sábado, 16 de dezembro de 2017

Muito além de alimentar: Nutrição como terapia em pacientes neurológicos e o papel da imunoterapia na clínica

Gabriel Maissack Campos¹, Gislaine Cristina Bill Kaelle²

¹Aluno da graduação Medicina Veterinária, UFPR.
²Mestranda em Zootecnia, UFPR.

INTRODUÇÃO

No início do atual século o papel dos animais de companhia atingiu um novo patamar, em que se passou de uma visão meramente funcional, como auxiliar em atividades e prover a segurança do “ambiente”, para uma em que são tidos como membros da família. Esse novo cenário acarretou uma demanda tanto a nível social, onde o tutor passa a se preocupar com a promoção de um maior bem-estar, qualidade de vida e longevidade (FAHEY, 2003), quanto a nível científico, em que busca-se atender as exigências desse mercado contemporâneo, atendendo para além das necessidades mínimas de manutenção homeostática, como também prevenir doenças, fortalecer o sistema imunológico, promover a saúde oral (CARCIOFI et al., 2007) e dar suporte perante condições fisiopatológicas, até mesmo em âmbitos puramente estéticos. (CARCIOFI & JEREMIAS, 2010).

Com esse enfoque cada vez menos simplista da nutrição, áreas do conhecimento como neurologia e imunologia ganham um importante aporte terapêutico (TORTOLA et al., 2009; JEREMIAS et al., 2009). Somado a uma maior longevidade, algumas patologias até então desconhecidas ou quase inexistentes, passaram a incidir de maneira mais expressiva na população animal, algumas destas degenerativas (VASCONCELLOS et al., 2013), ocasionadas pelo estresse oxidativo e fisiológico. Contudo, há certas patologias que permeiam a vida animal que antes eram negligenciadas, mas que, se amparando no contexto atual, ganham atenção clínica e novas abordagens dentro desta em relação a tais doenças. Entre essas abordagens se destaca a nutrição, em alguns casos mesclando-se à outras frentes, como ao empregar na dieta nutrientes com potenciais imunomoduladores.

Nutrição Neurológica

Uma das doenças degenerativas que mais tem chamado atenção dos profissionais da saúde é a Disfunção cognitiva canina (DCC), comumente comparada ao Alzheimer humano, devido às características morfofisiológicas. Estima-se que aproximadamente 60% dos cães acima de 11 anos apresentam essa patologia (AUTRAM, 2006), que tem como sinais clínicos comportamentais e fisiológicos: ansiedade por separação, menor interação com humanos e outros animais, alteração na frequência e intensidade da vocalização, agressividade, alteração do ciclo circadiano, distúrbios de micção e defecação e desorientação espacial (ROCHA, 2008). Esses sinais estão fortemente associados a deposição de placas senis, constituídas por β-amiloide, uma substancia que altera a condução nervosa (HEAD, et al.,2008; CURTIS, 2010) nas regiões do hipocampo e cortéx pré-frontal, responsáveis pela formação, consolidação de memórias de longo prazo e tomada de decisões, respectivamente (NEILSON, et al., 2001). Contudo, é válido ressaltar que esse processo é posterior ao estresse oxidativo do tecido nervoso e um declínio da ação excitatória deste (VASCONCELLOS et al., 2013). Isto é decorrente da queda da síntese de antioxidantes pelo organismo, consequentemente há uma maior degeneração da substancia branca (neurônios mielinizados), presentes no cortéx, assim como de neurotransmissores, neuropeptídios, lipídeos e gases que são responsáveis pela sinapse química no animal.

Como o estresse oxidativo é um ponto chave da gênese e do desenvolvimento da DCC, a terapia nutricional foca nesse aspecto para suprir as necessidades oriundas deste agravo com a adição de antioxidantes à dieta. Apesar do organismo animal possuir várias defesas contra espécies reativas, como superóxido dismutase, catalase e glutationa (LANDSBERG e HEAD, 2008), a suplementação é feita por vitaminas que também possuem propriedades antioxidantes. Estudos comparativos entre cães que foram alimentados com tais vitaminas e um outro grupo controle alimentado com uma dieta convencional, evidenciou-se que a dieta acrescida com antioxidantes resultou em um relevante ganho na aprendizagem em cães em idade longeva (GRAVES, 2005). A vitamina C e E atuam se contrapondo principalmente à atividade oxidativa em lipídeos, sequestrando e servindo como espécies de sacrifício, sendo oxidadas no lugar dessas que são responsáveis por inúmeras funções vitais do indivíduo, tal como a estrutura celular. Outros compostos intimamente ligados a atividade estrutural, como os ácidos graxos essenciais de cadeia longa – ácido araquidônico (AA); ácido eicosapentaenoico (EPA); e docosa-hexaenóico (DHA) – Que segundo Borges:
[...] fazem parte da estrutura dos fosfolipídios que são componentes importantes das membranas e da matriz estrutural de todas as células. Além de seu papel estrutural, esses lipídeos podem também modular a função celular ao atuarem como mediadores intracelulares da transdução de sinais e como moduladores das interações entre células. BORGES, 2013, p. 16-17. 

