domingo, 11 de fevereiro de 2018

Enriquecimento ambiental para gatos no ambiente urbano como prevenção do estresse

Mariana Aparecida Gomes Pereira¹, Camila Mariane Menezes Souza² 

¹Aluno da graduação Zootecnia, UFMG. 
²Mestranda em Zootecnia, UFPR. 

INTRODUÇÃO

O gato doméstico descendente do gato selvagem da África Felis silvestres lybica mantem preservado o seu instinto de caçar. No entanto, a criação em centros urbanos dificulta seu comportamento natural, visto que estes ficam em territórios restritos, induzindo ao desenvolvimento do estresse e de certos comportamentos compulsivos, como fazer suas necessidades fora da caixa ou até mesmo arranhar os moveis (PREMIER PET, 2018). O estresse é definido como um esforço o qual o organismo passa durante situações que promovem um desequilíbrio interno ou mesmo ameace a vida (FRANCI, 2005). 

Existem diferentes níveis de estresse. O nível baixo é considerado saudável e indispensável na realização das diferentes atividades, mas o nível alto é considerado perigoso, sendo bastante prejudicial à saúde (ROSSI, 2004). Ainda, segundo Selye (1959) o estresse pode ser dividido em três diferentes fases, sendo a primeira a fase de alerta, a qual o indivíduo entra em luta ou fuga, posteriormente a segunda fase que se refere a fase de resistência, cujo animal fica mais susceptível a doença, e a última a fase considerada a de exaustão em que se inicia os sintomas de irritabilidade e isolamento social. 

Com intuito de evitar o estresse e promover o bem-estar animal, é realizado a introdução de elementos para que o animal interaja com o mesmo (FATJÓ; RUIZ-DE-LA-TORRE; MANTECA, 2006). Esta prática é conhecida pelos profissionais de comportamento como enriquecimento ambiental. 

Bem-estar animal

O bem-estar não é um conceito simples de ser entendido, mas conforme Hughes (1982) o termo é definido como um estado de harmonia entre o animal e seu ambiente. Já de acordo com Broom (2004) o bem-estar de um indivíduo refere-se ao seu estado em relação às suas tentativas de lidar com o ambiente em que se estar inserido.

A Organização Mundial de Saúde Animal (OIE, 2009) define o termo como a forma com que o animal lida com seu entorno, tendo este, boas condições de bem-estar se ele estiver saudável, confortável, seguro, livre de dor ou medo. A Farm Animal Welfare Council (FAWC, 1992) descreve bem-estar como um estado do animal o qual o mesmo tem direito a cinco liberdades, sendo elas: 
1) Livre de fome e sede, para isso o animal deve ter livre acesso a água e ao alimento; 
2) Livre de desconforto estando em um ambiente apropriado; 
3) Livre de dor ou lesão; 
4) Liberdade para realizar todos seus comportamentos naturais; 
5) Liberdade psicológica sem medo e ou angústia.

Neste contexto, o bem-estar deve ser então definido de uma forma que se relacione com outros conceitos como: a necessidade, liberdade, felicidade, sofrimento, estresse e saúde; sendo este termo usado tanto para animais como para humanos (BROOM, 2004).

Comportamento do gato doméstico

Os felinos no geral são considerados excelentes caçadores, instinto que está presente também nos gatos domésticos; em suas presas se destacam diversos animais como: aves, ratos, baratas entre outras. O comportamento predatório destes felinos geralmente é uma atividade realizada individualmente, isso devido principalmente ao tipo de presa (CROWELL-DAVIS, 2004). Quando em grupos, os gatos exibem relações harmoniosas como: limpeza social, esfregam-se uns nos outros, cumprimentam e procuram contato direto com indivíduos específicos.

Outra característica dos gatos é a de controlar o mundo do alto, tratando-se de um dos maiores prazeres deste animal. Além disso, para Rossi (2016) os gatos, são animais que não necessitam de excesso de cuidado, pois são considerados solitários e independentes, sendo uma peculiaridade da espécie.  
Para o autor supracitado, a maioria dos gatos são muito sociáveis e gostam de ter o controle do ambiente e da situação, para então demonstrar afeto. São extremamente limpos, pois realizam a autolimpeza com a sua língua e que naturalmente procuram uma caixa de areia para cavar, defecar e posteriormente enterrar as suas fezes.

