quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Agressividade cães e gatos

Camilla Mariane Menezes Souza¹ 
¹Mestranda em Zootecnia, UFPR. camillazootec@gmail.com

Introdução

A etologia é a ciência que estuda o comportamento de todos os seres vivos, incluindo os seres humanos. Denomina-se como “comportamento” aquilo percebido das reações de um animal ao ambiente que o cerca e que são, por sua vez, influenciadas por fatores internos e externos. O comportamento de um animal se forma a partir da herança genética herdada de seus pais somada ao ambiente que ele vive.

Apenas uma pequena proporção de tutores de animais com alterações comportamentais os consideram graves a ponto de procurar ajuda profissional (O’ FARRELL, 1992). Os motivos que levam os tutores a não procurar ajuda podem estar associados a: falta de informação acerca do que é um comportamento anormal, uma atitude tolerante perante o comportamento do seu animal, e no caso das raças de cães potencialmente perigosas, os tutores preocupam-se com a possibilidade da reputação pública do seu animal se agravar.

Estudos demonstram que problemas de comportamento influenciam diretamente o bem estar dos animais domésticos, sendo uma das razões mais frequente de rejeição por parte dos tutores (DIGIACOMO et al., 1998).

A agressividade é um distúrbio comportamental grave e frequente em cães e gatos. É fundamental realizar a prevenção, e em caso do animal apresentar os primeiros sinais é necessário realizar o diagnostico e iniciar o tratamento através de um suporte profissional.

Figura 1 – Cão com comportamento agressivo. Fonte: Ethos animal

A agressividade e suas características

A agressividade está relacionada com o comportamento que os animais possuem de ameaça e perigo, direcionado geralmente a outro individuo. Quando o animal apresenta esse comportamento, ele adquire características tais como:
  • Posturas comportamentais sutis;
  • Expressões faciais;
  • Ataques explosivos.
Embora as formas de agressão sejam descritiva individualmente, grande parte das vezes ela é decorrente da combinação de fatores ou possuem inúmeras causas. A seguir alguns tipos de agressividade que são descritas por especialistas em comportamento de animais domésticos:

Agressividade por dominância

A dominância refere-se à característica de uma dupla de indivíduos ou das relações observadas em um grupo, não sendo descritiva de um indivíduo (BERSTEIN, 1981).

A existência de uma hierarquia em uma matilha e também o correto aprendizado da linguagem corporal entre os cães proporciona determinadas vantagens para um grupo social. Usando sinais característicos e expressões dominantes e submissas para se comunicar, o grupo pode reduzir sérios encontros agressivos entre os membros.

Características de dominação dentro da hierarquia de um grupo de animais estão relacionadas ao tamanho, peso, sexo, status hormonal e experiências anteriores. Em cães, é comum a ocorrência em cães de raça, machos (90% dos cães agressivos são machos) não castrados, entre 1 e 3 anos, além de animais tirados da mãe muito precocemente.

Para diagnosticar esse comportamento, alguns critérios podem ser adotados:
  • Temperamento agressivo;
  • Sinalização dominante;
  • Resistência à sinalização e a comportamentos dominantes por membros da família;
  • Agressão usada para controlar situações sociais com membros da família;
  • Agressão usada para competir por recursos com membros da família;
Devemos observar muito bem a situação onde ocorreu a agressão e também os sinais e posturas corporais apresentadas pelo animal para não confundir o tipo de agressividade. O cão sempre demonstra um sinal, mesmo que seja quase imperceptível. A postura do felino é inegavelmente ofensiva.

O tutor deve sempre evitar confronto com o animal e também evitar as situações que sabe que a agressividade sempre ocorre. Estabelecer limites de comida, brincadeira, ansiedade e outras situações no convívio diário é muito importante para evitar novas agressões.

Agressividade Redirigida ou Irritável

Ocorre em cães e gatos. Quando o animal não pode agredir quem ele deseja (ex. um gato passando na janela) ele agride o individuo que esteja mais próximo. Acontece em situações em que uma pessoa ou mesmo outro animal se aproxima ou tenta separar uma briga entre animais.

Agressividade Predatória

Ocorrência em cães e gatos. O instinto caçador permanece e pode se dirigir também a objetos em movimento (bicicletas, patins – cães e tornozelos em gatos).

Agressividade Lúdica

Ocorrência em cães e gatos. Inicia com brincadeira, mas o animal não sabe quando parar e acaba agredindo.

