quinta-feira, 1 de março de 2018

Importância da ingestão de água para o gato

Lizia Cordeiro de Carvalho¹; Camilla Mariane Menezes Souza²; Cristina Sá-Fortes3 

¹Mestranda em Zootecnia, UFMG 
²Mestranda em Zootecnia, UFPR 
³Docente, UFMG 

A população de animais de estimação vem crescendo ao passar dos anos, colocando o Brasil como a segunda maior população de cães e gatos, ficando atrás através apenas dos Estados Unidos. O país possui 22,1 milhões de gatos (ABINPET, 2013), sendo essa a população que mais se multiplica entre os animais de estimação (IBGE, 2013) visto a modernização das cidades e individualização crescente da sociedade. 

Com o aumento afetivo por estes animais, cresceu também a preocupação com sua saúde e longevidade. Um fornecimento incorreto de alimento pode aumentar às chances de diversas alterações metabólicas propiciando o surgimento de enfermidades (CARCIOFI, 2007).

Os gatos são classificados com carnívoros estritos, adaptados a uma dieta de alta digestibilidade, com elevada concentração proteica, moderada de lipídeos e mínima de carboidratos (ZORAN, 2002). Esses mantêm suas características de caça e extinto predador mesmo nos animais bem alimentados (KIRK, et al., 2000). Além do alimento a dieta completa inclui a ingestão de água, que é esquecida ou pouco discutida.

A água exerce funções essenciais no organismo, dentre elas, meio de transporte para substâncias, solução tampão, lubrificação, reações de hidrólise, auxilio na termorregulação, além de ser o principal constituinte de células, tecidos e órgãos (OLIVEIRA, 2016). No entanto, o consumo de água potável pelos gatos é baixo (GRANT, 2010; WEI et al., 2011).

A ocorrência da baixa ingestão de água pode aumentar o risco de várias enfermidades, dentre elas destacam-se doenças no trato urinário inferior de felinos (CASE et al., 1998; CARCIOFI, 2007). Outros sistemas como o cardiovascular, respiratório e nervoso, o trato digestivo, e o fígado dependem da adequada hidratação para o bom funcionamento. Enfatizando, a necessidade de maior ingestão de água pelos gatos. 

Urolitíase em gatos

Várias doenças principalmente renais e no trato urinário inferior de felinos, podem ser causadas ou agravadas pela desidratação. De acordo com O’NEILL et al. (2015) nos EUA estas doenças são consideradas como a maior causa de morte em gatos, com mais de cinco anos. Dentre elas, a urolitíase é um problema clínico preocupante, e acomete felinos em diversos países (LULICH et al., 2016) estando associado com concentração de diferentes minerais e formação de urólitos na bexiga urinária e/ou uretra (YAMKA et al., 2006). 

Ainda, segundo o autor supracitado, dentre os urólitos formados, os de estruvita e oxalato de cálcio são os de maior ocorrência. A sua formação também está relacionada com o pH urinário, que pode ser alterado por aminoácidos sulfurados e macronimerais, encontrados na dieta do animal. A urolitíase pode causar obstrução urinária, que são fatores que provocam à cistite, caracterizada pela inflamação da mucosa da bexiga, sendo aguda ou crônica (LIMA et al., 2008).

Uma das alternativas para diminuir a formação de urólitos baseia-se no aumento da ingestão de água, que consequentemente irá aumentar o volume urinário, diminuindo a concentração dos minerais na urina, auxiliando na eliminação destes (Lima et al., 2008).

Consumo de água pelos gatos

Sabe-se que os gatos são originalmente de regiões desérticas, os quais tinham baixa disponibilidade de água potável, porém, eles se alimentavam várias vezes ao dia de presas com elevado teor de água, uma média de 70 a 80%, diminuindo a necessidade de ingestão da mesma (STETOFF, 2004). Os cães, diferente dos gatos, suprem facilmente a necessidade de água que o corpo precisa, devido ao impulso de sede controlado pelo hormônio antidiurético (PENZ, 2016), que não é tão desenvolvido nos gatos.

Neste sentindo, como os gatos não sentem necessidade de ingerir água várias vezes ao dia, mesmo em estado de desidratação, esses animais podem concentrar a urina, afim de, perder pouca água corporal e sobreviver com baixo consumo (HOUSTON, 2007). Entretanto, manter o corpo bem hidratado é fundamental para um bom funcionamento do organismo, sobrevivência e manutenção da saúde.

