segunda-feira, 19 de junho de 2017

Uso de FRUTOOLIGOSSACARÍDEO (FOS) e MANANOLIGOSSACARÍDEO (MOS) na dieta de cães

Guilherme Martins¹; Tabyta Tamara Sabchuk² 

¹Graduando em Zootecnia – UFPR.
²Doutoranda em Zootecnia – UFPR 


Na nutrição de cães, há a utilização de inúmeros aditivos, os quais são substancias ou microrganismo adicionados as dietas, não tendo valor nutricional direto, mas que afetam ou melhoram as características dos alimentos (IN 13, 2004). Podemos classificar os aditivos em: aditivos tecnológicos, sensoriais, nutricionais, anticoccidianos e zootécnicos. No presente artigo, focaremos em alguns aditivos zootécnicos, como no caso de moduladores de microbiota do trato gastrointestinal. 
Os cães apresentam o primeiro contato com microrganismos logo após o nascimento, principalmente na ingestão do colostro. A superfície da mucosa intestinal é colonizada por diferentes microrganismos que irão contribuir para o a formação da microbiota intestinal, a qual pode se modificar durante a vida do animal de acordo com o tipo de dieta que a ele é ofertada. (SILVA e GOMES, 2009). 
No intestino dos cães existem inúmeras bactérias com diversas funções, podendo ser prejudiciais, neutras ou benéficas para a saúde do animal, dependendo da sua concentração. Para manter a saúde intestinal é necessário que haja um equilíbrio entre todas as bactérias. (GIBSON e ROBERFROID, 1995). 
Com a nutrição, e uso desses aditivos é possível manipular as colônias bacterianas com o objetivo de melhorar a saúde intestinal e consequentemente a saúde do animal. Nesse caso, tais aditivos utilizados em quantidade correta auxiliam na promoção da saúde intestinal, devido a alguns compostos, dentre eles: os carboidratos não digeríveis, como os polissacarídeos não amiláceos, alguns agindo como substrato para as bactérias, sendo denominados de prebióticos. (PUUPPONEN-PIMIÄ et al., 2002). 
Sendo assim, os prebióticos não são digeridos no trato gastrintestinal (TGI), mas sim fermentados pelas bactérias e microrganismos ali presentes. Podem ser fornecidos como ingredientes na dieta ou de forma concentrada. (Gibson e Roberfroid, 1995). São classificados como polissacarídeos não amiláceos, substâncias que após fermentação por bactérias especificas no intestino, promovem uma melhor saúde para o animal, uma vez que estimulam o desenvolvimento de bactérias benéficas ao cólon. Os oligossacarídeos são os que melhor se enquadram em prebióticos, exemplificados pelos frutooligossacarídeos (FOS) e os mananoligossacarídeos (MOS). Tais aditivos são frequentemente encontrados em dietas para cães e gatos, podendo ser observado no rótulo quando há a sua inclusão. Há diversos estudos verificando os efeitos do FOS e MOS, no aproveitamento dos nutrientes, efeitos na microbiota do TGI, entre outros (Swanson, et al. 2002a, Swanson et al., 2002b, Felix, 2009). Normalmente, pode-se observar o uso desses aditivos em dietas premium e super premium, as quais possuem um valor agregado maior. Aliás, não é o foco desse artigo, mas um diferencial de dietas premium e super premium é o maior uso de aditivos, ou seja, além de nutrir os animais com ingrediente de excelente qualidade, esses aditivos irão beneficiar o animal de alguma forma. Nesse caso, há uma melhora, ou modulação da microbiota intestinal, trazendo benefícios aos animais. Desta forma, o objetivo deste artigo é discutir sobre os mecanismos e efeitos do FOS e MOS em dietas para cães. 

