quinta-feira, 27 de julho de 2017

Uso de condroitina, glucosamina e GLM para osteoartrose em cães

ANA C. DORADO DE OLIVEIRA¹; LARISSA RISOLIA²; 
¹Graduanda em Medicina Veterinária – UFPR. E-mail: Anadoradotev@gmail.com 
²Mestre em Ciências Veterinárias – UFPR 

INTRODUÇÃO 

A osteoartose é a forma mais comum de artrite em cães e gatos e a causa número um de dor crónica em cães (Fox, 2010; Innes, 2012). É estimado que 20% dos cães no Reino Unido e nos Estados Unidos da América tenham dor atribuída a esta doença (Fox, 2010; Hielm-Björkmanet al., 2011; Taylor, 2009; Innes, 2012). 
A doença articular degenerativa (DAD), também denominada de artrose, osteoartrose ou osteoartrite, é uma enfermidade progressiva, complexa, não infecciosa, que acomete a cartilagem de articulações sinoviais (CALDEIRA, et al., 2002), sendo que uma multiplicidade de alterações bioquímicas, físicas e patológicas podem ser reconhecidas nesta doença (JOHNSTON et al., 2008). É uma doença crônica, de evolução lenta, que pode vir acompanhada por formações ósseas nas margens sinoviais, artrólitos (FOSSUM et al., 2002) e fibrose de tecidos moles periarticulares (FROST-CHRISTENSEN et al., 2008).
A osteoartrose está relacionada muitas vezes com queixas de rigidez, claudicação e desconforto doloroso, inicialmente depois de um período de exercício que se pode agravar com tempo frio e úmido. Cães moderadamente afectados podem recuperar da claudicação com exercícios de aquecimento. A progressão da doença leva a que a fibrose e a dor reduzam a tolerância ao exercício, claudicação constante e, em casos severos, atrofia muscular (Taylor, 2009). 

CONDROPROTETORES NA DOENÇA ARTICULAR DEGENERATIVA 

Os condroprotetores mais comumente utilizados são considerados, na realidade, como agentes condromoduladores, por apresentar função de retardar ou diminuir a progressão degenerativa. Considerados agentes de ação lenta, propõem-se três efeitos primários dos condroprotetores: sustentar o aumento do metabolismo dos condrócitos e células sinoviais, inibir as enzimas degenerativas do líquido sinovial e da matriz cartilaginosa, e inibir a formação de microtrombos nos vasos da circulação que nutrem a articulação (BOOTHE, 1997).
De acordo com França et al. (2011), o manejo nutricional relacionado às várias patologias, bem como a prevenção destas, direcionou a utilização de ingredientes denominados nutracêuticos, especialmente devido ao fato de a manipulação do estado de saúde por meio de medicação, não ser mais aceita como preferida, ou como o único meio de tratamento para os animais de estimação. 
O uso de nutracêuticos tem sido amplamente difundido na medicina veterinária com função imunomoduladora para prevenção de diversas doenças, como a osteoartose, proporcionando longevidade e melhorando qualidade de vida do animal (BORGES, 2013). 
Para Birchard ;Scherding (2008), existem dois grupos de pequenos animais que podem ser submetidos ao tratamento conservador (com condroprotetores), entre eles estão os cães com osteoartrite em que a cirurgia não resolve porque já está muito avançada ou porque a cirurgia é muito arriscada em razão de doenças concomitantes ou aqueles cães cujos proprietários não desejam realizar a cirurgia por motivos financeiros ou emocionais. No grupo de cães em que a cirurgia pode ser parte do tratamento o uso de condroporotetores também pode ser indicado. 

