quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Preferência alimentar e palatabilidade de alimentos para cães e gatos

Camilla Mariane Menezes Souza¹ E-mail: camillazootec@gmail.com
¹Zootecnista (UFMG), Mestranda em nutrição de cães e gatos (UFPR) 

Introdução

A nutrição de animais de companhia tem sofrido um amplo avanço nos últimos anos, destacando a elaboração de alimentos completos, os quais respondem as necessidades dos animais. A formulação hoje permite a introdução de produtos que melhorem a saúde dos animais como também que atendam especificidades raciais, favorecendo a qualidade de vida e consequentemente propiciando uma maior longevidade.

Entretanto, não basta apenas que os alimentos fornecidos sejam nutricionalmente balanceados e que apresentem altos índices de digestibilidade, estes devem ser atrativos à ingestão, a fim de se assegurar o consumo dos mesmos. É importante ressaltar que cães e gatos possuem hábito alimentar distintos, desta forma, nem todos os sabores que são apreciados por cães agradam os gatos e vice-versa, sendo importante conhecer um pouco da preferência alimentar desses animais.

A palatabilidade se estabelece como um fator importante no desenvolvimento de alimentos pet food, podendo ser definida como propriedades físicas e químicas da dieta que permitem condicionar o comportamento de aceitação ou recusa do alimento por parte do animal (NRC, 2006). Apresenta-se como uma característica decisiva para a garantia do consumo e deve ser adequada ao tipo de produto e ao mercado alvo.

Neste contexto os palatabilizantes são utilizados, com ingredientes líquidos ou em pó que possibilitam o aumento significativo da palatabilidade e consumo do alimento. Neste artigo, será abordado algumas preferências alimentares de cães e gatos, como também informações referentes a palatabilidade e utilização de palatabilizantes na elaboração de produtos pet food.

Algumas preferências alimentares de cães e gatos

Uma característica importante dentro da nutrição de cães e gatos é a aceitação do alimento pelo animal. Para os tutores é de grande satisfação a percepção de que o seu animal de estimação está consumindo um alimento com voracidade, sem recusa. O mercado hoje busca uma gama de alimentos dentro dos segmentos do pet food, que além das características nutritivas apresentam-se como palatáveis.

Ao contrário da maior parte dos mamíferos, os cães aparentemente possuem ausência de papilas gustativas para sabores salgados, entretanto, possuem papilas gustativas muito bem desenvolvidas para sabores doces, o que explica sua preferência pelo açúcar (HOUPT et al., 1978, HOUPT & SMITH, 1981; BRADSHAW, 1991).

Umas das principais preferências de sabores de cães são por carne (KITCHELL, 1972; LOHSE, 1974; HOUPT et al., 1978). A hierarquia de preferência pelas diferentes carnes é a seguinte:

Cães preferem carne de boi magra à carne suína magra, entretanto se ofertada carne de boi magra e carne suína gorda, os animais preferem a carne suína (HOUPT et al, 1978), ressaltando que um dos fatores mais influentes em relação á preferência por determinada carne é a quantidade de gordura (FELIX, 2010).

Para os gatos, de hábitos estritamente carnívoros, a sacarose não se apresenta como atrativa, não havendo por parte deles uma percepção do sabor doce. Entretanto, são muito sensíveis ao sabor umami, sendo este muito presente em alimentos como, por exemplo, vegetais (tomate, batata, couve, cogumelos, cenouras, soja), produtos marinhos (peixes, algas, camarão, ostras, caranguejo), carnes (de vaca, porco, frango) e queijo (THOMBRE, 2004).

Já em relação às carnes, a preferência de gatos se caracteriza por:
De modo geral, cães e gatos preferem alimentos úmidos ou semi úmidos a alimentos secos, não demonstrando preferência entre os alimentos úmidos ou semi úmidos (KITCHELL, 1972).

Os cães mostram preferência por carne enlatada quando comparada com carne fresca; preferem carne picada em relação à carne em pequenas porções e escolhem carne cozida do que a carne crua (THOMBRE 2004).

Os gatos preferem rações úmidas contendo maior relação sólidos: molho, ou seja, contendo ração mais consistente e menos diluída no molho (RATULD, 2007), com teor de umidade similar ao da carne (70-85%). Outra informação interessante se estabelece pela preferência do gato por um alimento completo comercial, ao invés de um rato vivo (ADAMEC, 1976). Isso explica o fato de vários gatos domésticos caçarem pequenos roedores, mas não o consumirem. Demonstrando assim que o instinto de caça dos gatos domésticos independe da fome desses animais, desde que esses tenham acesso a um alimento balanceado. Por outro lado, gatos preferem peixe fresco, ao invés de ração comercial (com palatabilizantes à base de fígado de peixe, frango ou carne bovina) (ADAMEC, 1976).

