sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A utilização de insetos na alimentação de cães e gatos seria uma alternativa?

Camilla Mariane Menezes Souza¹ E-mail: camillazootec@gmail.com 
Josiane Carla Panisson² 
¹Zootecnista (UFMG), Mestranda em nutrição de cães e gatos (UFPR) 
²Doutoranda em Zootecnia (UFPR)

Introdução

Conforme dados apresentados pela FAO (2014), entre os anos de 2000 e 2050, o consumo mundial referente à carne e produtos lácteos sofrerá um aumento de 102% e 82%, respectivamente. Isso é reflexo do crescimento da população humana e dos seus padrões de vida, principalmente em países em desenvolvimento. Além disso, segundo Oxfam (2014), no ano de 2050 ocorrerá perda de 25% da produção mundial de alimentos em razão de impactos gerados por mudanças climáticas, degradação do solo, escassez de água e das pragas, sendo previsto competição global na alimentação humana e alimentação animal por fonte utilizável de proteína. 

De forma geral, a proteína é o princípio nutritivo muito importante na dieta dos animais. Ainda que os cães sejam classificados como animais carnívoros restritos, cada vez mais têm sido inclusos ingredientes alternativos na dieta, com intuito de melhorar a qualidade proteica e reduzir o custo final da ração. 

Acredita-se na potencialidade do uso de insetos na nutrição animal, como fonte proteica sustentável e viável. Os insetos possuem baixo risco de transmitirem doenças de origem animal, como a gripe aviária e doença da vaca louca, sua produção é barata e ecológica em relação à pecuária, eficientemente cultivadas em diversos ambientes, apresentam reprodução rápida e continua, provocam menos danos ambientais (ROMERO, 2012) e requerem menos utilização de água (BENÍTEZ, 2014).

O uso sustentável de insetos preserva os recursos naturais, desempenhando papel fundamental na conservação da biodiversidade. Entretanto, é necessário o emprego de novas tecnologias, a fim de torná-lo um alimento aceitável (FAO, 2011). Assim, busca-se otimizar seu emprego aliando-o a conhecimentos, permitindo conhecer as limitações de inclusão dos insetos, seja em forma de farinha, óleo e afins, em rações animal. Atualmente, poucas pesquisas são realizadas dentro deste contexto.

Insetos: Uma nova tendência

É esperado entre os anos de 2012 e 2050 o aumento mundial de 70-80% na demanda por proteína animal (PELLETIER & TYEDMERS, 2010) Neste contexto, são desenvolvidas fontes de proteínas alternativas e sustentáveis para garantir a segurança alimentar.

A eficiência dos insetos como fontes de alimentação humana e animal vem sendo sugerida como alternativa ambientalmente harmoniosa em comparação a pecuária convencional por apresentarem grande diversidade e abundância (WANG, et al., 2005). Além disso, comparando os insetos com plantações de soja, a sua produção é de cinquenta por cento superior a produção da soja por hectare, ou seja, um hectare de soja produz menos de uma tonelada de proteína, já em um hectare de criação de insetos, produz cento e cinquenta toneladas de proteína (PROTEINSECT, 2014).


Além da palatabilidade dos insetos, que é um fator protuberante à ingestão, destaca-se seu valor nutricional, demonstrada, pelo teor de proteína, gordura e alguns minerais (VAN HUIS, et al., 2013). A proteína revela-se o nutriente presente em maior quantidade nesse ingrediente, podendo variar entre 40-81% (na matéria seca) (BERNARD & ALLEN, 1997). Entretanto, essa concentração pode variar de acordo com a ordem da classe Insecta em que esse inseto é inserido ao seu estado de desenvolvimento, a sua alimentação e o modo de consumo e processamento.

Os riscos associados à utilização de insetos em alimentação estão relacionados ao seu potencial em apresentar compostos alergênicos, fatores antinutricionais, resíduos de pesticidas e micotoxinas, assim como a sua suscetibilidade a ataques microbiológicos (VAN DER SPIEGEL, et al., 2013). Entretanto tratamentos, como a secagem e a acidificação podem ser promissores para a conservação desses insetos (KLUNDER, et al., 2012), podendo ser aplicados nestes, procedimentos normais de produtos alimentares, como se utiliza em carne, peixe e vegetais (BELLUCO, et al., 2013).

