v.1, n°1, p.01-06, 2004.
FLEMMING, J. S. Utilização de leveduras, probióticos e mannanoligossacarídeos (MOS) na alimentação de frangos de corte. Tese (Doutorado em Tecnologia de Alimentos) – Universidade do Paraná, Curitiba, 2005.
GARCIA, F. Mecanismos de Ação de Saccharomyces cerevisae em Monogástricos. Rio de Janeiro: Seminário Saf do Brasil Divisão Agropecuária: Microbiologia Aplicada à Nutrição Animal, Rio de Janeiro,  76p. (Boletim técnico), 1998.
GOMES, M.O.S. Efeito da adição de parede celular de levedura sobre a digestibilidade, microbiota, ácidos graxos de cadeia curta e aminas fecais e parâmetros hematológicos e imunológicos de cães. 2009. 96 f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal, 2009.
SGARBIERI, V. C.; ALVIM, I. D.; VILELA, E. S.; BALDINI, V. L. S.; BRAGAGNOLO, N. Produção piloto de derivados de levedura para uso como ingrediente na formulação de alimentos. Brazilian Journal of Food Techonology, Campinas. V. 21, n. ½, p. 119-125, 1999.
Osumi, M. The ultrastructure of yeast: cell wall structure and formation. Micron and Microscopica Acta, v. 29, n. 6, p. 207-233, 1998.
SWANSON, K. S.; FAHEY, G. C. Jr. Prebiotics in companion animal nutrition. 2007. Disponível em: < http://en.engormix.com/MA-pets/articles/prebiotics-companion-animal-nutrition-t414/p0.htm> Acesso em 10 ago.