Ressaltando a importância desses compostos na manutenção morfofisiológica cerebral.

Outra patologia muito importante para área neurológica e que se tem utilizado a nutrição como viés terapêutico é a epilepsia, a doença crônica mais frequente nessa especialidade clínica. Ela própria pode ser subdividida em tipos específicos, de acordo com sua causa ou forma com que se apresenta, no entanto, o termo amplo da palavra se refere a qualquer quadro de convulsões recorrentes (BERENDT, 2004; MUNS, 2003). A mais frequente delas é a idiopática, que, segundo Da Silva (2013), há uma prevalência estimada entre 0,5 e 5,7% em cães. Esse tipo específico é caracterizado por um diagnóstico de exclusão que, por não conseguir determinar nenhuma causa aparente (MUNS, 2003; SAITO et al, 2001; PATTERSON et al, 2003; De LAHUNTA, 2009; ZIMMERMANN et al, 2009; GULLOV et al, 2011), admite-se que possui origem genética. As convulsões características do agravo são ocasionadas por uma descarga anormal de impulso nervoso no encéfalo, podendo ser focais, atingindo somente um hemisfério cerebral alterando ou não o estado de consciência do indivíduo, ou generalizadas que ocorrem por todo encéfalo. Essa descarga anormal pode ser oriunda de um desiquilíbrio entre cargas excitatórias e inibitórias das sinapses químicas, as vezes provenientes de lesões estruturais tais como, tumores cerebrais (ZIMMERMANN et al, 2009; BRAUER et al, 2011).

Estudos em modelos humanos e em ratos, utilizando dieta cetogênica, ou induzindo um quadro de cetose, tiveram um efeito benéfico sobre a frequência e intensidade das crises epilépticas. Não está claramente esclarecido os mecanismos bioquímicos subjacentes envolvidos em tal benefício, mas acredita-se que esteja vinculado à maior concentração de corpos cetônicos no cérebro, desempenhando um papel anticonvulsivo (STAFSTROM, 2004; CHANDLER, 2006). Pode-se inferir que não só na epilepsia idiopática, mas também na hipoglicemica e nutricional (deficiência de tiamina, importante para reações do metabolismo dos carboidratos), o efeito anticonvulsivo dos corpos cetônicos venham do fornecimento de uma segunda opção energética ao cérebro, que está deficiente em glicose, sendo a possível causa do desiquilíbrio entre cargas excitatórias e inibitórias, resultando em convulsões. Porém a indução desse quadro se torna mais difícil em animais, impossibilitando mensurar com exatidão a eficácia da dieta.

Imunonutrição

Assim como as várias áreas de conhecimento da clínica veterinária e suas abordagens que tem ganhado força nas últimas décadas, uma que vem se destacando é a imunoterapia, que consiste em fortalecer o sistema imune, que é responsável pela defesa do organismo. O sistema imune possui respostas distintas, uma inata e outra adquirida, e a nutrição pode fornecer o aporte necessário para que as células responsáveis pelas respostas inespecíficas, específicas ou até mesmo ambas, possam exercer eficientemente sua função. São inúmeros os nutrientes capazes de modular a imunidade, tais como vitaminas, prebióticos, ácidos graxos poli-insaturados e outro leque de biomoléculas. Das vitaminas as que mais se destacam são A, C e E, por conta de suas propriedades antioxidantes. Pelo fato das células deste sistema serem particularmente sensíveis ao estresse oxidativo, devido a sua característica de comunicação célula a célula, além de como qualquer outra célula, ter uma membrana rica em ácidos graxos poli-insaturados que, quando passam por tal estresse, comprometem a dinâmica da membrana, inclusive aqueles gerados a partir dos seus receptores (HUGHES, 1999). O β-Caroteno, precursor da vitamina A, age intensificando a proliferação dos linfócitos, sobretudo otimizando o potencial das células natural killers contra células cancerígenas, segundo SAAD, et al. (2015). A Vitamina E além do seu papel como antioxidante, age de forma semelhante ao β-caroteno, aumentando a atividade dos linfócitos T, assim como a de macrófagos. Em contrapartida sua deficiência na dieta gera uma menor produção das células de defesa, a exemplo, imunoglobulinas (SLOBODIANIK, 1995). Prebióticos também tiveram seus efeitos benéficos comprovados, esses provindos da capacidade dos grupos β-glucanos e α-mananos (principais polissacarídeos da parede celular de leveduras) reagirem com inúmeras células imunocompetentes (MEDZHITOV; JANEWAY JUNIOR, 2000), aumentando assim a população dessas e suas respectivas respostas imunes (ZAINE, et. Al.2014). Os ácidos graxos anteriormente citados podem ser liberados ao interstício, onde enzimas agem transformando-os em prostaglandinas, leucotrienos e tromboxanos. Como cada ácido graxo resulta em um intermediário especifico, acabam por balancear as diferentes populações de células imunes (NRC, 2006). Há compostos menos lembrados quando se pensa em potenciais imunomoduladores, apesar de possuírem papeis tão importantes quanto qualquer nutriente aqui já mencionado. Um exemplo é a glutamina, sua capacidade de imunomodulação confere a ela o poder inibitório sobre a carcinogênese (OLGIVIE et al., 2000), ou a luteína, que teve seu poder imunomodulador comprovado em um estudo com adições crescentes de concentração, obtendo resultados principalmente sobre a resposta imunológica especifica. (KIM et al., 2000a).