Insetos como as térmitas e as larvas de mosca conseguem substituir totalmente a soja em rações animais, originando proteína de qualidade igual ou superior (MEN et al., 2005), estabelecendo-se como um bom investimento, sobre um ponto de vista econômico frente a outros recursos convencionais (SOGBESAN & UGWUMBA, 2008). Estudos realizados comprovam que uma farinha de insetos pode ser substituta de forma eficiente nas rações, à base de soja e de farinha de peixe, destinadas a alimentação animal. O seu conteúdo proteico, de alta qualidade e digestibilidade, reflete sobre a qualidade da carne de frango (HWANGBO, et al., 2009), podendo reparar falhas nas dietas animais, principalmente ao nível de aminoácidos como a lisina, triptofano e cisteína, apresentando um perfil de aminoácidos adequado (WANG, et al., 2005).

Muitos insetos são oferecidos na dieta de variedade de peixes, anfíbios, répteis, aves e pequenos mamíferos, servindo como principal produto dietético (BERNARD & ALLEN, 1997) até mesmo para humanos (Figura 1). Para a aplicação dos insetos como fonte de proteína em alimentos para animais de estimação, seria importante monitorar e controlar a variação na composição de aminoácidos (BOSH et. al., 2014).

FIGURA 1 - 100% Todos os insetos de insetos naturais fabricados em nosso FDA aprovado, GMD, fábrica certificada. Fonte: Thailand Unique.

Atualmente já existem no mercado alimentos destinados a cães contento insetos (Figura 2). Os insetos podem ser consumidos inteiros, moídos, processados em farinha e em pasta que pode ser adicionados em alimentos. 

Figura 2 – Composição nutricional e ingredientes de ração comercial hipoalergênica contendo farinha de insetos. Fonte: www.trovet.com (Holanda).

A substituição de ingredientes proteicos convencionais pela farinha de insetos, em alimentos para cães e gatos, pode além de fornecer uma proteína de elevado valor biológico, diminuir a pegada de carbono na produção dos alimentos industrializados (CARVALHO et. al, 2016). A pegada de carbono representa o total de gases do efeito estufa emitidos por uma organização, evento, produto ou pessoa (PRADA, 2012). Segundo este mesmo autor como formulações de alimentos extrusados, há alta demanda por cereais, e para serem cultivados necessita de fertilizantes, maquinários, silos, equipamentos que geram alta pegada de carbono, outros ingredientes como farinha de sangue e farinha carne e ossos, também tem grande pegada de carbono, no seu processamento, com a moagem e secagem da matéria prima. A pegada de carbono aumenta com o processamento de alimentos, onde a matéria prima é adicionada à massa, e no processo de extrusão, há adição de muita água para cozimento do amido e depois a massa é seca novamente.

Com a utilização de farinha de insetos a pegada de carbono produzida pelo cão, poderia diminuir, visto que o rendimento é de cem por cento como matéria prima para produção de alimento (PRADA, 2012).

Em cães, um estudo realizado por Carvalho et. al (2017) avaliando a palatabilidade de farinha de barata cinérea (Nauphoeta cinérea), farinha de grilo preto (Gryllus assimilis) e tenébrio comum (Tenebrio molitor) em biscoitos caseiros a base de fubá (60%), óleo de soja (10%) foi observado primeira escolha dos cães em relação a biscoitos com inclusão de farinha de insetos em comparação aos biscoitos com farinha de carne e ossos e vísceras de frango. O que pode ser explicado pelo comportamento de neofília do cão o qual não se interessa por um alimento que nunca foi experimentado antes. Os animais mostraram maior interesse pelos biscoitos elaborados com fontes proteicas convencionais, ou seja, que são comumente utilizadas na produção de alimentos para cães, o que para os autores pode ser um impasse na produção de alimentos com as farinhas de insetos testadas, para cães.

O quadro legislativo especificamente relacionado com os insetos utilizados como alimento para consumo humano e animal está ainda a ser desenvolvido, o qual tanto o processamento e armazenamento dos insetos devem seguir os mesmos regulamentos de saúde e saneamento que para qualquer outro alimento tradicional ou alimentos para animais, a fim de garantir a segurança alimentar. 

Considerações finais

São raros trabalhos científicos com o uso de insetos como matéria prima para produção de alimentos para animais. Para cães, esse ingrediente pode se estabelecer como sendo uma alternativa viável, devido ao sua composição nutricional, e por reduzir a competição com a alimentação humana. Embora os teores de proteína sejam bastante elevados e que o seu potencial como ingredientes em rações seja demonstrado em algumas espécies, deve-se ter informação referente à digestibilidade e a qualidade nutricional desse ingrediente na dieta de cães e gatos.

Referências Bibliográficas
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