domingo, 25 de março de 2018

A linguagem corporal dos gatos, como decifrar?

Mariana Aparecida Gomes Pereira¹, Camila Mariane Menezes Souza²

¹Aluna da graduação Zootecnia, UFMG.
²Mestranda em Zootecnia, UFPR.

Introdução

Os animais de companhia fazem parte da vida do ser humano a bastante tempo. Hoje observa-se um aumento no número de animais de companhia, principalmente na população de gatos que no Brasil existem cerca 19,8 milhões (ABINPET, 2012). Segundo Serpell, (1989) os gatos cada vez mais estão deixando de ser simples animais de companhia e vem se tornado membros da família, sendo tratados como quase pessoas; devido principalmente à sua grande capacidade de adaptação aos diferentes tipos de ambientes (BEAVER, 2003). Além disso, agradam os gostos da sociedade moderna com a popularização de construções verticais, moradias menores e novos estilos de vida (NUNES, 2011).

Mas para se ter uma convivência harmônica entre os animais de companhia e os humanos, deve-se entender a linguagem expressada por este animal, que se comunica mediante a visão, olfato e audição, e para isso utilizam os olhos, orelhas, boca cauda, e principalmente a postura corporal (OVERALL, 1997). 

Principais posturas e expressões corporais

A postura mais conhecida segundo a Cat Friendly Clinic, (2018) é aquela em que o animal levanta o pêlo ao longo do dorso arqueado, mostra os dentes e achata a orelha; essa postura é utilizada principalmente para parecer maior e espantar o inimigo. No entanto, quando ele se sente ameaçado ele se recolhe e afasta para evitar brigas.

Já na postura ofensiva os gatos mantem um contato visual direto com o corpo curvado para frente e a cauda movimentando-se ou rígida. Quando o animal fica com a cauda no ar de aparência relaxada e ele se esfrega no corpo do seu tutor, indicando que o animal está querendo carinho. Observamos na imagem abaixo, o gato calmo (A0B0), agressivo, mas de forma ofensiva (A3B0), defensivo e ofensivo (A3B3), sendo que na série A0B0 - A3B0 o gato vai se tornando mais ofensivo e na A0B0 - A0B3 torna-se mais defensivo.

Adaptado de: Rivera, (2011).
Segundo a Royalcanin (2018) os gatos emitem suas expressões com a cabeça e para isso eles utilizam a posição das orelhas, formato dos olhos e bigodes. Quando o gato está neutro aparenta as orelhas eretas voltadas para frente e olhos arredondados; já quando ele está nervoso, suas orelhas vão estar levantadas, retas e viradas para o lado, e seus olhos em formato afunilado; na ocasião em que as orelhas ficam baixas, e pupilas arredondadas e dilatas o gato apresenta-se comportamento agressivo; orelhas abertas e em direção a frente, com olhos semiabertos e pupila em fenda indica que o gato está feliz. Observamos estas expressões na imagem abaixo:
Adaptado de: Royalcanin, (2018)
Ainda de acordo com o autor supracitado os gatos se expressam também através dos sons, tais como:
• Ronronar: que quando filhotes, durante a amamentação indica que estão satisfeitos e que tem completa dependência por ela. Já quando o animal ronrona com o tutor, indica que o gato está contente e com bem-estar.
• Rosnar: este som é emitido como forma de defesa do animal, geralmente o gato o emite para tentar intimidar.
• Miar: pode variar em função do gato, existem casos em que o gato costuma miar bastante, mas há situações em que o gato é mais quieto e quando mia muito é para indicar que ele não está bem. Conforme Madi (2015) existe o miado comum, que é para chamar a atenção de seu tutor, e o miado em um tom mais alto que indica que o animal está exigindo algo, ou mesmo, está insatisfeito com algo; porem se o miado for alto e longo, pode indicar que o animal está com dor.

O gato segundo Beaver (2003) possui em sua anatomia uma enorme quantidade de glândulas sebáceas que são localizadas ao redor da boca, queixo, área perianal e na base da cauda. Por isso que os gatos geralmente gostam de esfregar essas áreas, este ato é conhecido como rubbing sendo considerada outra forma que os gatos utilizam para se expressar. Muitas vezes indicam, dominância ou estatuto social (OVERALL, 1997). Há ainda uma outra forma de comunicação que é olfativa, realizada através urina (spraying) empregada, sobretudo, por machos não castrados, com intenção de marcação territorial, sexual e agonística (BEAVER, 2003).