Considerações Finais

A nutrição tem se mostrado uma importante ferramenta na pratica clínica, ultrapassando sua função primária de alimentar, apesar de também a faze-la. Embora forneça importante auxílio às terapêuticas convencionais, através de inúmeros resultados comprovadamente benéficos, ela ainda não é tão amplamente aderida pelos médicos veterinários, tampouco conhecida por parte significativa dos tutores. Cenário que tem mudado, mesmo que a passos lentos. Não obstante, assim como nas demais faculdades do conhecimento, faz-se necessário maiores estudos, para que se possa consolidar as descobertas e propostas atuais, afim de tornar mais abrangente e universal o uso da nutrição como uma terapia aliada às abordagens clássicas.


Referencias
AUTRAN, H. M., Una Introduccion Al Proceso de Envejecimiento y sus Consecuencias. In: The Latin American Veterinary Conference, Lima, Peru. p. 81-92, set-oct 2006. 
BALBUENO, A. Disfunção cognitiva em cães: revisão de literatura. 2012. Monografia, Universidade Federal Rural do Semi-Árido. Mossoró, Rio grande do Norte, 2012.
BERENDT, M. Epilepsy. In Vite CH, Braund KG, ed. Braund‟s Clinical Neurology in Small Animals: Localization, Diagnosis and Treatment. International Veterinary Information Service 2004. http://www.ivis.org
BERENDT, M. (2008). Epilepsy in the dog and cat: clinical presentation, diagnosis, and therapy. The European Journal of Companion Animal Practice, 18 (1), 37-45.
BERG,J.M.; TMOCZKO, J.L; STRYER, L. Bioquímica. 5.ed. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 2004, 1059p.
CURTIS, T. M. Cognitive Dysfunction in Dogs and Cats. In: Proceedings of the Latin American Veterinary Conference. Lima, Peru, 2010. 
DELTONVANDENBROUCKE, (um romano).; MAUDE,M.B.; CHEN, H. etal. Effect of diet on the fattyacid and molecular species composition of dog retina phospholipids. Lipids, n.33, p.1187-1193,1998.
DIMAKOPOULOS, A.C., MAYER, R. J. Aspects of Neurodegeneration in the Canine Brain. The Journal of Nutrition. n. 132, p. 1579-1582. 2002.
DYER, D. The Effects of Aging on the Behavioral health of Dogs: Special Considerations for the Aging Canine Population. In: Proceeding of the NAVC North American Veterinary Conference, Orlando, Flórida. jan. 2005.
FREEMAN, L. M. Beneficial effects of omega-3 fatty acids in cardiovascular disease. Journal of Small Animal Practice, Malden, v. 51, n. 9, p. 462-470, jul. 2010.
GIORGIO, C.; TAHA, A. Omega-3 fatty acids (ῳ-3 fatty acids) in epilepsy: animal models and human clinical trials Expert.
GRAVES, T. K. New Hope for Cognitive Dysfunction. In: Proceeding of the NAVC North American Veterinary Conference, Orlando, Flórida, jan. 2005.
HEAD, E.; POP, V.; VASILEVKO, V.; HILL, M.; SAING, T.; SARSOZA, F.; NISTOR, M.; CHRISTIE, L.; MILTON, S.; GLABE, C.; BARRETT, E.; CRIBBS, D. A Two-Year Study with Fibrillar β-Amyloid (Aβ) Immunization in Aged Canines: Effects on Cognitive Function and Brain Aβ. The Journal of Neuroscience. vol. 14, n. 28, p. 3555-3556, abr. 2008.
HUGHES, D. A. Effects of carotenoids on human immune function. Proceedings of the Nutrition Society, London, v. 58, n. 3, p. 713-718, ago. 1999.
JUNIOR, J.F. Proposta de dieta inteligente para o tratamento coadjuvante do câncer. 2007. Disponível em: . Acesso em Nov, 2011.