Glucosamina e Condroitina 

Os nutracêuticos condroprotectores, tais como glucosamina e sulfato de condroitina estão entre os tratamentos propostos para reparar os danos Doença articular degenerativa, pois constituem uma terapia não invasiva e favorecem o metabolismo da cartilagem articular (Chard&Dieppe, 2001). 
A glucosamina é um açúcar aminado não essencial, que pode ser obtido dieteticamente (glicose+glutamina) ou industrialmente a partir da hidrólise da quitina (carapaça de caranguejo ou camarão). Estimula a síntese de colágeno e proteoglicanos articulares pelos condrócitos, inibe enzimas degradativas e tem efeitos antiinflamatórios moderados (ANFALPET, 2010). 
Enquanto a Condroitina é uma glucosaminoglucana comumente encontrada na forma de sulfato, a qual é extraída dos tecidos cartilaginosos de bovinos e suínos e é adicionada à dieta para estimular regeneração da cartilagem devido à sua tendência em inibir a produção e ação de enzimas que a degradam. (ANFALPET, 2010). 
Experimentos in vitro demonstraram que, além de aumentar a síntese de glicosaminoglicanos e reduzir a degradação da glucosamina, a condroitina age inibindo a interleucina-1, com grande atividade na degradação do colágeno tipo II (BASSLER; ROVATI; RANCHIMONT, 1998). 
Enquanto a glucosamina apresentou in vitro influência da expressão de mediadores inflamatórios, reduzindo a degradação de proteoglicanos, inibindo a síntese e atividade de mediadores como as metaloproteinases, óxido nítrico e prostaglandinas. Contudo, seu efeito anabólico é limitado, não agindo sobre o colágeno tipo II, um dos principais componentes da matriz extracelular, responsável pela força de tensão da cartilagem articular (BASSLER; ROVATI; FRANCHIMONT, 1998).
Dobenecker, Beetz e Kienze (2002) compararam o tratamento entre dois condroprotetores, o extrato de mexilhão (perna canaliculus), rico em glicosaminoglicanos (18 cães), e o sulfato de condroitina (21 cães), e um grupo controle com placebo (19 cães), durante 84 dias. Foram avaliados os tratamentos por meio de uma escala de sinais clínicos que iam de 1 a 7, de acordo com a severidade dossintomas sem qualquer medicação concomitante. Não constataram diferença significativa (p < 0,05) entre os grupos, inclusive do grupo controle com placebo. Concluíram que a possível melhora poderia ter ocorridonaturalmente, sem a ação de qualquer medicamento, uma vez que obtiveram a mesma resposta no grupocontrole com o placebo. 
Contudo, Henrotinet al. (2005) defende que o efeito desses compostos é tardio, sendo necessário 6 a 8 semanas para observar melhora no quadro clínico do animal. 
Estudo realizado com 16 cães adultos, SRD, para avaliar a ação do sulfato de condroitina na reparação da cartilagem da articulação coxofemoral de cães submetidos à acetabuloplastia e reconstituição do ligamento da cabeça do fêmur em comparação ao controle,sendo administrado ao grupo tratamento2 ml de sulfato de condroitina a 12% pela via subcutânea semanalmente, concluíram após 60 dias que o sulfato de condroitina acelerou a formação do tecido cartilaginoso e reduziu a reação inflamatória. 
Em estudo realizado com 48 cães, para testar eficácia de um nutracêutico condroprotetor veterinário à base de sulfato de condroitina e glucosamina, na reparação de defeitos osteocondrais no côndilo femoral lateral, por meio de análises clínica e radiográfica. Os animais foram distribuídos em grupos tratado (GT) e controle (GC), de forma que somente o GT recebeu o nutracêutico a cada 24 horas na forma de comprimidos, contendo cada um 200 mg de sulfato de condroitina, 300 mg de glucosamina, 24 mg de agente palatalizante e 1200 mg de veículo q.s.p.Os resultados dos quatro tempos de tratamento utilizados (15, 30, 60 e 90 dias) mostraram que o produto na dose, formulação e no período de administração utilizados não proporcionou melhora dos sinais clínicos e não influenciou radiograficamente o processo de reparação dos defeitos, visto que os grupos tratado e controle apresentaram aspectos radiográficos idênticos ao término dos tratamentos. (ELEOTERIO etal., 2012).
Segundo Francis; Read (1993), é improvável que um único composto seja efetivo no controle da DAD e para Lipielloet al. (2000) demonstraram que a ação conjunta do sulfato de condroitina e glucosamina auxiliaram, retardando as lesões cartilaginosas de joelhos com instabilidade induzidas experimentalmente (LIPIELLO et al., 1999; SOUZA et al., 1999). 
De acordo com Lascelles (2006), a dose sugerida de glucosamina e sulfato de condroitina é de 13-15mg/kg, VO, a cada 24 horas. Há controvérsias sobre a administração oral de condroitina, por causa de seu tamanho de 6 a 50 kd (SAKAI; ONOSE; NAKAMURA, 2002). 
Entrentanto, Jonhsonet al. (2001) realizaram um estudo para avaliar os efeitos de uma mistura de administração oral de sulfato de condroitina, cloridrato de glucosamina e manganês no metabolismo da cartilagem articular em cães com ligamento cruzado cranial deficiente após a transecção experimental e sua reconstrução ou não, formando quatro grupos. Foram mensuradas as concentrações de epítopos 3B3, 7D4 e glicosaminoglicanos sulfatados totais (GAG) do líquido sinovial. Encontraram um aumento considerável dos epítopos e dos glicosaminoglicanos até os cinco meses de uso do medicamento, em relação ao grupo controle sem medicação. Comprovou-se a ação moduladora desses agentes in vivo pelo aumento dos glicosaminoglicanos da matriz. 
Com base nos estudos analisados, pode-se concluir que a eficácia dos condropotectores pode variar de acordo com produto, tempo, via de administração e dose. Sendo necessários mais estudos comparativos entre relação da matéria-prima, processamento com a eficácia dos produtos administrados, visto que poucos estudos detalham as fontes de condroitina e glicosamina utilizados. Além da prescrição do uso em associação com manganês. Entretanto, pode-se salientar a eficácia observada em alguns cães na melhora da resposta antiinflamatória, resultando em melhoras nos sinais clínicos e retardo da progressão da degenaração articular, sendo fortemente indicado para auxiliar na terapia da DAD e em pacientes incapacitados de realizar tratamento invasivo. 