Em gatos é possível observar esse comportamento:

  • A predação ou brincadeira é direcionado de forma errada, o animal age com mordida, unhada, etc;
  • O animal segue a linha tocaia > perseguição > encurralamento > ataque;
  • O animal vai atrás de tons agudos de vozes ou movimentos súbitos;
  • Há um reforço ou estímulo ao comportamento por parte do tutor.
Figura 2 – Gato com comportamento agressivo. Fonte: AnimalPedia 

Agressividade por posse

Esse comportamento é direcionado a outros animais ou pessoas que se aproximam do cão quando ele está próximo ou em posse de algo que para ele tem valor, seja um objeto específico como: brinquedo, osso e até muitas vezes pelo comedouro onde foi oferecido a seu alimento, ou seja, relacionada à comida. Essa proteção ao seu alimento é um comportamento de cães.

Neste sentido são indicados exercícios de liderança instruindo o animal a soltar o objeto sob comando, exercícios de exibição para reduzir a agressão quando é abordado enquanto está próximo a um objeto.

Agressividade por medo

Ocorrência em cães e gatos. É provocada por um estímulo que parece ser ameaçador. Este comportamento pode ser exibido quando o mesmo é o receptor de posturas ou expressões faciais agressivas, ou é abordado por outro animal ou pessoa que não é familiar, não é amigável, ou de alguma forma, representa ameaça.

Em geral, ocorre quando o animal é incapaz de evitar o estímulo que produz uma resposta agressiva por medo. Socialização inadequada, experiências traumáticas, punições e genética podem contribuir para o desenvolvimento desse tipo de agressividade.

Um cão que possui baixo limiar para ficar amedrontado e que se encontra com estímulos indutores de medo múltiplos e fortes, com pouca chance de fugir, tem alta probabilidade de morder, em especial se a mordida fez o medo se afastar em encontros anteriores.

A dessensibilizarão e o contracondicionamento, assim como uma ótima socialização como método preventivo são fundamentais para esse tipo de comportamento. Segundo especialista das queixas associadas à agressividade está relacionada a animais medrosos, pois cães agridem como forma de controlar o ambiente social instável e imprevisível.

Agressividade entre animais

Ocorrência em cães e gatos. Quando eles vivem no mesmo ambiente costuma se relacionar com posição hierárquica (quem manda) e a dúvida/disputa de quem é o líder. Na rua, os motivos são variados, mas é possível socializar um cão que não costuma fazer muitos amigos. Quanto aos gatos se brigam na rua é melhor não deixá-los sair.

Agressividade territorial

Ocorre em cães. É direcionada a uma pessoa ou outro animal que não é membro do grupo ou da matilha, ou que não é familiar ao cão. A agressividade pode ser manifestada em direção a pessoas e animais que se aproximam de membros da família ou de seu território, embora o mesmo cão possa não apresentar esse comportamento em outro ambiente.

O tutor deve ter um bom controle do cão para a correção do comportamento, assim como o controle do ambiente no qual o animal está inserido. Na maioria das vezes o cão auto reforça esse comportamento quando não há o controle do ambiente, um exemplo clássico é quando o cachorro tem acesso a uma janela, grade ou portão onde passam outros cães e pessoas, começa com um latido, e a pessoa ou o cão vai embora simplesmente porque precisa ir, só estava passando por ali, mas para o cão, foi ele quem espantou um “intruso” e foi recompensado por sua retirada do local. Outra coisa que o tutor deve se atentar é com reforços e recompensas no momento incorreto, ou seja, quando o cão manifestar o comportamento agressivo, o tutor oferecer petisco ou pegá-lo no colo na tentativa de acalmar, está reforçando o comportamento agressivo. O ideal seria o contracondicionamento do animal e uma socialização eficaz.

Causas da Agressividade

As causas do comportamento de agressividade dos animais podem estar associadas a:
  • Maus tratos em algum estágio da vida do animal, que resultam em desvio de temperamento dos animais;
  • Mau adestramento pelos tutores, que querem que eles se tornem violentos para assegurar a proteção da família;
  • Cruzamentos indiscriminados, tentando fortalecer de forma cega características de ferocidade.
  • Progenitores agressivos;
  • Más condições das instalações, onde os animais ficam em espaços com condições precárias, espaço insuficiente, monótono, em que não possuem nenhuma alternativa de enriquecimento ambiental;
  • Ausência de socialização com experiências positivas nos primeiros meses de vida;
  • Adestramento induzindo a agressividade;
  • Falta de exercício, entretenimento, tempo e atenção;
  • Doença física causadora de mal estar, irritabilidade;
  • Depressão.
  • Estresse: Mudanças e falta de controle sobre o ambiente, confinamento, trauma físico e dor, superpopulação, exposição contínua a ruídos de alta frequência, antecipação prolongada, desamparo aprendido e luto são apenas alguns exemplos de fatores estressantes.