O estimulo de ingestão de água é influenciado por fatores internos ao animal como: a ingestão de alimento, a composição proteica e mineral que esse alimento apresenta, o seu estado fisiológico e seu desenvolvimento de atividades físicas, além de fatores externos como: temperatura, umidade relativa do ar e condição da água oferecida (ZANATTA, 2016).

Os gatos têm particularidades individuais, quanto à fonte de água, dentre elas a temperatura e a forma de oferecê-la (GRANT, 2010). Existem no mercado dois tipos de bebedouros para gatos, o tipo tigela e o tipo fonte, o qual a água mantem-se em movimento. No entanto Grant (2010) relata que mesmo após o estimulo pelo bebedouro não houve alterações significativas no consumo.

Além da fonte, a temperatura da água pode aumentar ou diminuir o consumo. Em dias quentes podem-se adicionar cubos de gelo a água do animal, a fim de manter a temperatura mais agradável e ajudar na termorregulação do animal. Além disso, a localização do bebedouro é essencial. Distribuir vários bebedouros ao longo do ambiente que o animal vive preferivelmente em lugares mais calmos que não atrapalhe ou desestimule o consumo, é uma prática recomendada.

O alimento também é uma importante fonte de água para o animal. Atualmente encontram-se três tipos de alimento completo para gatos, os úmidos que contêm de 72 a 80% de umidade, semi-úmidos com 25 a 35% de água e os mais consumido o alimento seco que apresentam10 a 12% de umidade (RICE, 1997). A variação da água da dieta regula o consumo de água potável pelo animal. Gatos que consomem alimentos úmidos ingerem menos água, diferente dos animais que consomem alimento seco. No entanto, o consumo total de água é maior em animais consumindo dieta úmida, pelo elevado teor de água no alimento (WEI et al., 2011).

Desta forma, como o alimento consumido pelo gato, interfere na ingestão de água, uma das formas de aumentar esse consumo seria com adição de água nas suas refeições. Esse processo deve ser gradual, para que assim o animal se acostume com a textura da dieta.

Considerações finais

É evidente que o aumento do consumo de água tem função de prevenção de doenças no trato urinário inferior de felinos. Há uma falta de ênfase nas pesquisas e na indústria, sobre a importância da água como um nutriente essencial para os gatos. Estimular seu consumo é essencial, afim de, proporcionar para seu gato de estimação uma vida mais saudável e longevidade.


Referências:
ABINPET . Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de estimação, 2013. Disponível em: . Acesso 25 Fevereiro de 2017. 
CARCIOFI, A.C. Métodos para estudos das resposta metabólicas de cães e gatos a diferentes alimentos. R. Bras. Zootec., v. 36, suplemento especial, p. 235-249, 2007. 
CASE, L.P.; CAREY, D.P.; HIDREAKAWA, D.A. Nutrição canina e felina: manual para profissionais. Madrid: Harcourt Brece, p. 424, 1998. 
GRANT, D.C. Effect of water source on intake and urine concentration in healthy cats. J Feline Med Surg, p.431-4. 2010. 
HOUSTON, D.M. Water intake and urine output: what we think we know about cats and urinary tract disorders. In: Small Animal-Nephrology and Urology-The North American Veterinary Conference, p. 673-674, 2006. 
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2013. Disponível em:http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv39560.pdf. Acesso em: 25 Fevereiro de 2017. 
KIRK, C.A., D.J.;. ARMSTRONG P.J. Normal cats, in Small animal clinical nutrition, M.S. Hand, et al., Editors. Mark Morris Institute: Missouri. P. 291 – 340, 2000. 
LIMA, E.R.; REIS, J.C.; MENEZES, M.M.; SANTOS, F.L.; PEREIRA, M.F.; ALMEIDA, E.L.; TEIXEIRA, M.N.; SILVA, M.G.V. Aspectos anatomopatológicos em gatos domésticos com doença do trato urinário inferior. Medicina Veterinária, Recife, v. 2, n. 4, p. 17-26, 2008. 
LULICH, J.P.; BERENT, A.C.; ADAMS, L.G.; WESTROPP, J.L.; BARTGES, J.W.; OSBORNE, C.A. Recommendations on the treatment and prevention of uroliths in dogs and cats. J. Vet. Intern Med. p. 1564-1574, 2016. 
OLIVEIRA, J.P.C.A.; GONÇALVES, L.C.; JAYME, D.G.; DINIZ, T.H.; PIRES, F.P.A.A.; CÔRTES, I.H.G.; CRUZ, D.S.G.; SANTOS, D.; MOURA, A.M. Considerações sobre o consumo de água por bovinos. Nutri Time, vol. 13, n. 01, 2016. 
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