Glm (green-lipped mussels) 

Conhecido como extrato do Mexilhão de Lábios Verdes (GLM) os primeiros produtos baseados em GLM eram frequentemente produzidos a partir de rejeitos da carne de mexilhões proveniente da transformaçãode alimentos para humanos, que tipicamente incluíam processamento a vapor no processo de fabricação e os ensaios iniciais usando esses GLM instáveis, apresentaram resultados ruins. Nos anos 80, um método de processamento frio a temperatura controlada e estabilização do GLM pela adição de ácidos orgânicos para evitar oxidação e liofilização foi patenteado depois de 1986. Este novo GLM estabilizado é documentado como sendo eficaz no tratamento de artrite experimental em ratos, artrite clínica em humanos e mais recentemente também em cães. 
O pó de GLM é um extrato da carne do mexilhão de lábios verdes. Os mexilhões agem como um filtro da água do mar, retendo vários nutrientes, como resultado o GLM contém uma grande quantidade de substâncias potencialmente ativas que combatem a inflamação da artrite: ácidos graxo ômega 3, condroitina, glutamina, vitaminas E e C e elementos-traço (zinco, cobre, manganês). (Royal Canin, 2013). 
De acordo com Bierer & Bui, 2002, o processamento térmico dos GLM pode destruir a sua capacidade terapêutica, desta forma o processamento do GLM e a incorporação em produtos alimentares requerem técnicas especiais de processamento, pois se não houver cuidados pode ocorrer à perda da eficácia do produto final, devendo haver processamento com baixa temperatura. 
Segundo os mesmos autores, o GLM em pó é eficaz na redução dos sinais de artrose em cães, tanto quando incorporados na ração ou aspergidos sobre a dieta. Os escores totais da artrite nas pontuações de dor e inchaço foram reduzidos significativamente após 6 semanas de suplementação com o GLM. 
Em estudo por realizado por Hielm-Bjorkman et. al,. (2007) com 45 cães, afetados uni ou bi-lateralmente pela doença articular degenerativa. Separados aleatoriamente em grupo controle, grupo com GLM e grupo tratamento com antiinflamatório não esteroidal. Os resultados encontrados demonstraram melhora significativa nos sinais clínicos de dor nos animais em animais tratados com GLM, em comparação ao grupo controle. Entretanto, menor do que ao submetido a ANES. Revelando a capacidade de que pacientes que necessitam de apoio analgésico por longos períodos de tempo, o GLM oral pode ser uma alternativa, embora, ele não alivia a dor tão bem como carprofeno. Embora tenha havido apenas alguns estudos publicados sobre o uso de GLM estabilizado em cães, já está disponíveis para cães com AO na Finlandia, na forma de pó, cápsulas ou incorporados em seixos. 
Os resultados observados no uso de GLM demonstram-se promissores, ressaltando-se a importância de controle da temperatura com intuito de obter a eficácia desejada, justifica-se o uso, pela facilidade de adição a qualquer alimento, com asperção em pó sobre o alimento. Podendo realizar, caso haja disponível, aquisição de outras formas de administração, como em cápsulas. Além de ter um período de ação aproximado ao de outros condroprotectores, como glucosamina e condroitina. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A osteorartrose é uma doença recorrente na prática clinica dos animais de companhia e o uso de nutracêuticos como meio auxiliar de tratamento ou alternativa para pacientes incapacitados de realizar tratamento invasivo demonstram-se viável. Trabalhos apontados demonstram resultados controversos no uso de condroitina e glucosamina, demonstrando a necessidade de pesquisa referentes a dose, tempo de uso, vias administração, matéria-prima e processamento dos mesmos. Entretanto, demonstram resultados promissores no apoio ao tratamento da doença articular degenerativa em cães, assim como o extrato de Mexilhão de Lábios Verdes (GLM), que tem se demonstrado uma boa fonte alternativa, necessitando, entretanto, de mais estudos com objetivo de garantia na segurança alimentar. 

REFERÊNCIAS
1. BIRCHARD; SHERDING – Clínica de Pequenos Animais terceira edição. Editora ROCA. Capítulo 123 página 1244 – 1248. 2008. 
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4. DOBENECKER, B.; BEETZ, Y.; KIENZE, E. A Placebo-controlled double-blind study on the effect of nutraceuticals(Chondroitin Sulfate and Mussel extract) in dogs with joint diseases as perceived by their owners. Journal of Nutrition,v. 132, n. 6, p. 1690S-1691S, 2002. 
5. CALDEIRA, F.M.C.; MUZZI, L.A.L.; MUZZI, R.A.L. Artrose em cães. Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia. Editora MVZ-FEP. n. 37. 2002. p. 53-79. 
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8. FROST-CHRISTENSEN, L.N.; MASTBERGEN, S.C.; VIANEN, M.E.; HARTOG, A.; DEGROOT,J.; VOORHOUT,G.; VANWEES, A.M.C.; LAFEBER,F.P.J.G.; HAZEWINKEL, H.A.W. Degeneration, inflammation, regeneration, and pain/disability in dogs following destabilization or articular cartilage grooving of the stifle joint. Oteoarthritis and Cartilage. Internacional Cartilage Repair Society. v. 16. 2008. 
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