domingo, 25 de fevereiro de 2018

A aplicação da taurina na nutrição de cães e gatos

Camilla Mariane Menezes Souza¹

¹Mestranda em Zootecnia, UFPR

Introdução

A quantidade correta de nutrientes fornecidos na dieta é fundamental para a manutenção das funções vitais do organismo. Cães e gatos necessitam de dieta balanceada para manter a sua saúde desde a fase de filhote até a chegada da fase senil (CASE et al., 2011).

Aproximadamente metade a um terço dos nutrientes ingeridos pelos animais são aminoácidos. Alguns aminoácidos são importantes precursores de neurotransmissores e de alguns hormônios, enquanto outros estão envolvidos no transporte de nitrogênio e na manutenção da integridade das membranas celulares (D’MELLO, 2003).

Os aminoácidos são divididos em dois grupos: essenciais e não-essenciais. São considerados essenciais pelo fato dos animais não serem capazes de sintetiza-los em quantidades suficientes para atender as necessidades do organismo. É importante salientar que a essencialidade dos aminoácidos é variável de entre as espécies.

Gatos possuem uma baixa eficiência em produzir taurina, pois sofrem constantes perdas deste aminoácido através dos sais biliares. Desta forma, se faz necessária suplementação via dieta. Muitos casos de deficiência são relatados, em que os tutores alimentam seus animais de forma incorreta, como por exemplo, ao fornecer um alimento destinado a cães o quais possuem baixos níveis de taurina na formulação, ou dietas vegetarianas (que na maioria não são suplementadas e possuem baixo teor de proteína) (BIRCHARD e SHERDING, 2003).

Em cães, a taurina não é considerada um aminoácido essencial, no entanto, atuam como importante mediador na formação de ácidos biliares, além de ser atuante nos processos de oxidação, desenvolvimento do sistema nervoso e na prevenção de doenças como o cardiomiopatia dilatada, muito frequente em raças de grande porte, e também de doenças relacionadas à visão.

O intuito desse artigo é apresentar características e funções da taurina e sua aplicação na nutrição de cães e gatos.

Taurina: definição e funções

A taurina é denominada como um aminoácido β-sulfônico, que se apresenta de forma livre nos tecidos de origem animal. As fontes desse aminoácido são as proteínas de origem animal (HORA e HAGIWARA, 2010). O primeiro achado relacionado a esse aminoácido foi na bile de um bovino (Bos Taurus) levando o nome em homenagem a espécie.

É considerado um dos aminoácidos mais abundantes nos mamíferos o qual participa de vários processos fisiológicos, incluindo a regulação da secreção gástrica e secreções gástricas estimuladas pela histamina em cães (GRINCHENKO, 2013).
Figura 1 – Estrutura da taurina
Fonte: Complexo ativo blog
A taurina é oriunda do metabolismo dos aminoácidos sulfurados, sintetizada a partir da cisteína no fígado. Os locais de maior concentração desse aminoácido são as fibras musculares, esquelética e cardíaca, a retina, os eritrócitos, e as plaquetas. Ao contrário dos aminoácidos tradicionais, a taurina não exerce nenhuma função na síntese proteica.

Grande parte dos animais são capazes de utilizar tanto a glicina como a taurina para conjugar ácidos biliares em sais biliares antes de serem secretados na bile. No entanto, gatos, somente conseguem conjugar ácidos biliares a partir da taurina (KIRK et al., 2000). Essa ineficiência está associada a baixa atividade de duas enzimas essenciais na síntese de taurina: cisteína dioxigenase e cisteína descarboxilase e, principalmente, devido à demanda metabólica muito grande (CASE et al., 2011).

Taurina na nutrição de cães e gatos

Uma explicação para os diferentes requerimentos de taurina em cães e gatos é devido à atividade da enzima ácido sulfínico cisteína descarboxilase, que é a enzima limitante na formação da taurina através da cisteína e metionina, sendo mais alta em cães do que em gatos (SANDERSON, 2006).