De acordo com Henzel, (2015), diferentes tipos de glândulas presentes na pele e em certas membranas mucosas estão envolvidos na produção de feromônios que apresentam funções espaciais, sociais e sexuais, há 6 grandes áreas que atuam na produção de feromônios sendo elas:

1. Área facial: Área das glândulas periorais e da bochecha, com muitas estruturas secretoras no queixo.
2. Complexo podal: Local onde estão localizadas as glândulas podais dos membros torácicos e pélvicos. São estruturas presentes nos coxins e na região interdigital, que é usada para secretar suor, como exemplo em uma situação em que o gato está com medo.
3. Complexo perianal: Área onde estão localizadas as glândulas supra caudais, circum-anais e sacos anais.
4. Complexo genital: Estão presentes nesta área as glândulas sebáceas do prepúcio ou vulva, e glândulas mucosas uretrais ou genitais.
5. Complexo mamário: Feromônio secretado pelas glândulas sebáceas presente entre as cadeias mamarias.
6. Urina e fezes: São fontes de feromônios, sendo a fezes usada para indicar situações alarmantes.

A posição da cauda ainda expressa mais comunicações do gato. Quando ela está na horizontal indica confiança, demonstra que o gato está relaxado. Caudas côncavas mostra que o gato está na defensiva. Quando ela se encontra na vertical indica que o gato está amigável. Na ocasião em que a cauda é colocada entre os membros posteriores mostra que o animal está submisso (OVERALL, 1997).

Por que entender a linguagem dos gatos

A relação homem-gato tem implicação direta no comportamento de ambos, podendo ser relação de prazer ou até mesmo de conflito (SANTOS, 2014). A linguagem corporal dos gatos é sem dúvida muito importante, sendo esta desenvolvida para melhorar a convivência com estes felinos. Suas expressões faciais associadas às corporais são a melhor maneira que os gatos encontram para transmitir uma mensagem clara (CAT FRIENDLY CLINIC, 2018). 

Compreender como o gato se sente, se está feliz, relaxado, ou mesmo angustiado e perturbado, torna-se uma importante tarefa que o tutor deve desempenhar. Permite aumentar a sensação de segurança do gato, o que consequentemente aumenta a demonstração de amor e afeto do animal para com o seu tutor, proporcionando desta forma, uma boa convivência entre gato-homem (VIGNE et al, 2004).

Conclusão

É de grande importância entender o comportamento do gato através de suas expressões corporais ou sonoras já que é o modo de comunicação dos gatos, os quais expressam suas emoções, desejos ou mesmo um estado de doença. Este entendimento permite aos tutores de gatos um aprofundamento na relação gato-homem, gerando um ambiente harmônico de boa convivência e socialização. 



Referências:
ABINPET, Associação Brasileira da indústria de produtos para animais de estimação, 2012, Disponível em:< http://abinpet.org.br/site/>. Acesso em: 24 de fevereiro de 2018. 
BEAVER B. V., Feline behavior: A Guide for Veterinarians, 2ºEd, W B Saunders Company, 2003. 
CAT FRIENDLY CLINIC, Linguagem Corporal nos Gatos, 2018, Disponível em:. Acesso em: 24 de fevereiro de 2018. 
HENZEL M., RAMOS D., Uma introdução ao uso dos feromônios sintéticos na clínica veterinária comportamental, 2015, Disponível em:< http://psicovet.com.br/wp-content/uploads/pdf/image/ceva_PetJournal-Ed21.pdf>. Acesso em: 24 de fevereiro de 2018. 
MADI R., Miado de gato – Como entender o seu gato, 2015, Disponível em:< http://www.cachorrogato.com.br/gato/miado-gato/>. Acesso em: 24 de fevereiro de 2018. 
NUNES, J. O. R. Contribuição para o estudo da dinâmica de populações de cães e gatos do Município de Jaboticabal, São Paulo. 91f. Dissertação (mestrado em Medicina Veterinária). Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias. Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Reprodução Animal. Universidade Estadual Paulista – Unesp, Jaboticabal, São Paulo, 2011. 
OVERALL K. L., Clinical Behavioral Medicine for Small Animals, 1ºEd, Mosby, 1997. 
RIVERA, D. G., Agressividade felina contra pessoas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, porto alegre, 2011/2. 
ROYALCANIN, Interpretando a linguagem e o comportamento de seu gato, 2018, Disponível em:< http://www.royalcanin.com.br/newsletter/gato-adulto/interpretando-a-linguagem-e-o-comportamento-de-seu-gato>. Acesso em: 24 de fevereiro de 2018. 
SANTOS, M. I. M. M. F. Epidemiologia das alterações comportamentais em cão e gato da consulta de referência em Portugal. Portugal. 2014. 
SERPELL, J.A. Pet-keeping and animal domestication: a reappraisal. In: 
CLUTONBROCK, J. The Walking Larder: Patterns of Domestication, Pastoralism and Predation. Cambridge: Cambridge University Press, p.11-19, 1989. 
VIGNE, J.D. et al. Early Taming of the Cat in Cyprus. Science, v. 304, n. 9, p. 259, 2004.