FOS

Os frutooligossacarideos (FOS) são de origem vegetal, açucares de baixa caloria, não sendo digeridos, com isso chegam e servem de substrato no intestino acarretando no aumento de bactérias benéficas. Além disso, são capazes de reduzir o colesterol sérico e auxiliar na prevenção de alguns tipos de câncer (PASSOS e PARK, 2003). 
A inclusão de FOS na dieta acarreta em uma menor concentração de Clostridium perfringens, aumento de bifidobacterium e lactobacillus, diminuição da amônia fecal e concentração de ácido graxo de cadeia ramificada. (SWANSON et al., 2002a). 
Com a chegada desse substrato ao intestino grosso, ocorre fermentação e, consequentemente pode ocorrer uma melhora na produção de AGCC, lactato e a redução do pH luminal, acarretando na alteração da composição da microflora intestinal trazendo assim, benefícios para a saúde do animal, como: melhora da saúde intestinal, evita a constipação, reduz alergias e inflamações, reduz riscos de doenças cardiovasculares, entre outras. (SCHAAFSMA e SLAVIN, 2015). 
Ainda, se comparado com uma dieta controle, a dieta que recebeu adição de 0.047% de FOS apresentou fezes com maior teor de matéria seca, ou seja, mais consistentes. Se a adição de FOS subir para 0.095% também ocorre uma redução do pH (Félix et al. (2013). 
Além de tais efeitos, estudos já realizados mostram efeitos positivos no uso da inulina, oligofrutose e FOS sobre a absorção de minerais (SCHOLZ-AHRENS et al., 2007). Os dados obtidos após um experimento realizado com cinco cães da raça beagle, confirmam que a suplementação de 1% de oligossacarídeos resultou na melhora da absorção de cálcio e magnésio, se comparado com cães que se alimentaram com uma dieta controle (BEYNEN et al. ,2002). Provavelmente, a melhora na absorção mineral acontece graças à fermentação bacteriana, pois existe uma maior oferta de substratos e um aumento na produção de AGCC, também acontece pelo aumento do fluído luminal e pela multiplicação dos enterócitos, com isso, existe uma maior solubilidade dos minerais e consequente uma maior absorção (SCHOLZ-AHRENS et al., 2007). 
Na figura 1, pode ser observado um quadro resumindo alguns efeitos da ingestão de alguns prebióticos, como o FOS.

Figura 1. Suplementação com FOS e inulina, e seus efeitos no organismo de animais e humanos. (Adaptado de SCHAAFSMA & SLAVIN, 2015). 

MOS

Os mananoligossacarídeos (MOS) atuam como fibra dietética, pois são fermentadas no intestino grosso, já que são indigestíveis pela porção superior do intestino e são derivados das paredes de leveduras (Sacharomyces cerevisiae). (GOUVEIA et al., 2006). 
Com a inclusão de MOS reduz a colonização do intestino por bactérias patógenas, pois passa a existir um bloqueio dos sítios das células epiteliais aonde essas bactérias iriam se aderir. Também podem se ligar a diversas toxinas presentes no intestino melhorando assim o sistema imune. Aumentam a população fecal de bifidobacterium e lactobacilus (FLICKINGER et al., 2004; SWANSON et al., 2002), podem melhorar a saúde intestinal e com isso melhorar a qualidade das fezes dos cães (FÉLIX et al., 2009). 

Uso de FOS e MOS combinados 

Um experimento investigou se adição de FOS + MOS na dieta poderia melhorar a imunidade dos cães graças a saúde intestinal. Os autores utilizaram fêmeas adultas em quatro tratamentos distintos a) controle, b) 1 grama de FOS, c) 1 grama de MOS e d) 1 grama de FOS + 1 grama de MOS. Os animais que foram suplementados com MOS tiveram como resultado menores quantidades de bactérias aeróbicas fecais e maior população de Lactobacillus, maior número de linfócitos, tendência a ter maior concentração de IgA. Os animais que foram suplementados com o tratamento FOS + MOS tiveram menores concentrações de indóis e fenóis juntamente com os animais suplementados com o tratamento FOS e maiores concentrações de imunoglobulina (Ig). Comparado com a dieta controle, a quantidade de matéria seca nas fezes foi menor na suplementação com MOS (SWANSON et al. 2002b). A maior concentração de Ig. é garantia de uma boa imunidade, já que o animal terá uma maior quantidade de anticorpos. 
Em outro estudo, os autores avaliaram diversas fontes de PNA, foi conduzido um experimento com seis cães canulados no íleo, e testado seis dietas diferentes: a) controle, b) 2,5% de polpa de beterraba, c) 2,5% de celulose, d) 1% de celulose, 1,5% de FOS, e) 1% de celulose, 1,2% de FOS e 0,3% de MOS, f) 1% de celulose, 0,9% de FOS e 0,6% de MOS. Dietas com polpa de beterraba, FOS e MOS tiveram maior concentração de Bifidobacterium fecal e maior concentração de Lactobacillus (MIDDELBOS, et al. 2007). As Bifidobacterium e os Lactobacillus são bactérias benéficas e auxiliam na inibição do crescimento de bactérias nocivas, na síntese de vitaminas e consequentemente melhoram a imunidade. 
Após um estudo realizado com cães da raça Beagle, em que a ingestão de MOS resultou em uma menor quantidade de amônia excretada (- 38 μmol/g de fezes), menor pH fecal (- 0,3), e menor quantidade de nitrogênio livre, além da maior produção de AGCC, o resultado também mostrou uma menor digestibilidade aparente da proteína bruta e reduzida quantidade de matéria seca das fezes se comparado com uma dieta sem suplementação (ZENTEK, MARQUART e PIETRZAK, 2002). 