Tanto os cães e gatos são sensíveis à qualidade dos nutrientes utilizados. As dietas secas extrusadas ricas em fibras e macro minerais e pobres em lipídeos e proteínas são as menos aceitas (FELIX, 2010). Além disso, o uso de ingredientes contendo gordura oxidada, também, pode reduzir o consumo sensivelmente, sendo importante o manejo e limpeza dos comedouros dos animais de forma correta.

Fatores que podem influenciar no consumo:

- Características físicas: O tamanho do alimento deve ser adequado ao animal. Raças pequenas preferem alimentos de tamanho reduzido, já raças médias/grandes aceitam bem alimentos de maior tamanho e formas variadas. 
- A temperatura: De acordo com a temperatura em que o alimento se encontra pode ser um fator de influência na escolha. Felix et al (2010) afirmam que cães preferem alimentos mornos a frios. Já os gatos rejeitam alimentos com temperatura abaixo de 15ºC ou acima de 50ºC (SOHAIL, 1983) 
- O odor: Cães e gatos são dotados de um excelente faro, esta característica pode ser um fator relevante na escolha do alimento, dado que o aroma é um componente sensorial importante da refeição. Quando o olfato está alterado devido a uma doença/trauma, as escolhas do animal em termos alimentares podem mudar, uma vez que não têm a mesma sensação de palatabilidade. Os gatos, por exemplo, são animais que gastam mais tempo cheirando o alimento menos preferido, o que na maioria das vezes leva a rejeição, destacando assim o poder do contato olfativo com o alimento.
- O paladar: Está associado à sensação que surge devido à estimulação das papilas gustativas, possibilitando a percepção do sabor que geram sinais transmitidos ao cérebro. 

A palatabilidade e o uso de palatabilizantes

O termo palatabilidade é de difícil definição, pois envolve vários fatores, dentre eles, os sentidos (olfato, paladar e tato), idade e sexo do animal, entre outros. Assim, pode-se relacioná-lo à preferência alimentar, que é caracterizada pelo quão agradável determinado alimento é ao animal (PIZZATO & DOMINGUES, 2008).

De acordo com Félix et al. (2010), a palatabilidade apresenta-se como um conjunto de características físico-químicas do alimento, como textura, sabor e odor, que causam sensação fisiológica agradável, sendo este reconhecido como saboroso e prazeroso de ser consumido.

Essa característica pode ser detectada facilmente pelo tutor que é quem observa diariamente os hábitos do animal, sendo um fator decisivo para a garantia de consumo, apresentando-se como um sistema bidimensional que envolve o produto e o animal de estimação (PERALTA, 2017).

Abaixo, tem-se a palatabilidade de alguns ingredientes utilizados pelas industrias que elaboram os alimentos para animais de estimação (PERALTA, 2017):
• Palatabilidade dos cereais:
Arroz partido > Milho grau 2 > Trigo grau 2
• Palatabilidade das fontes de proteína vegetal:
Glúten de Milho> Farinha de Soja > Farelo de Trigo (no máximo 15%)
• Palatabilidade das fontes de proteína animal:
Subprodutos avícolas> Farinha de peixes > Farinha de carne bovina

Uma pesquisa realizada com vários tutores de cães e gatos nos Estados Unidos procurou saber quais são os principais motivadores de compras de alimento pelos tutores, e concluíram que a palatabilidade encontra-se dentre as três primeiras características visadas pelos tutores no momento da compra.

Figura 1 – Pesquisa: Motivadores de compra alimento seco para cães. Fonte: Diana Pet food

Figura 2 – Pesquisa: Motivadores de compra alimento seco para gatos. Fonte: Diana Pet food

Os palatabilizantes são classificados como ingredientes que aumentam significativamente a palatabilidade e o consumo do alimento. Nas indústrias pet food, os palatabilizantes são muito utilizados, potencializado a percepção do odor do alimento pelos animais.

O uso desses ingredientes é particularmente importante em alimentos para gatos, principalmente nos extrusados, visto que esses animais são mais seletivos em comparação com o cão (FELIX, 2010).

Parte dos palatabilizantes utilizados na nutrição de cães e gatos é a base de (FELIX, 2010):
• Carne fresca: geralmente fígado e/ou outras vísceras, tecidos, e carne mecanicamente separada) de aves, suínos, bovinos, cordeiro e peixes. Os quais são obtidos a partir do processo de hidrólise enzimática, gerando um produto de alta palatabilidade.
• Alguns ácidos: Fosfórico (principalmente para gatos), leite em pó, ovo em pó, nucleotídeos, açúcar, molho de soja, dentre outros.
• Sabores artificiais: Bacon, queijo e defumado (cada vez mais usados pelas indústrias).

Os palatabilizantes apresentam-se na forma líquida ou em pó. O palatabilizante em pó é adicionado em dosagem média de 0,5 a 2,5%, o qual o processo é realizado geralmente após o recobrimento de gordura e/ou palatabilizante liquido, a partir de uma pulverização bem fina.