A concentração de taurina em cães é variável de acordo com porte das raças. Em pesquisa conduzida por Backus et al. (2006), foi comparado a concentração de taurina no sangue das raças Beagle e Terra-Nova, sendo portes diferentes, ficou evidenciado que animais de grande porte tem uma menor concentração de taurina no sangue, devido a menor atividade da enzima cisteína descarboxilase. Esta menor concentração pode ser um dos motivos pelo qual os cães grandes tendem a apresentar um maior número de casos de cardiomiopatia dilatada.

Fisiologicamente gatos necessitam de maiores quantidades quando comparado a outras espécies. Desta forma, necessitam da taurina em sua alimentação, pois ela apresenta funções extremamente importantes ao organismo como: visão, audição, reprodução, crescimento, na emulsificação de gorduras e conjugação com ácidos biliares, atuam na musculatura esquelética, na preservação das funções cardíacas e vasculares, e na resposta imune (HORA e HAGIWARA, 2010).

As recomendações do NRC (1987) previam níveis mínimos de taurina nos alimentos processados (400mg taurina/kg de alimento). Entretanto, a ocorrência de casos deficiência de taurina nos felinos, resultou na exigência de níveis maiores de taurina na dieta, que passaram a ser de 1.000mg/kg e 2.000mg/kg (ppm) em alimentos secos e úmidos, respectivamente. Para maior segurança, recomendam-se níveis de 2.500 ppm para os produtos úmidos (KIRK et al., 2000).

Já para Hora e Hagiwara (2010), os níveis de taurina recomendados para gatos adultos são 400 mg/kg de matéria-seca (MS), ou seja 0,04% para dietas digestíveis e purificadas, 1.000 mg/kg (0,1%) de MS para dietas expandidas e 1.700 mg/kg (0,17 a 0,2%) de MS para dietas úmidas.

Fatores relacionados a dieta e do próprio felino influenciam os níveis de taurina necessários para cada indivíduo. A fonte proteica, o tipo de alimento e seu processamento, a quantidade de aminoácidos contendo enxofre e os níveis de fibra da dieta alteram os requerimentos de taurina (GROSS et al., 2000).

A suplementação de taurina deve ser maior na ração úmida do que na seca (ZAGHINI et al., 2005). Esse aminoácido é altamente solúvel em água, portanto, tecidos de origem animal expostos à água durante o preparo podem apresentar níveis de taurina reduzidos. O cozimento da carne submersa em água reduz as quantidades de taurina das proteínas de origem animal, utilizadas nos alimentos preparados pelos tutores; essa perda não ocorre quando a carne é assada (SPITZE et al., 2003). A perda de taurina também está associada a rações com proteínas de baixa digestibilidade, que favorecem a maior atividade proteolítica da microbiota intestinal, que degrada esse aminoácido (STRATTON-PHELPS et al., 2002). Segundo esse mesmo autor, dietas com altas concentrações de fibras e/ou lipídeos aumentam a necessidade de taurina, pois alteram a excreção de ácidos biliares.

Em gatos com uma dieta vegetariana, ou que são alimentados com rações para cães, as deficiências são mais comuns. Já que, exigem pouca quantidade de taurina e consequentemente possuem uma ração pobre neste aminoácido, devido a menor quantidade de proteínas presentes (BIRCHARD e SHERDING, 2003).

Durante os períodos de ingestão insuficiente de taurina, o organismo dos gatos desenvolve mecanismos de adaptações para conservar esse aminoácido no corpo mais eficientemente do que em espécies que não requerem uma fonte dietética de taurina.

Diferentemente dos demais aminoácidos, cuja deficiência causa diversos sintomas inespecíficos, a deficiência de taurina em gatos é marcante e com disfunções características, como a cardiomiopatia dilatada e a degeneração retiniana, distúrbios reprodutivos. De acordo com Nelson e Couto (2006), em casos mais graves pode ocorrer o aparecimento súbito de anorexia, dispneia, desidratação, hipotermia e letargia.