Atualmente, é comum a criação desses animais em espaços pequenos e restritos, onde ficam reclusos a pouca área que possuem. Esta situação pode desencadear problemas de comportamento que afetam o bem-estar destes animais (FATJÓ; RUIZ-DE-LA-TORRE; MANTECA, 2006). Os problemas comportamentais mais comuns são a marcação territorial com urina; arranhadura de móveis e pessoas; medo de pessoas estranhas; ansiedade e fobias; agressão entre gatos; agressão contra humanos e brigas (BEAVER, 1992; CALIXTO, 2005; NEVILLE e BRADSHAW, 1991). Surgindo então o enriquecimento ambiental como forma de prevenção a estes distúrbios comportamentais.

Importância do enriquecimento ambiental

Os gatos urbanos em sua grande maioria têm um ambiente limitado bem como a ausência de atividades, gerando uma não estimulação de seu sistema nervoso e menor capacidade cognitiva e até mesmo menor agilidade quando comparado com animais que utilizam de enriquecimento ambiental (DA SILVA et al., 2007).

O enriquecimento ambiental é definido como um recurso que consiste em introduzir diversos elementos atrativos para o animal que modificam o ambiente físico ou social a fim de lhe provocar entusiasmo, garantindo-lhe qualidade de vida, para que execute suas necessidades etológicas (BOERE, 2001).

Segundo Ribas (2013) o enriquecimento possui duas classificações, a forma animada e inanimada, sendo a forma animada definida como uma interação gato-gato, gato-homem, gato-cachorro, e a interação inanimada que consiste em introduzir elementos ao recinto do animal, podendo ser brinquedos como bolinha ou guizos; além de alimentos em sachê. Incluso na classificação inanimada citam-se ainda: enriquecimento físico vertical, o qual promove a habilidade de pular e escalar dos gatos. Para isso, são colocadas prateleiras ao longo da casa permitindo o movimento no auto do animal deixando-o mais seguro.

Enriquecimento físico estrutural que se trata da colocação de objetos de interação como caixa de papelão para que o animal esconda, além de arranhadores podendo ser verticais ou horizontais.

E por último o enriquecimento sensorial o qual se realiza através dos cinco sentidos sensoriais do animal, promovendo uma melhora do seu bem-estar. Nesta prática são usados a catnip conhecida como erva do gato, e também a própria voz do tutor.

Além disso, conforme Hosey (2009) o enriquecimento ambiental pode ser apontado quanto ao tipo, sendo eles:

  • Enriquecimento ambiental alimentar: este método busca novas formas de fornecimento de alimentos para os animais, a fim de promover os comportamentos típicos da espécie e prolongar a existência do alimento.
  • Enriquecimento ambiental sensorial: é feita a colocação de objetos que promovem som, cheiro, textura e imagens.
  • Enriquecimento ambiental cognitivo: é acrescentando ao ambiente objetos que envolvam resolução de problemas para o estimulo do animal.
  • Enriquecimento ambiental social: é uma interação entre indivíduos sendo interespecíficos ou intraespecíficos.
  • Enriquecimento ambiental físico: corresponde a uma modificação estrutural do ambiente em que o animal se encontra, podendo ser uma modificação permanente ou temporária.
Há ainda trabalhos que relatam que alguns animais podem desenvolver a perda de interesse pelo enriquecimento, como é o caso dos felinos (RESENDE et al., 2011). Com isso, torna-se necessário enriquecimentos mais criativos e desafiantes para motivar estes animais (HOSEY et al., 2009), ou até mesmo alternar as práticas para evitar monotonia. Outra grande importância do enriquecimento ambiental encontra-se na prevenção da obesidade que é caracterizada por ser uma condição patológica na qual o animal acumula muita gordura, devido à falta de exercícios (MORGANTE, 1999).

Conclusão

Os gatos criados em ambientes restritos tendem a desenvolver transtornos de comportamentos, com isso deve-se avançar na produção de artifícios que garante um enriquecimento no ambiente, sejam de forma animada ou inanimada, permitindo que esse animal expresse toda a sua etologia, como forma de prevenção principalmente o estresse.


Referências
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BOERE V. Behavior and environment enrichment. In: Fowler ME, Cubas ZS. Biology, medicine and surgery of South American wild animals. Ames, IA: Iowa University Press, p.263-266, 2001. 
BROOM, D. M.; MOLENTO, C. F. M. Bem-estar animal: conceito e questões relacionadas – revisão. Archives of Veterinary Science v. 9, n. 2, p. 1-11, 2004. 
CALIXTO, R. S. Avaliação da Marcação Territorial em Gatos (Felis catus) submetidos à Castração. Seropédica, 2005. 103 f. Dissertação (Mestrado). Instituto de Veterinária, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2005.
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FATJÓ, J.; RUIZ-DE-LA-TORRE, J.L.; MANTECA, X. The epidemiology of behavioral problems in dogs and cats: a survey of veterinary practitioners. Animal Welfare, v. 15, p. 179- 185, 2006. 
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