O palatabilizante em pó é “obrigatório” nos alimentos secos para gatos quando o fabricante deseja maximizar o desempenho da palatabilidade de seus produtos, como é o caso da ração Super Premium. O uso do pó proporciona flexibilidade ao produto e é uma característica econômica para a cadeia de suprimentos, sendo a sua qualidade física essencial, pois oferece uma ampla gama de níveis de palatabilidade sem multiplicar o número de referencias de produtos.

A inclusão dos palatabilizantes deve ser na medida, pois o excesso pode alterar a textura do alimento, perdendo a crocância. No caso dos gatos, por exemplo, o alimento acaba não sendo tão atrativo visto que são animais que gostam da crocância.

A qualidade do recobrimento depende de vários fatores como as características físicas do próprio palatabilizante, relação gordura: palatabilizante, tamanho, forma, textura e porosidade do extrusado além dos equipamentos e métodos de aplicação sendo importante a manutenção dos bicos (FELIX et al. 2010). Segundo Bramoullé (2007) cães e principalmente gatos preferem alimentos com distribuição homogênea de palatabilizante. No caso dos gatos, estes podem selecionar e consumir apenas os extrusados contendo palatabilizantes. Em cães, o palatabilizante oferece uma solução eficaz para aumentar a palatabilidade sem modificar a atividade de água.
 
Figura 3 – Distribuição do palatabilizante do extrusado Fonte: Diana Pet food 

Testes de palatabilidade

Os testes exigem o máximo de cuidados para diminuir os erros de determinação, visto que a percepção da palatabilidade do alimento é um processo complexo que está associado a diversos fatores inerentes ao alimento e ao animal. Para efeitos do estudo da palatabilidade é possível realizar dois tipos de testes: testes de aceitação ou testes de preferência (FELIX, et. al, 2010).

Considerações Finais

Os cães e gatos apresentam preferências alimentares distintas.

A palatabilidade é uma característica fornecida ao alimento, de grande importância, que pode ser um fator decisivo no momento da compra. A utilização de palatabilizantes pelas indústrias pet food é realizado com intuito de maximizar o consumo e palatabilidade do alimento.

Existem hoje testes de palatabilidade que são realizados com intuito de avaliar os alimentos que são destinados ao mercado, mostrando a preocupação por parte das empresas pet food em manter o alimento atrativo aos animais, gerando uma satisfação para os donos e para os nossos animais. 


Referências:
ADAMEC,R.E. The interaction of hunger and preying in the domestic cat (Felis catus): ab adaptive hierarchy. Behavior Biology 18:263, 1976. 

BRADSHAW, J.W.S. Sensory and experiential factores in the design of foods for domestic dogs and catis. Proceedings of the nutrition society, 50:99-106, 1991. 

BRAMOULLÉ, L. How evaluate dry kibbles coating quality while using dry palatability enhancers? In: SPF’S II AMERICA LATINA SYMPOSIUM, 2007.Proceedings of Spécialités Pet Food. P. 15-17, 2007.

FELIX, A.P.; OLIVEIRA, S.G.; MAIORKA, A. Fatores que interferem no consumo de alimentos em cães e gatos. In: Vieira, S. Consumo e preferência alimentar de animais domésticos. 1 ed. Brasil: Londrina, 2010 Cap. 3, p.162-199. 

HOUPT, K.A., SMITH, S. L. Taste preferences and their relation to obesity in dogs and cats. The Canadian Veterinary Journal 22:77-81, 1981. 

HOUPT, K.A.,HINT, H.F., SHEPHERD,P. The role of olfaction in canine food preferences. Chemical Senses 3:281-290, 1978.

KITCHELL, R. L. Dogs know whats they like. Friskies Research Digest 8:1-4, 1972. 

LOHSE, C.L. Preferences of dogs for various mets. Journal of the America Animal Hospital Association, 10:187-192, 1974.

NACIONAL RESEARCH COUNCIL - NRC. Nutrient Requirements of Dogs and Cats. National Academy Press: Washington, DC, USA,p. 426, 2006.

PERALTA, J. M. Controle de Qualidade para palatabilidade em alimentos para animais de estimação. In: XVI Congresso CBNA PET, 2017, Campinas: Colégio Brasileiro de Nutrição Animal, 2017.

PIZZATO, D.A.; DOMINGUES, J.L. Palatabilidade de alimentos para cães. Revista Eletrônica Nutritime, v.5, n°2, p.504-511, Artigo Número 51. Março/Abril 2008.

RATULD, A. Wet processing’s impacto n palatability. In: SPF’S IInd AMERICA LATINA SIMPOSIUM, 2007. Proceeding of Watt publishing Co: Chicago, Illinois, p.5-11, 2007.

SOHAIL, M.A. The ingestive behavior of the domestic cat: A review. Nutrition Abstracts abd Reviews, 53:177-186, 1983.

THOMBRE, A. G. Oral delivery of medications to companion animals: palatability considerations. Advanced Drug Delivery Reviews, v.56, n.10, p.1399-1413, 2004.