Romanini et al. (2011) afirma que para se diagnosticar um animal com deficiência de taurina é necessário que se faça o exame de ecocardiograma e as determinações da concentração de taurina no soro, plasma e no sangue total. Pois a concentração deste aminoácido diminui primeiramente no plasma, seguido de soro, sangue total e posteriormente musculatura.

Já que especialmente os gatos não produzem quantidade de taurina suficiente para demanda metabólica de seu organismo, é necessário que as dietas em que esses animais consomem atendam a exigência nutricional desse aminoácido a fim de evitar possíveis doenças em relação a sua deficiência. 

Considerações finais

O fornecimento de uma dieta com níveis recomendados de aminoácidos essenciais, como a taurina, demonstra ser uma prática positiva na nutrição de cães e gatos. Auxilia na prevenção de deficiências e quadros clínicos avançados, que geram prejuízos a saúde desses animais.


Referências
BACKUS, R.C.; KO, K.S.; FASCETTI, A.J. et al. Low plasma taurine concentration in Newfoundland dogs is associated with low plasma methionine and cyst (e) ine concentrations and low taurine synthesis. J. Nutr., v. 136, n. 10, p. 2525-2533, 2006. 
BIRCHARD, S.J.; SHERDING, R.G. Manual Saunders. Clínica de Pequenos Animais. 2.ed. São Paulo: Roca, 2003. p.1783, 2003. 
CASE, L.P.; DARISTOTLE, L.; HAYEK, M.G.; RAASCH, M.F. Canine and feline nutrition. 3ª Edição. Estados Unidos: Mosby Elsevier, p.562, 2011. 
D'MELLO, J.P.F., Amino acids as multifunctional molecules, in Aminoacids in animal nutrition, J.P.F. D'Mello, Editor. CABI: Wallingford. p.1:14, 2003. 
GRINCHENKO, O.A.; YANCHUK, P.I. The Role of Nitric Oxide and Taurine in Regulation of Gastric Secretory Function in Dogs. Int. J. Physiol. Pathophysiol., v. 4, n. 3, 2013. 
GROSS, K.L., et al., Nutrients, in Small animal clinical nutrition, M.S.Hand, et al., Editors. Mark Morris Institute: Missouri. p.21–110, 2000. 
HORA, A.S., HAGIWARA, M.K. A importância dos aminoácidos na nutrição dos gatos domésticos. Clin. Vet., São Paulo, v. 15, n. 84, p.30-42, 2010. 
KIRK, C.A., D.J.; ARMSTRONG, P.J. Normal cats, in Small animal clinical nutrition, M.S. Hand, et al., Editors. Mark Morris Institute: Missouri. p.291 – 34, 2000. 
NATIONAL RESEARCH COUNCIL (NRC). Nutrient requirements of dogs and cats. Washington, DC: The National Academies Press, p.367, 2006. 
NELSON, R.W., COUTO, G.C. Distúrbios do sistema cardiovascular. In: Medicina Interna de Pequenos Animais. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. p.89-90. 
ROMANINI, C.A.; MARCIANO, J.A.; TEIXEIRA, A.B. Deficiência nutricional de taurina em felinos domésticos. Relato de caso. Rev. OMNIA Saúde, v.5, p.35-42, 2011. 
SANDERSON, S.L. Taurine and carnitine in canine cardiomyopathy. Vet. Clin. N. Am. Small., v. 36, n. 6, p. 1325-1343, 2006. 
SPITZE, A.R., et al., Taurine concentrations in animal feed ingredients;cooking influences taurine content. J Anim Physiol Anim Nutr (Berl), p. 251-62, 2003. 
STRATTON-PHELPS, M., et al., Dietary rice bran decreases plasma And whole-blood taurine in cats. J Nutr, v.132(6 Suppl 2): p.1745S7S, 2002. 
ZAGHINI, G.; BIAGI, G. Nutritional peculiarities and diet palatability in the cat. Vet Res Commun, 29 Suppl 2: p. 39-44, 2005.