KIM, H.W.; CHEW, B.P.; WONG, T.S.; PARK, J.S.; WENG, B.B.C.; BYERNE, K.M.; HAYEK, M.G.; REINHART, G.A. Dietary lutein stimulates immune response in the canine. Veterinary Immunology and Immunopathology, v.74, p.315–327, 2000a.
KORTZ, G. (2005). From gold beads to keppra: an update on anticonvulsant therapy [versão electrónica]. In Proceedings of the 2nd Annual Veterinary Neurology Symposium, Davis, USA, 23-24 Julho. Disponível em: http://www.ivis.org/proceedings/neuroucdavis/2005/kortz.pdf
LANDSBERG, G.M, HEAD, E. Geriatria e Gerontologia do Cão e Gato. 2. ed. São Paulo: Roca, 2008. cap. 4, p. 33-47.
MCMICHAEL, M. Oxidative stress, antioxidants, and assessment of oxidative stress in dogs and cats. Journal of the American Veterinary Medical Association. v. 231, n. 5, p. 714-720, set. 2007.
MEDZHITOV, R.; JANEWAY JUNIOR, C. Innate immunity. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 343, n. 5, p. 338-344, ago. 2000. NATIONAL RESEARCH COUNCIL - NRC. Nutrient requirements of dogs and cats. Washington: National Academy, 2006. 398 p.
MILGRAM, N. W., ZICKER, S.C., HEAD, E., MUGGENBUR, B.A., MURPHEY, H., IKEDA-DOUGLAS, C.J., COTMAN, C.W. Dietary enrichment counteracts age associated cognitive dysfunction in canines. Neurobiology of Aging, n. 23, p. 737-745, jan. 2002.
MONTOLIU P. (2012) Crisis epilépticas. In:Morales C., Montoliu P. (Eds.) Neurología Canina y Felina. Barcelona, Espanha: Multimédica Ediciones Veterinárias, pp. 455-481.
MONTOYA A. J. Canine Cognitive Disfunction. In: Proceeding of the SEVC Southern European Veterinary Conference & Congreso Nacional AVEPA. Barcelona, Spain, 2008.
OLGIVIE, G. K.; ROBINSON, N. G. Complementary/alternative câncer therapy- facto r fiction? In: STEPHEN. J; ETTINGER & EDWARD C. FELDMAN. Textbook of veterinary internal medicine. 5 ed. Philadelphia: W. B. Saunders, 2000.Cap. 83, p. 374-379.
OLSON, L. Nutrition for dogs with câncer. 2004. Disponível em: . Acesso em Nov, 2011.
PATTERSON E.E., MUÑANA K.R., KIRK C.A., et al. (2005) Results of a ketogenics food trial for dogs with idiopathic epilepsy (abstract). Journal vet intern med. 19:421.
ROUDEBUSH, P., ZICKER S. C., COTMAN, C. W., MILGRAM, N. W., MUGGENBURG, B. A., HEAD, E. Nutritional management of brain aging in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association. v. 227, n. 5, p. 722-728, set. 2005.
RYCHLIK, A.; NIERADKA, R.; KANDER, M.; NOWICKI, M.; WDOWIAK, M.; KOŁODZIEJSKASAWERSKA, A. The effectiveness of natural and synthetic immunomodulators in the treatment of inflammatory bowel disease in dogs. Acta Veterinaria Hungarica, Budapest, v. 61, n. 3, p. 297-308, set. 2013. 
SILVA, G. Epilepsia idiopática em cães. 2013. Dissertação apresentada à Escola de Ciências Agrárias e Veterinárias Da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Grau de mestre, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, 2013.
TEXEIRA, A. Epilepsia maneio terapêutico em cães e gatos. 2014. Dissertação do Estágio curricular dos ciclos de estudo conducentes, Grau de mestre, Escola Universitária Vasco da Gama, Coimbra, 2014.
TIZARD, I.R. 2002. Imunologia veterinária- uma introdução. 6ª ed., São Paulo: editora Roca.520 p.
VASCONCELLOS, R. et al. Clínica Veterinária, Ano XVll, n. 103, p.62-70, 2013. 
WANTEN, GJ.; NABER, A.H. Cellular and physiological effects of meium-chain triglycerides. Mini Reviews in Medical Chemistry, v.4, p.847-857, 2004