Prevenção

Selecionar animais de bom caráter;
  • Proporcionar condições de desenvolvimento adequadas (espaço, conforto, higiene, água, alimento);
  • Ter contato com humanos desde os primeiros dias, garantindo experiências positivas com o meio envolvente e proporcionando sociabilização e confiança;
  • Esclarecimento do novo tutor no que concerne ás características da raça e aos fundamentos básicos de adestramento;
  • Demonstrar a importância de ensinar determinadas regras, tais como, responder ao chamamento, sentar, ficar e deitar, habituar o animal a ser manipulado, esperar pela sua vez para comer, não permitir que salte às pessoas. É fundamental excluir todo o tipo de violência física nas normas de adestramento do animal.
  • Castração: Pode suprimir a agressividade por dominância. É mais eficiente em animais jovens. Nas fêmeas pode agravar a agressividade pela ausência de estrógenos;
  • Modificação ativa do comportamento; dessensibilizar o animal de determinada atitude que lhe despoleta agressividade através de experiências positivas recompensantes;
  • Evitar as situações que desencadeiam comportamento agressivo;
  • Práticas de enriquecimento ambiental, que pode ser definido como uma complexa combinação de estímulos inanimados e sociais inseridos no ambiente, ou seja, a união de vários fatores que tornará o habitat mais estimulante e menos previsível para o animal (YOUNG, 2003). Estudos têm mostrado efeitos do enriquecimento ambiental não só no sistema nervoso central, mas também na promoção de bem-estar animal (CHAMOVE, 1989).

O tutor deve estar consciente que deve procurar ajuda profissional no caso de surgirem os primeiros sinais de agressividade.

Tratamento

De acordo com especialistas em comportamento animal, o tratamento mais recomendado para as agressões caninas pode ser a terapia comportamental, além da castração e do uso de medicamentos (sob acompanhamento de um médico veterinário) associados a manejo ambiental e técnicas de modificação de postura.

Pesquisa

Informações do Daily Mail retratam dados de uma pesquisa com animais domésticos e descobriram que cães mal comportados tendem a ter baixos níveis de serotonina no cérebro; neurotransmissor responsável pela sensação de bom humor e bem estar. Nos humanos, a redução no nível de serotonina está associada à depressão, a ansiedade e às mudanças de humor.

Os cientistas analisaram amostras sanguíneas de 80 cães encaminhados com comportamento agressivo conforme relato de seus donos. Essas amostras foram comparadas com amostras de outros 19 cães considerados de comportamento normal. O resultado indicou que animais agressivos apresentavam baixo nível de serotonina. Os níveis mais baixos vinham de animais cujo comportamento antissocial parecia ser uma tentativa de autodefesa. Além disso, eles tinham altos níveis de cortisol, hormônio relacionado ao estresse.

Considerações Finais

A agressividade se estabelece como um problema comportamental dos cães e gatos. Por falta de informações os tutores desconhecem os sinais que o animal apresenta e frequentemente acabam por abandonar esse individuo. A agressividade por ser dividida em vários tipos e pode ser influenciada por inúmeros fatores, seja internos ou externos. É importante que os tutores fiquem atentos as possíveis causas e realizem práticas para prevenir esse comportamento, visto que os problemas de comportamento influenciam diretamente o bem estar dos animais domésticos e relação com seus tutores. 


Referências:
BERNSTEIN, I.S. Dominance - the baby and the bathwater. Behavioral and Brain Sciences. 4:419-429, 1981.

CACHORROGATO. Gatos agressivos – motivos e soluções. Disponível em: . Acesso em: 19 de Out. 2017.

CHAMOVE, A.S. Environmental enrichment : a review. Animal Technology, 40 (3), 155- 78, 1989.

DIGIACOMO, N.; ARLUKE, A.; PATRONEK, G. Surrendering pets to shelters: the relinquisher’s perspective. Anthrozoos 11 (1): 41–51, 1998.

ERICSON, R. Agressividade – cães e gatos. Bicho saudável. Setembro 2010. Disponível em: . Acesso em: 19 de Out. 2017.

O’FARRELL, V. Manual of Canine Behaviour (2nd ed.). B.S.A.V.A. Publications Cheltenham, 32, 1992.

REVISTA CÃES E GATOS. São Paulo: Agosto 2014. Disponível em: . Acesso em: 19 de Out. 2017.

TEIXEIRA, E.P. Desvios comportamentais nas espécies canina e felina panorama atual e discussão de casos clínicos. Dissertação (Mestrado em Clinica), Universidade técnica de Lisboa. Lisboa, 2009.

YOUNG, R.J. Environmental enrichment for captive animals. Oxford: Blackwell Publishing, 1988.

REDAÇÃO TERRA. Estudo: cães que mordem não são maus, só estão depressivos. Julho 2010. Disponível em: http://noticias.terra.com.br/ciencia/pesquisa/estudo-caes-que-mordem-nao-sao-maus-so-estaodepressivos.html> Acesso em: 19 de Out. 2017.