Referências Bibliográficas 
BEYNEN, A. C. et al. Faecal bacterial profile, nitrogen excretion and mineral absorption in healthy dogs fed supplemental oligofructose. Journal of Animal Physiology and Animal Nutrition, v. 86, n. 9‐10, p. 298-305, 2002. 
CAPPELLI, S.; MANICA, E.; HASHIMOTO, J. H. Importância dos aditivos na alimentação de cães e gatos: Revisão. Pubvet, v.10, n.3, p.212-223, Mar., 2016 
FÉLIX, A. P. et al. Supplementation of mannanoligosaccharides (MOS) and luminossilicate mix on fecal quality of adult dogs. Archives of Veterinary Science, v. 14, n. 1, p. 31-35, 2009. 
FÉLIX, A. P. et al. Supplementation of fructooligosaccharides (FOS) on faecal characteristics of adult dogs. Arch. Vet. Sci. 18, 9–14, 2013. 
GOMES, M. O. S. Efeito da adição de parede celular de levedura sobre a digestibilidade, microbiota fecal e parâmetros hematológicos e imunológicos de cães. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista. Jabuticabal, 2009. 
GIBSON, G. R. Dietary modulation of the human gut microflora using the prebiotics oligofructose and inulin. The Journal of nutrition, v. 129, n. 7, p. 1438S-1441s, 1999 
Gibson, G. R. & Roberfroid, M. B. (1995). Dietary modulation of the human colonic macrobiotic: Introducing the concept of prebiotics. Journal of Nutrition, 125:1401-12. 
GOUVEIA, F. E. M. et al. Use of mannanoligosacharides as an adjuvant treatment for gastrointestinal diseases and this effects on E. coli inactivated in dogs. Acta Cirúrgica Brasileira, v. 21, n. Suplemento 4, 2006. 
MIDDELBOS, I. S.; FASTINGER, N. D.; FAHEY, G. C. Evaluation of fermentable oligosaccharides in diets fed to dogs in comparison to fiber standards. Journal of animal science, v. 85, n. 11, p. 3033-3044, 2007a. 
PASSOS, L. M. L.; PARK, Y. K. Frutooligossacarídeos: implicações na saúde humana e utilização em alimentos. Ciência Rural, v. 33, n. 2, p. 385-390, 2003. 
PUUPPONEN-PIMIÄ, R. A. M. A. et al. Development of functional ingredients for gut health. Trends in Food Science & Technology, v. 13, n. 1, p. 3-11, 2002. 
RADECKI, S.V.; YOKOYAMA, M.T. Intestinal bacteria and their influence on swine nutrition. In: MILLER, E.R.; DUANE, E.U.; LEWIS, A.J. Swine nutrition. Boston: Butterworth-Heinemann, 1991. p.439-447. 
SCHAAFSMA, G.; SLAVIN, J. L. Significance of inulin fructans in the human diet. Comprehensive Reviews in Food Science and Food Safety, v. 14, n. 1, p. 37-47, 2015. 
SCHOLZ-AHRENS, K. E. et al. Prebiotics, probiotics, and synbiotics affect mineralabsorption, bone mineral content, and bone structure. The Journal of nutrition, v. 137, n. 3, p. 838S-846S, 2007. 
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SWANSON, K. S. et al. Supplemental fructooligosaccharides and mannanoligosaccharides influence immune function, ileal and total tract nutrient digestibilities, microbial populations and concentrations of protein catabolites in the large bowel of dogs. The Journal of nutrition, v. 132, n. 5, p. 980-989, 2002b. 
ZENTEK, J.; MARQUART, B.; PIETRZAK, T. Intestinal effects of mannanoligosaccharides, transgalactooligosaccharides, lactose and lactulose in dogs. The Journal of nutrition, v. 132, n. 6, p. 1682S-1684S, 2002.